UNLOCK: TÂNIA DIOESPIRRO

Architecture

UNLOCK: TÂNIA DIOESPIRRO

por5 Jun 2017 lmanifesto

A tez pálida, não um tom qualquer, um branco especial, bonito… imaculado.

Lembra-nos uma personagem digna de filme francês. Daqueles cujo argumento parecia interessante, mas quando a incroyable femme française entra em cena, mesmo não sendo a protagonista, só pelo carisma que emana, congela o frame nesse mesmo instante e faz-nos perder o foco entre um ou outro momento fulcral que nos permitiria a compreensão total da mensagem e do fio condutor da história. Viajar pela sua indumentária: de uma simplicidade híper chique, cabelos escuros assumidamente despenteados e tez no make up awesome, faria imediatamente com que a vontade de aumentar a classificação do filme no ranking do IMDb disparasse. #twomorestarsplease

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Dulce Daniel

Pois bem, de alguma forma descrevemos a nossa convidada, se bem que Tânia não é actriz e muito menos francesa, porém, a sofisticação e a beleza cativante são adjectivos que entram na sua equação vectorial. Existe um je ne sais quois, uma sensualidade, uma atitude cool e um estilo que assenta sobre uma predilecção por linhas, cortes e formas, que achámos fazer sentido explorar nesta semana.

Abriu-nos a porta do seu apartamento, no Porto, no clássico e característico white look, soft ballerina pumps e uns suspensórios por baixo do seu blazer oversized. #Pow

Não é à toa que Tânia Dioespirro, o nome pelo qual é conhecida, é stylist, designer gráfica de formação e ainda manequim.

A preocupação e sentido estético são o denominador comum não apenas do que já conhecíamos de Tânia e do seu trabalho, mas também, como tivemos o privilégio de confirmar, de todos os detalhes que se estendem pela sua casa.

De alguma forma, e no decorrer da conversa que tivemos, acredita ter herdado esta sensibilidade muito por influência da sua avó. O carinho, respeito e admiração com que relata histórias partilhadas a duas, fazem-nos acreditar que esta relação influenciou e ainda influencia diariamente o percurso de Tânia.

 

 

Sou super fã da minha avó, há sempre imensa coisa que costumo trazer de casa dela, principalmente roupa. É uma mulher maravilhosa em tantos aspectos, é uma referência para mim! Acabo por ter imensa coisa dela porque sempre foi uma pessoa muito à frente para a altura dela, disruptiva. Entre outras coisas, mandava fazer os sapatos iguais aos casacos, por exemplo, herdei uns sapatos de pele azulão cujo salto é feito de vidros de várias cores que a minha avó idealizou e mandou fazer! Mas não é só isso que me faz ser sua fã, é a sua maneira de ser carinhosa, querida, compreensiva. Na nossa geração fala-se muitas vezes que testemunhámos uma evolução tecnológica enorme, mas no caso da minha avó, que nasceu muito antes do 25 de Abril, e com todas as condicionantes agregadas, assistiu a essas e muitas outras inovações e adaptou-se perfeitamente. De cada vez que recebo uma mensagem com emojis só me faz pensar que quero ser como ela quando chegar à sua idade.

 

A minha avó influenciou-me, absolutamente. Sempre tive uma grande paixão por pintura, a verdade é que queria seguir essa área e a minha avó limitou-se a apoiar-me e incentivar-me, levava-me a museus e galerias de arte no Porto. Sempre me disse que poderia ser o que quisesse e, de uma forma inconsciente, sempre incentivou a minha vertente criativa e o meu amor pela estética, pelo visual!

Há coincidências que, até para os mais cépticos, nos fazem acreditar na tão cliché expressão: ”É o destino!”. Tânia conta-nos que a casa onde actualmente vive representava, desde pequena, um sonho. Quando por lá passava, afirmava que queria lá viver com tanta certeza e convicção que o universo se juntou para lhe trazer o tão desejado presente.

 

Esta casa era uma fábrica antiga, com uma só fachada levantada; atrás dela não existia mais nada. A esquina onde agora é o meu quarto sempre foi uma varandinha de ferros em ruínas e desde pequenina, sempre que por aqui passava com a minha mãe, dizia na brincadeira que um dia iria morar aqui, gostava de uma casa assim com carisma. E é surreal! É engraçado que isso resultou de uma série de coincidências porque, entretanto, tinha visto um apartamento do qual gostei imenso em Cedofeita que acabou por não ir para a frente. Quando soube que havia um projecto para habitação deste prédio vim imediatamente vê-lo.

A minha casa resulta de uma mistura minha e do Ed, que é músico e cujo estúdio é no nosso escritório. Essas influências fazem com que, por exemplo, tenha um amplificador, um leitor de vinil e outro de cassetes na sala! Mas eu adoro e, para além disso, são objectos bonitos!

Era já clara a predisposição de Tânia para a moda e para áreas mais criativas, influências familiares, ou não, quisemos saber um pouco mais sobre o seu percurso e ver de que forma se reflectia pelos detalhes da sua casa.

 

Nunca foi o meu sonho ser manequim, toda a gente que me conhece sabe, inclusive a minha agência. A verdade é que comecei o trabalho de manequim muito tarde, aos 18 anos. Esta é uma história muito gira, desde os 15 anos que a Best Models Agency me contactava, mais ou menos, uma vez por ano para saber se já estaria interessada em iniciar uma carreira, a minha resposta era invariavelmente negativa. Entretanto, quando entrei para a faculdade para tirar Design Industrial, teria uns 18 anos, deixaram de me contactar. Só que simultaneamente, esse foi um momento em que comecei senti vontade de ter a minha independência financeira e não precisar de pedir constantemente ajuda aos meus pais para as minhas coisas, e como tal, decidi que tinha de começar a trabalhar. Para variar, tomei a iniciativa de contactar a Best. Nesse momento, e isto é muito engraçado porque criei uma relação muito especial e de muitos anos com a minha booker, a primeira resposta que ouvi da parte dela foi “ Muito obrigada, mas agora não estamos interessados!”, mas, logo de seguida explicou que estava a brincar e que continuavam interessados! O meu primeiro trabalho foi logo no Portugal Fashion, uma entrada a pés juntos!

 

Ter iniciado a carreira de manequim influenciou o meu percurso até agora, porque tirei o curso em Design Industrial e depois fui para ESAD tirar o mestrado em Design de Comunicação e percebi que queria continuar ligada à moda, mas não necessariamente à carreira de manequim. Cheguei à conclusão que queria aplicar os meus conhecimentos de Design de Comunicação aos que possuía na área da moda. Em resumo, queria comunicar moda. Fui trabalhar para a Fashion Clinic para o Departamento de Marketing e fiquei lá quase um ano. Entretanto, esta casa ficou pronta e tive de decidir a minha vida e optei por voltar ao Porto, às minha raízes e onde estão as minhas pessoas! Hoje em dia trabalho como freelancer e dedico-me à direcção criativa de editoriais e styling.

O trabalho que desenvolvia no meu blog constituía um cruzamento entre um look e a curadoria de alguns trabalhos artísticos, influências e referências com as quais me identificava e admirava. Essa pesquisa também me inspirava muitas vezes e possibilitava fazer a ligação entre o imediato da moda  e a parte mais criativa que é o que mais gosto de fazer. 

 

Gosto de trabalhar conceitos, de os criar; não tem de ser, necessariamente, algo abrangente, pode até ser bastante específico. Depois vou buscar inspirações que podem vir de tudo, tanto de uma notícia, como de uma imagem zero moda e que vi no instagram. Mas nem sempre é fácil, tenho de sentir e encontrar aquele click, as coisas têm de bater, têm de contar uma história e não descanso enquanto não o encontro. É um trabalho difícil, que exige muito de mim mas que adoro!

As referências e o equilíbrio estético denunciam essa paixão.

Eu sofri muito no momento em que comprei e comecei a decorar a casa. Normalmente toda a gente diz que adora, que foi super giro mas eu não senti isso. Não que tenha qualquer problema com compromissos, mas sentia uma enorme dificuldade quando tinha de comprar peças mais importantes e marcantes, por exemplo como este sofá. Pensava sempre: “Ok. Gosto muito dele mas e se eu depois descobrir outro do qual gosto ainda mais? Andei assim o tempo todo!

 

Mobilar a casa foi literalmente juntar os trapinhos, eu e o Ed trouxemos imensa coisa de casa dos nossos pais e avós. Estes sofás, por exemplo, vieram de casa do Ed. Decidimos aproveitar algumas peças que já tínhamos e que faziam sentido. Fomos fazendo as coisas com calma. Por exemplo, só temos mesa de centro há um ano e vivemos aqui há 3.

Eu e o Ed temos um hobbie que é a fotografia. Sou muito visual e sinto que tenho esse sentido muito apurado… nada me dá mais prazer do que ver uma imagem bonita, seja uma paisagem ou uma fotografia. Até na forma como disponho as coisas, tem de ter uma composição equilibrada e isso reflecte-se um pouco em tudo.

O objectivo passa por preencher esta parede e já temos imensa coisa mas falta tempo para nos dedicarmos. Um dos quadros é uma colagem que fiz para oferecer ao Ed como prenda de anos. É um bilhete para o Primavera Sound em Barcelona em que íamos ver St. Vincent e os Metronomy e ofereci-lhe a colagem com os elementos da viagem e no final diz vale um bilhete.

 

Este foi um trabalho meu que fiz com o Orlando Gonçalves, escolhi esta foto porque gosto muito deste trabalho e esta era a única onde o meu rosto estava escondido.

Estas duas garrafas, foram-nos oferecidas pela Super Bock , são as garrafas originais.

Este é o carimbo da empresa de algodões do avô do Ed e o rádio era da casa da minha avó.

Gosto de coisas muito clean, minimais mas depois gosto de peças mais estranhas e diferentes como é o caso deste anjinho que estava na casa da minha tia-avó e que pintei de branco.

 

Preciso de branco em casa. É engraçado que como stylist odeio trabalhar com o P&B, apesar de ser um estilo e conjugação cromática com a qual gosto de me vestir, prefiro trabalhar com volumes, padrões e opções mais excêntricas. Cheguei a conclusão que me visto normalmente com estas cores por uma questão de preguiça, de manhã é tão mais fácil pegar numas calças e numa t-shirt branca.

Não consigo comprar roupa e tenho sentido um peso muito grande em relação à quantidade de roupa com que lido no meu trabalho e à quantidade de roupa que, hoje em dia, se produz. A temática ecológica tem me sensibilizado bastante nos últimos tempos. 

 

Seleccionar uma peça é sempre difícil mas tenho um casaco do qual gosto particularmente, é do Júlio Torcato. Foi a última peça que comprei. Hoje em dia prefiro comprar uma peça altamente e gastar um pouco mais de dinheiro do que várias sem qualidade!

A minha perdição são sapatos e casacos. Neste momento em particular, a minha predilecção é por ténis, são mais confortáveis e adequam-se melhor à minha profissão. Estas são sóbrias, pretas e brancas mas depois apresentam este detalhe statement.

Ando sempre com tudo na mochila: o rolo do pêlo, as molas, os alfinetes e acompanha-me para todo o lado. É a minha melhor amiga.

A minha casa funciona como refúgio. Ambos trabalhamos em casa e isso requer método. É o chegar a uma determinada hora e estipular que acabou, obrigar-me a não me sentir culpada por estar ao pé do computador a ver um filme, no horário em que é suposto fazê-lo. É uma gestão complicada mas que tem de ser feita caso contrário não teríamos tempo para nós.

 

Um refúgio que lhe estava destinado e que lhe valeu a concretização de uma relação utópica de anos e que, agora, vai transformando e construindo ao sabor de uma mistura de memórias de um passado repleto de significações e um presente cheio de desafios e beleza.

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