Apaixonou-se pela bateria quando viu o primeiro vídeo dos Europe. Mas só mais tarde, aos 13 anos, é que começou a aprender a tocar, espantem-se... Numa igreja.
Hélio Morais não passa despercebido e para além de ser um dos bateristas mais carismáticos da actualidade, músico co-fundador dos Linda Martini, PAUS e If Lucy Fell, tem uma personalidade autêntica e cativante. A sua maneira de ser e de ver o mundo, traduz-se na forma como interpreta a música. E isso, está bem patente na sua entrega em Palco. Foi com um grande sorriso e a boa disposição com que sempre nos habituou, que nos abriu a porta da sua casa, para mais uma rubrica UNLOCK.
Fotografia: Soraia do Carmo
Texto: Cátia Tomé

Com uma vista maravilhosa sobre Lisboa, e um terraço de fazer inveja ao comum dos mortais, perscrutamos atentamente o castiço apartamento duplex, cheio de pormenores vintage e histórias para contar onde o sentido estético do Hélio respira livremente.
Não é segredo para ninguém que adora ler. E, falou-nos sobre a colecção de livros que está um bocadinho por toda a casa.

É muito da Leonor também. Ela é psicóloga e a pós-graduação dela foi em sexologia. Eu, até diria, que há mais livros dela: Uns mais teóricos de psicologia e de estudos. Os outros são opinativos mas muita, muita coisa, de Psicologia. O resto são livros que vou comprando, outros vão-me oferecendo.

Como favoritos vou ter de apontar o “Levantado do Chão” e o “Memorial do Convento”, ambos do José Saramago, como os dois títulos que possivelmente mais gostei. Devorei-os num curto espaço de tempo!
Agora, estou a ler o “Deus-dará”, da Alexandra Lucas Coelho, que é o meu favorito neste momento e já estou a meio. Para além de ela escrever muito bem sinto-me, de alguma forma, familiarizado com o livro, não sei se por ela o ter acabado de escrever na casa que antes era minha ou se é por ser sobre o Rio e eu e a Leonor lá termos estado há pouco tempo, acabo por reconhecer muita coisa que vi e vivi lá.



Este mapa já teve pins em todos os sítios onde nós fomos mas depois desistimos... Eram imensos sítios e já não havia espaço! Principalmente na Europa, por causa das tours. Acabámos por retirar todos. E, também porque os meus eram vergonhosos ao lado dos da Leonor... Ela já viajou bem mais do que eu, para sítios diferentes. Índia, América do Sul, Estados Unidos. Os meus eram muito concentrados no mesmo sítio.


Este, é o original do “Marsupial” que é da Cláudia. Aquele ali, é da segunda tatuagem que eu fiz, desenhado pelo Pedro, um amigo meu que vive em Paris. Eu pedi-lhe para fazer algo naïf , só com outline e apenas um ligeiro apontamento a vermelho. Ele fez isto e, além de ter o original ali pendurado, acabei mesmo por tatuar o desenho.

Aquele adufe tem uma história engraçada. Um dia, eu o Quim fomos ter com as adufeiras de Monsanto, para aprendermos a tocar adufe e, saímos de lá, “enxovalhados”. Eu só pensava: Não consigo tocar isto bem... Enquanto elas fazem isto a cantar e, a subir a Serra! É de doidos! Então, depois da vergonha, cada um de nós comprou um.


Este calendário é onde eu aponto sempre os concertos para não me esquecer... Isto quando me lembro de os apontar... Às vezes, não está assim tão actualizado como deveria! Mas agora até está! Nesta divisão tenho também o meu piano. E dá-me imenso jeito.


Aquele é o meu quadro mais valioso, um Jorge Vieira que era tio da Cláudia. Aquele azul é da Gwen, mulher do Quim (dos Paus).


Passamos para o andar debaixo, para a divisão onde passa mais tempo... A cozinha ou “a zona dos pequenos-almoços”, como carinhosamente lhe chama.
É aqui que fazemos a maioria das refeições quando somos só nós os dois. Temos alguns livros de culinária também. Este, era da mãe da Leonor. Curiosamente não cozinhamos carne em casa, nunca. Peixe, às vezes, mas cozinhamos muito pratos vegetarianos. Mas não tem a ver com princípios nenhuns.


Isto são postais que eu vou mandando para a Leonor quando vou para fora. Escrevo uma dedicatória e envio!

Uma das peças que adorámos na casa do Hélio foi o trolley para ir as compras.
Eu uso! O super-mercado mais perto daqui ainda é um pouco longe! Dá-me imenso jeito! Não vou andar com sacos, isto é muito mais prático.


Aquele cacto, que parece uma estrela do mar, estava morto! Entretanto, ressuscitou... Não sei bem como porque sempre o tratei com pouca atenção!
Metódico e organizado confessa:
Começo a trabalhar muito cedo. Tenho muita disciplina. Por rotina vou para o estúdio, sempre de manhã cedo. Ajuda-me imenso. Quem não trabalha com criatividade acha que a inspiração cai do céu. O que não significa que, pontualmente, também não possa acontecer. Já me aconteceu acordar a meio da noite e ir gravar coisas para a casa de banho, para não acordar a Leonor. Mas não é sempre. As melhores ideias são aquelas em que estás ali a batalhar e a batalhar. Mas trabalhar com criatividade é muito penoso. Acho que é isso que faz com que acabe por ser tão recompensador.

Foi neste ambiente descontraído que o Hélio nos contou, em jeito de segredo:
Estou a preparar um disco meu. O que quer dizer que todas as críticas boas vão ser para mim... Mas, as más também. Acho que estou mais nervoso por causa da voz. Tocar bateria ou tocar piano, não me preocupa por aí além. Porém, a voz é diferente... Se alguém disser que a tua voz não é boa, tu não podes fazer nada. Não podes treinar mais ou fazer nada para mudar. É o teu timbre.
É, com grande curiosidade, que aguardamos por este projecto a solo!