UNLOCK: MARTA FRAGATEIRO

Garçonne

UNLOCK: MARTA FRAGATEIRO

por12 Abr 2017 lmanifesto

Foz do Douro. O dia amanheceu lindo e enquanto percorríamos a marginal até à morada da anfitriã da rubrica Unlock desta semana, isolávamos o som do mar, ali bem perto, enquanto sentíamos o calor do sol nos dias que, majestosamente, assinalaram o seu regresso.
Não podíamos esperar outra coisa, Marta Fragateiro recebeu-nos no seu habitual efforttless cool look,  com o toque edgy da sua franja. #weloveit
Engraçado será dizer que quando abriu a porta de sua casa, não esperávamos, de todo, o que encontrámos...

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Dulce Daniel

Acompanhámos o percurso da Marta há já bastante tempo e, apesar de não nos termos cruzado pessoalmente, fomos criando uma imagem e, inevitavelmente, atribuindo-lhe determinadas características. Desde sempre nos habituou a um estilo muito próprio, um tomboy relaxado e contemporâneo que assenta sobre um trabalho interessante de proporções e formas com uma notória preferência pelo oversized. Looks fortes trabalhados com mestria mas que, acima de tudo, reflectem exactamente a personalidade e atitude da nossa convidada! Real deal, confirmámos in loco.
Porém, ao revelar-nos o interior da sua casa, que segredou ser o seu refúgio, fortaleza que veementemente defende, sentimos uma "vibe" exótica e étnica, de certa forma, desconhecida. É clara a relação de amor que existe com Marrocos.

Tenho a sensação de que as pessoas jamais esperariam que a minha casa fosse assim, esperavam algo minimal, que condissesse mais comigo! Não tenho um estilo muito girly, gosto imenso de roupa masculina, desportiva  e isso não se reflecte na minha casa. Quando aqui chegamos sobressaem outras referências, vemos muitos detalhes, tudo bastante preenchido! A nossa casa reflecte a nossa história, já que somos casados há 16 anos e estamos juntos há outros tantos e são muitas as histórias que nos acompanham e que estão presentes em cada detalhe, cada coisinha foi comprada em conjunto! São peças compradas em locais que nos dizem muito e que, ao mesmo tempo, coabitam com peças que pertenciam a casa da minha avó e dos meus tios, que fazem parte da minha infância e do meu livro de memórias.

 

A minha casa é um reflexo de quem somos e das nossas vivências!

 

Já devem ter reparado que temos imensas influências de Marrocos, somos apaixonados pelo país e vamos lá praticamente todos os anos. Nas primeiras viagens fomos de carro e regressávamos sempre com o carro repleto de peças que íamos comprando. Desde a primeira vez em que lá estivemos, criámos uma relação muito forte com aquela cultura. Acredito que também possa ter sido provocado pelo primeiro impacto, que foi muito engraçado! Lembro-me que íamos de carro e chegámos a Marraquexe já de noite. Não conseguíamos encontrar o Riade no meio daquelas ruas e becos, até que, eventualmente estacionámos no local que nos tinham dado como referência. Chegámos à praça Jemaa al-Fna, que é basicamente onde tudo se passa e, no meio daquele breu, deparámo-nos com um autêntico espectáculo, ficámos boquiabertos! Uma multidão, um choque de cultura gigante, estávamos perante centenas de pessoas, contadores de histórias,  macacos, serpentes, música,  fumo...parecia tudo saído do cenário de um filme do Indiana Jones. Fiquei totalmente abismada, foi um choque! Pouco depois, encontrámos a pessoa que nos levou até ao hotel onde iríamos ficar. Andámos por becos e ruelas escuras, não sabia onde estava e só pensava que queria sair dali o mais rapidamente possível... Até que, a porta do hotel se abriu e quase como de magia se tratasse entrámos num cenário idílico, num sonho!

A par dessa devoção pela cultura e estética Marroquina, Marta adora viajar e, mais do que tudo, adora moda. Dois factores determinantes que sempre andaram de mãos e acabariam por ditar a rota da sua vida. Contudo, no meio de códigos e leis: formou-se em Direito.

Estudei Direito porque há 20 anos atrás, quem não soubesse desenhar, jamais poderia ir para moda! Acho que o facto de ser uma idealista me fez acreditar que conseguiria defender causas e que esse era o meu papel. Não me arrependo nada porque o curso acabou por me dar bases que têm sido muito úteis, mas a verdade é que a moda era a minha paixão.  No dia em que recebi uma oficiosa e vi que tinha de estar presente em tribunal pensei imediatamente:" Não é isto que eu quero, isto não é para mim!

A partir daí tracei o meu caminho na área para a qual sentia que tinha vocação. Abri a minha loja no Porto, que correu super bem, depois mudei a mesma para a Foz e, por fim, abri um espaço em Lisboa. Foram quase 10 anos em que fui muito feliz. Comecei um negócio do zero e fazia tudo, com a ajuda do meu marido. Esse trabalho foi muito interessante porque conciliava dois papéis que sempre amei, o contacto com o público e com as minhas clientes  e o styling, tinha imensas clientes que iam lá para ouvir os meus conselhos para as ajudar na escolha dos looks festa ou para situações mais relaxadas! A minha irmã, que vivia em Lisboa, ajudava-me na divulgação da loja e até chegámos a vesti-la para os Morangos com Açúcar!

Por questões pessoais, por uns tempos, Marta acabou por decidir voar para outras paragens, novos desafios surgiram e a moda acabou por ficar, temporariamente, em stand-by. Mas não por muito tempo, em 2010 lançou o blog, My closet, um escape que a permitiria manter o contacto com a moda e continuar ligada às clientes que tanto estimava. Uma plataforma inspiracional que daria continuidade ao trabalho tanto prazer lhe dava.

Mas pouco tempo depois as viagens e a moda voltaram a  marcar presença no mapa de Marta. Foi buyer da Parfois trabalhando com as linhas de acessórios e festa.

Fomos para a China, Índia, em busca de inspirações e tendências, foi uma experiência muito enriquecedora porque é isso que gosto verdadeiramente de fazer. Um dos privilégios da idade é que, hoje em dia, conheço-me melhor do que nunca, sei aquilo em que sou boa e aquilo que gosto de fazer. Durante estes anos aprendi a antecipar e analisar tendências e a tornar usáveis algumas coisas que aparentemente poderiam não o ser.

 A moda permite-nos ganhar confiança e mostrar quem realmente somos. Quando nos sentimos bem, a nossa postura e motivação mudam totalmente!

 

Quando me casei, há 16 anos, tinha precisamente essa preocupação com o vestido de noiva: precisava de me sentir eu num dia tão importante! E o problema é que eu não sou nada de vestidos e se os usar vou conjuga-lo com uns ténis! Então, eu própria idealizei e desenhei o meu look que, na verdade, não saiu um vestido, mas um top e uma saia! Só assim consegui sentir-me confiante e transmitir a minha identidade. Tudo tem de vir de dentro para ser verdadeiro!

É notória a facilidade e a paixão com que Marta Fragateiro fala sobre moda e as influências de uma vida recheada de viagens por paragens ricas e exóticas. Paragens essas que acabam por atribuir um toque inesperado dentro de uma estética e posturas que adivinhávamos clean e relaxadas. Mais uma prova de que a casa funciona como uma extensão de quem somos e do que vivemos.

© 2017 L Manifesto