Bonequinha de porcelana. Não há melhor definição para Marlene Vinha, a convidada da rubrica Unlock desta semana.
De tez branca imaculada, longos cabelos escuros, olhos vivos e batom Charlotte Tilbury meticulosamente aplicado nos seus lábios desenhados, usa um lindo vestido vintage com desenhos de uma flora delicada e feminina; fechámos assim, com chave de ouro, a fotografia da sua imagem doce e aparentemente cândida.
Porém, de notar que, contrária às habituais descrições, a esta doce e gentil beleza acrescentamos atitude, determinação, carisma e um percurso com uma veia artística fora do comum.
Texto: Margarida Marinho
Fotos: Dulce Daniel

Tudo começou em Economia, tirou o curso um pouco porque a área de negócio lhe circulava no sangue e, como termina tudo aquilo que começa, licenciou-se mas não se demorou muito tempo pela área. Seguiram-se Belas Artes, com dois mestrados, um em Desenho e outro em Ensino. Diz que sempre gostou de trabalhos manuais, uma sementinha deixada pela mãe, que constantemente estimulava essa criatividade e a matriculava em diversas actividades artísticas, sob o mote que referia diversas vezes: "O saber não ocupa lugar!".
Todavia, a pintura e o desenho são o seu xodó (ainda conseguimos observar alguns dos seus trabalhos espalhados pela casa, poucos!) e dá aulas na Universidade do Minho. Mas os pincéis e as cores que usa, hoje em dia, são outros: Chanel, Estée Lauder, Guerlain, Lancôme, Elisabeth Arden, pincelam a sua casa um pouco por todo o lado.


Desde cedo, a beleza ocupou um lugar de destaque e suscitava alguma curiosidade. Exemplo disso é a sua vastíssima colecção de miniaturas de perfumes que faz desde pequena, já lá vão 25 anos. Pode dizer-se que têm ali uma enciclopédia viva e a cores da história dos perfumes que marcaram diversas décadas: Rive Gauche, Trésor, Amarige, Chanel Nº5... A verdade é que dela fazem parte mais de 120 peças deliciosas e de uma perfeição únicas! O caminho estava, de alguma forma, arquitectado. Passar das telas para o rosto em branco parece-nos uma evolução bastante plausível e natural. Paixão essa que a levou a tirar um curso de make up artist por hobbie e que, num piscar de olhos, passou a ocupar uma parcela cada vez maior da sua rotina. Começou por testar a técnica na família e a isso se seguiram alguns trabalhos esporádicos com a irmã Diana, consultora de imagem e stylist. Fácil seria prever que, em breve, se juntariam e abririam o atelier de consultoria de imagem. Posteriormente lançaram o blogue Pretty Exquisite, com a ajuda do namorado de Marlene, o seu mais fervoroso fã, mas também, maior crítico. O blogue surgiu para conciliar as diversas temáticas de que tanto gosta: fotografia, moda, beleza, bem como, inspirar as leitoras através de algumas dicas úteis sobre aquilo que domina tão bem.


Comecei a fazer a colecção de perfumes, quando tinha uns 11 anos e ainda tenho miniaturas de perfumes que usei e alguns que já nem se vendem. Estavam todas guardadas em casa da minha mãe até ao dia em que decidi mudar para este apartamento e encontrei esta vitrine, aí senti que finalmente tinha um sítio onde as podia expor! Tenho alguns repetidos e se alguém quiser trocar era óptimo! O Shalimar, o Dune, o Éden, são perfumes característicos de uma época!

Bem, mas sem nos dispensarmos, entrar em casa de Marlene foi equivalente à sensação de brincar com uma casa de bonecas gigante, um sonho de infância. A metáfora não se prende propriamente com as dimensões mas sim, com os detalhes, com o equilíbrio de cores, com as peças escolhidas a dedo como se tivessem sido desenhadas para ocuparem daquela forma, aquele lugar.
Quando viemos para aqui morar, tínhamos um orçamento reduzido portanto, daí que a decoração ficou dividida entre algumas coisas do IKEA, onde tudo é igual, e as lojas de móveis em segunda mão, como é o caso da Associação Reto. Lá comprámos as mesas de cabeceiras, as cadeiras que depois mandámos forrar e eu própria pintei. Gosto de peças vintage porque contam uma história! Não acho tanta piada à versão mais minimalista, que é mais a estética do meu namorado mas ao mesmo tempo gosto desta convivência pacífica com as peças vintage, dá mais piada e personalidade às coisas! Muito do que trouxemos do IKEA acabou por ser personalizado por mim, de forma a tornar a peça diferente e única.


Eu gosto de cor, confusão e o Sérgio é mais minimalista, mais clean, é um contraste!
O nosso quarto é o espaço mais clean, como é para dormir tem, necessariamente, de ser mais tranquilo. Este candeeiro fui eu que o fiz, a base é uma daquelas estruturas com formato redondo que depois cobri com triângulos de papel tipo crepe. Já tem uns 6 anos! Apesar da bagunça diverti-me imenso a fazê-lo!




Bem-vindos à Meca da maquilhagem, aqui não falta nada, a dificuldade está na capacidade de assimilação de informação, de cores, marcas e odores fantásticos. Ficámos boquiabertas e, se muitas pessoas se dedicam a coleccionar Birkins, Marlene, colecciona produtos de beleza, mas só do nível exquisite para cima!
Este móvel é mais um exemplo de uma peça IKEA que depois tive de personalizar. Aqui tenho a minha maquilhagem organizada por cores, os blushes cremosos, os blush em pó... É importante para que o meu trabalho flua, ter tudo organizado mas durante o dia-a-dia as coisas acabam por ficar desorganizadas, mas sim, considero-me uma pessoa organizada!"




Aqui tenho a minha selecção de perfumes de Inverno e na sala a de Verão. Sou uma pessoa que não gosta de estar presa a um registo, a uma peça de roupa, a um perfume. Não sou muito de modas ou de ir a correr comprar um perfume que acabou de sair e que toda a gente usa. Tenho aqui perfumes que uso há 20 anos, lembro-me de aos 12 anos pedir à minha mãe o Trésor, um perfume com um aroma para adultos. O Eternity do Calvin Klein, por exemplo, comecei a comprar aos 15 anos. Na verdade, gosto muito mais dos perfumes de antigamente, têm mais alma. O ritual de perfumar sempre me encantou, o gesto de colocar o perfume no pulso ou aplicá-lo atrás da orelha com o cristal ou até, a beleza de pulverizar o pescoço com o aspersor. Hoje em dia não se vê isso!
Tenho stock de alguns perfumes e produtos. Este, da Lancôme, por exemplo, era o perfume da minha madrinha e lembro-me de sentir o seu aroma, muito intenso, no elevador sempre que ela ia embora, é um perfume forte e com personalidade. Já não se vende nas perfumarias normais, encontrei-o online e comprei este e outro para ficar em stock.



Uso vários perfumes, vários produtos de maquilhagem, vários cremes... Tenho horror a rotinas de uma forma transversal, nem nos meus rituais de beleza ela se aplica. Exemplo disso é que cheguei a ter 50 perfumes abertos porque gostava de experimentar... Isso aplica-se a tudo! Ao contrário de algumas pessoas, não me associo a um só perfume, mas associo os perfumes a momentos.
Este perfume tem uma história muito engraçada. Há 3 anos, quando fui a Nova Iorque, entrei numa drugstore muito antiga que vendia esta marca nova-iorquina que me era desconhecida. Como sempre, pus-me a experimentar perfumes enquanto o meu namorado lá fora levava uma valente seca. Quando cheguei à porta para irmos embora a primeira coisa que faz é interrogar-me sobre o perfume que estava a usar que era maravilhoso, mas no meio de tantos, já não sabia dizer. Fomos embora e o Sérgio passou o resto do dia a cheirar-me para sentir o aroma e a insistir que tinha de comprar aquele perfume. A dada altura também eu estava viciada. Voltei a essa loja mas em vão porque no meio de tantos perfumes, não consegui descobrir qual era. Regressámos de Nova Iorque sem ele. Entretanto, entrei em diversas lojas numa busca incessante e até comprei o Narciso Rodriguez porque achei que poderia ser aquele, mas não era! Alguns anos depois, em Praga creio, entrei numa loja e senti de novo este perfume, coloquei-o e fui ao encontro do meu namorado que, mais uma vez, estava à minha espera e mal me aproximo ouço: "É esse, encontraste!" Esta foi uma reacção engraçada porque nunca identificou mais nenhum cheiro a não ser este! Guardámos na memória esse aroma, daí este perfume ter uma história para mim e um significado!


Esta é uma edição limitada da Estée Lauder sobre os signos, que nunca usei! E este é o meu signo, a Virgem.

Segundo dizem, e até agora ainda não encontrei nenhuma corrente que dissesse o contrário, a Shiseido foi a primeira marca de cosmética do mundo e este é o frasco que recria o original da primeira loção da marca. Nunca o consegui usar porque o acho tão bonito! A verdade é que tenho uma caixinha com alguns produtos que de tão bonitos que são não os consigo usar! É lindo demais para usar! Sou capaz de comprar uma coisa que sei de antemão que vai ficar intacta!


Adoro batons! Mesmo que não tenha tempo para mais nada, um batonzinho salva sempre o dia! O que trago hoje é de uma edição especial da Charlotte Tilbury inspirada na Queen Elisabeth. Por acaso, sigo a série The Crown e reparei que usam imenso esta cor! Esteve descontinuado e quando voltou a estar disponível comprei imediatamente! Tem este formato diferente porque é feito por especialistas que entendem que assim é possível evitar usar um lápis para delinear.
Eu gosto de dois tipos de maquilhagem: a natural que consegue corrigir alguns detalhes e a criativa que me permite trabalhar a cor e a textura, que me remete um pouco para a pintura!

Estes são os meus dois livros do momento: o primeiro é sobre a história da maquilhagem em que nos mostra que a maquilhagem existe há milhares de anos, que nunca teve o seu lugar definido e não lhe foi atribuído o devido valor e importância. Existem referências desde o antigo Egipto. O segundo livro é mais de consulta, todos os dias leio um pouco e vou corrigindo alguns erros que dizia!

Voltámos à sala e ao predomínio dos tons pastel.
Este retrato pedi à Mariana Miserável para fazer. Creio que deve ter sido dos primeiros retratos que fez deste género. Foi super engraçado porque a Mariana fez-nos uma entrevista para nos conhecer melhor e poder trazer essas informações para este trabalho. Aqui tem referências à nossa música, ao colar que o Sérgio me ofereceu, ele veste a sua camisa favorita e eu estou com o mesmo casaco que usava no dia em que nos conhecemos. Cada detalhe conta uma história! É muito especial e por isso é que o coloquei neste lugar de destaque!




Estes quadros são meus, feitos na altura em que estudava nas Belas Artes e são inspirados na história da Alice no País das Maravilhas.


O interessante destas rubricas é precisamente o facto de nos permitir ver para além da imagem aparente das nossas convidadas e descobrir tesouros como este que Marlene esconde, com uma história tão repleta de detalhes preciosos e de um aroma tão floral e intenso.