Se o conceito de república ou fraternidade ainda existe, esta é a casa que melhor se coaduna com a definição e com o espírito dessa filosofia de vida!
Um T5, numa das zonas mais nobres da capital, com o tão característico e infindável pé direito, tectos trabalhados, corredores de perder a vista e portadas em madeira!
Falamos da casa de Marta Gonçalves e (como se costuma dizer que os amigos são a família que se escolhe) da família que escolheu!
Uma casa por onde passaram, já, diversos hóspedes e que permanecerá, para sempre, como palco dos melhores e mais intensos momentos da tão aclamada e desejada juventude!
Um apartamento em constante adaptação, que em cada prateleira, em cada parede perpetua uma história, uma pessoa, um tempo.
Texto: Margarida Marinho
Fotografia: Soraia do Carmo

Descobrimos nomes gravados nas janelas, que posteriormente foram pintadas mas que o baixo-relevo acabou por se manter!
Quando dizemos escolhidas, podemos quase afirmar que existem alguns critérios que vão ajudando no processo de triagem e posterior “adopção” do novo membro da comunidade!
Naturalmente fazemos sempre uma selecção, na tentativa de preservar a nossa ligação e a nossa relação, não queremos alguém que seja só trabalho, as suas saídas e que chegue a casa e se enfie logo no quarto!

Marta fez-nos um simpático tour pela casa e, em cada esquina, uma nova história surgia, uma recordação. Naturalmente, o ponto de partida foi o seu quarto, o maior da casa, com uma luz fantástica e um tecto branco com desenhos minuciosos, em relevo, que lhe dão as boas-vindas assim que regressa dos braços do Morfeu.
É uma pessoa de pessoas, adora receber os seu amigos e conviver mas a sua casa não deixa nunca de ser o seu refúgio e o seu quarto, o seu espaço.
É lá que apesar de apresentar um décor clean, muito à semelhança de si própria, conserva detalhes e vivências que foi juntando e que falam sobre si e sobre os seus interesses!



Não sou uma pessoa de coleccionar mas preservo algumas coisas que têm um significado para mim! Facilmente acumulo coisas, não colecciono mas acumulo. Lembro-que quando voltei de Castelo Branco, cidade onde estudei design de moda durante 3 anos, era ridícula a quantidade de coisas que trazia comigo! Acho que também se deve muito ao meu trabalho e ter de andar com tudo de um lado para o outro! Mas nem sempre fui assim, agora que penso sobre isso, a minha mãe deitou fora as únicas All Star que tive, já eram uma relíquia, todas rotas e, na altura, pensei: “Como assim?!” Posso dizer que, agora sim, sou um bocado desapegada.
O tampo desta secretária foi feito com um pedaço de madeira que estava esquecido e que tinha feito parte da decoração da montra na COS, a loja onde trabalho em part-time. Também já cheguei a fazer uma t-shirt com um pedaço de neoprene que lá estava!

Este espelho que veio do quarto dos meus pais, tem anos e anos, lembro-me dele desde a nossa primeira casa!

Este pisa-papéis em formato de mocho era do meu avô e lembro-me perfeitamente de o ver na secretária dele! O engraçado é que a minha marca significa mocho em francês e as pessoas têm a tendência de me dar tudo o que está relacionado com este animal!
Desde pequena que me chamam mocho. A primeira pessoa a chamar-me acho que foi o meu tio, por causa dos meus olhos, tinha uns olhos grandes! E na altura em que estava a pensar num nome para a marca lembrei-me precisamente disso e, como o meu pai tinha vivido em França e fala fluentemente o francês, decidi fazer uma adaptação e chamar-lhe Hibu!


A família é muito importante para mim e dou muito valor! Cresci com as minhas avós, ambas com personalidades muito diferentes. Com a minha avó materna, que era mais desenrascada, estava à vontade, ia ao café e sem pudor pedia-lhe isto ou aquilo. Já a minha avó paterna, tinha uma personalidade mais calma, cantava e tinha uma voz linda, escrevia e desenhava super bem. Desse lado éramos 6 netos. Este livro foi um presente feito pela minha irmã, é um livro que compila todas as histórias que a minha avó Toninha escrevia sobre todos nós, os 6 netos! Uma recordação muito especial!


As ilustrações são todas de pessoas que aqui moraram! Esta foi feita pela Neuza. Todos nós temos estas molas nos quartos para pendurarmos coisas que consideramos importantes! Gosto de ilustração mas nunca segui particularmente mas gosto imenso de guardar as que os amigos fazem! Nesta altura, a Neuza fez outras tantas e uma dessas ilustrações até serviu de estampado para uma colecção da Hibu! Como família que somos, já trabalhamos muitas vezes em conjunto para a marca!



Fomos deambulando pelo apartamento. Next stop: o atelier improvisado. De seguida, a sala, local de convívio por excelência e onde passa a maior parte do tempo!
Esta máquina de costura era da minha avó, foi ela quem ma deu! Costumava costurar tudo com esta máquina, depois de ma dar passou a fazer tudo na outra máquina com o pedal! Foi através da minha avó materna que me surgiu o bichinho da costura e o meu gosto pela confecção, é um jogo de paciência!



Este gato é uma peça Bordallo Pinheiro, chegou há relativamente pouco tempo e o engraçado é que sempre chamamos a esta casa o Bordel Pinheiro. Não não que seja um bordel mas pelo número de pessoas que vão entrando e saindo! Passo a ser a nossa mascote!

A nossa varanda, é um sítio muito importante e muito calmo. Sentei-me muitas vezes aqui com o Gonçalo para definirmos a nossa colecção ou só para relaxar!

Estamos em 2017, num ano que ainda agora começou mas que já começa a abanar alicerces. A moda é, muitas vezes, uma das primeiras áreas a ser contagiada, para o bem e para o mal. Neste caso falamos para o lado do bem, no sentido de quebrar barreiras e tabus e caminhar para a normalidade e igualdade que tanto desejamos. As coleções No Gender marcam uma reviravolta, acabam com categorizações, estigmas e estereótipos. Falamos da peça, pela peça.
Um tema que nos remete imediatamente para Marta. Em 2012, juntamente com Gonçalo, criou a Hibu, sob o mote de uma colecção No Gender. Entretanto, 5 anos se passaram mas o pioneirismo não, continua e é para manter!

A Hibu surgiu porque eu tinha um portefólio digital, tinha um nome, já tinha Facebook da marca, e, por um mero acaso, na mesma altura, o Gonçalo, que inicialmente fez parte da marca, estava a desenvolver uma colecção para o AcrobActic (projecto que visava descobrir e lançar novos designers no panorama nacional) e foi um casamento perfeito! Para além disso, por coincidência, recebi um e-mail de duas raparigas da Polónia, que tinham visto o meu portefólio e que queriam fazer um estágio connosco, nada a full-time, porque era Verão e elas também queriam aproveitar e conhecer a cidade, e achamos uma ideia óptima! Arranjámos um atelier na Rua dos Fanqueiros para as receber e trabalhar! Foi, também, nessa altura que relançaram o projecto Sangue Novo e que sondaram diversos criadores nacionais, entre os quais a nossa professora Alexandra Moura, sobre possíveis talentos e acabamos por ser seleccionados! Foi assim!
A estética no gender surgiu em conversa com o Gonçalo. Quando nos juntámos sabíamos que tínhamos uma estética muito parecida, já desde a faculdade. Ambos pensávamos numa mulher que não tem problema em vestir roupa de homem, mais masculina. E depois queria aliar o oversized de que sempre gostei. Na faculdade sempre fomos mais orientados a desenvolver a forma, a trabalhar a modelagem, as pinças, as rotações de pinças, a roupa cintada, estruturada e eu não me identificava com isso. Sempre preferi o drapping, o trabalhar a forma no corpo do manequim.

Chegar ao conceito unissexo acabou por ser natural porque sempre gostei da estética masculina, até para mim mesma! Nunca me identifiquei com aquele estilo super girly, quando ia às compras tanto explorava a secção masculina como feminina, o que interessa é gostar dela!
Gosto de trabalhar com outras pessoas, em conjunto. Acho sempre mais interessante pensar com várias cabeças! “ A minha roupa pode ser sempre vestida pro todo o tipo de pessoas, o engraçado também é que através do unissexo podes vestir todo o tipo de corpos e pessoas!

Quando penso numa mulher poderosa penso em alguém bem diferente de mim. A verdade é que, em conversa com algumas pessoas, quando analisámos o que fiz até agora, tenho sempre tendência a não dar valor, sou assim em tudo. Mas depois paro e penso, se as pessoas elogiam e se dão valor ao nosso trabalho é porque tenho algum mérito, não? Às vezes acho que é porque estar tanto tempo a fazer e a ver a mesma coisa que leva a que pareça já não ter o mesmo valor.
Uma mulher forte pode ter as suas fragilidades mas vai arranjar força para superar determinadas coisas que acontecem na sua vida e no seu caminho e que nem se dá conta de que as ultrapassou!


Não há nada no percurso de Marta que não exale força, carisma, free will and free speech. Se voltarmos à citação em que descreve o que acredita ser uma mulher poderosa, facilmente nos surge, quase que em holograma, a sua silhueta petite que parece não ser suficiente para abraçar em si tamanha grandeza e vanguardismo! São exemplos como Marta que mostram que as mulheres, não se medem aos palmos!