Na entrada do prédio, nada nos preparava para o que iríamos encontrar uns degraus mais acima. Subimos uns lances de escadas, e passada a porta da entrada do renovado apartamento cheio de luz, somos transportadas para um universo em tons pastel, e damos por nós numa casa que parece que foi pensada ao mais pequeno detalhe.
Tudo vive em perfeita sintonia, e depois de conhecermos as personalidades que ali habitam tudo faz ainda mais sentido! Daniel e Cláudia, um casal cuja serenidade transparece em todos os pormenores desta casa de inspiração nórdica. Recém-regressados de Berlim, cidade que foi a sua casa nos últimos anos, receberam-nos de sorriso fácil, na sua nova casa, ondem vivem com Benny, o filho de 3 anos, e com os seus dois amigos felinos. Um verdadeiro lar... cheio de amor, gatos, plantas e tons pastel que fazem sonhar qualquer um.
Texto: Cátia Tomé
Fotografia: Soraia do Carmo

Daniel e Cláudia confessam-nos que a sua divisão favorita de toda a casa é a sala.
"Foi onde nos dedicámos mais, apostamos mais nos detalhes, e curiosamente tudo andou à volta deste móvel, que é a peça central da sala. Foi sem dúvida o ponto de partida para tudo o resto. É uma reprodução de um móvel que vimos numa casa em Copenhaga, onde ficámos numas férias que fizemos há uns 3 ou 4 anos. Era muito semelhante, também com módulos e feito à mão, só as cores é que eram ligeiramente mais escuras. Adorámo-lo desde o primeiro instante e falámos logo com uma amiga nossa que tem uma carpintaria, que pertence ao pai. Curiosamente, também foi essa mesma amiga que nos arranjou o contacto do senhor que nos fez estes cadeirões. Vimo-los numa loja alemã que não enviava para Portugal, para grande infelicidade nossa. Mostrei a foto ao senhor e ele disse que os conseguia fazer! Ficámos delirantes!"

"É sem dúvida a divisão principal, onde passamos mais tempo. E como adoramos receber pessoas, quisemos mesmo encontrar um cantinho cá em casa que fosse mais cosy, para todos se sentirem bem. Foi precisamente por gostarmos de ter sempre gente em casa que, na altura de escolher a mesa de jantar, optámos por uma grande!"
Com um estilo tão próprio e acentuado, questionamo-nos se decorar esta casa terá sido uma tarefa difícil pelo nível de detalhe e combinação cromática, ou se foi algo que aconteceu naturalmente.
"Acho que é algo que nos está intrínseco. Não andamos sempre à procura. Somos muito dos tons pastel. É tão natural para nós gostarmos destas cores, que acho que vamos encontrando algumas peças sem querer. E depois, lá está, em Berlim há imensa coisa gira, muitas lojinhas, pratos e copos lindos e até mesmo para o Benny, é uma perdição! Todos os brinquedos que comprámos lá vieram connosco no ano passado, quando regressamos a Portugal, precisamente porque já sabíamos que não íamos encontrar cá! As peças maiores, já sabíamos exatamente o que queríamos, como queríamos e onde é que podíamos encontrar. Sempre gostámos do estilo nórdico, por isso fomos logo aos sítios certos."

“Uma das coisas que a nossa casa tem de ter mesmo é luz, e estas cores fazem com que tenha ainda mais! A base sempre muito branquinha, para depois construirmos em cima disso. E estávamos com receio, porque esta casa, antes de fazermos as obras, era muito escura no seu todo, paredes, móveis... tudo muito escuro. Estávamos receosos quanto ao resultado final, se ia ficar como queríamos ou esperávamos, mas não podíamos estar mais felizes!”

“Este cabide foi uma prenda de uma amiga nossa de Berlim. E nós gostamos tanto dele que nem queremos escondê-lo e acabamos por tê-lo aqui!”

Para além dos gatos, há um outro animal bastante presente na casa, ou não tivesse o casal um enorme fascínio por baleias.
“Obviamente que não podiam faltar! Estão pela casa, espalhadas um bocadinho por toda a parte e são uma paixão desde sempre, dos dois. Talvez pela ligação com o mar, que foi também uma das razões porque regressamos a Portugal. Estar próximo do mar, o horizonte, a brisa, sentir o cheiro! Ver baleias sempre foi um sonho, e há um ano quando fomos aos Açores conseguimos ver uma e eu chorei imenso... fiquei mesmo comovida. Não há nada como a Natureza!”

“Esta baleia comprámos nos Açores e, curiosamente, uma amiga nossa, que ainda não tinha cá vindo a casa, visitou-nos este Natal, e disse-nos com algum pesar que nos tinha comprado uma prenda que tinha a certeza que íamos adorar, mas que se tinha esquecido dela no comboio, e que estava desgostosa porque ainda por cima era a última! E quando entra na sala, qual não é o espanto... Era precisamente uma igual a esta!”

“Este quadro faz parte da nossa vida desde Berlim. Foi feito pela Liliana Graça. Conhecemos o trabalho dela através de uma amiga que nos enviou um postal de Natal, e gostamos tanto das cores que fomos ver que mais peças teria ela. Encontrámos este poster e achámos que fazia todo o sentido. Está escrito em alemão, mas é sobre a nossa “casa”. Era algo mesmo muito perto do nosso coração, fazia-nos ter menos saudades de casa.”

“Depois, quando engravidámos do Benny, pedimos-lhe para fazer duas ilustrações, uma de Berlim e outra de Lisboa. Já sabíamos que íamos regressar, eventualmente, por causa do pequeno, e como tal ela fez a ilustração da gravidez em Berlim, com a Torre da TV, num ambiente mais nublado, com roupas mais quentes. Foi tudo ideia dela, e o resultado não podia ser mais perfeito. E depois a outra ilustração, já cá em Portugal, muito mais à Verão, céu azul, o rio. Nós somos muito fáceis de ler, temos um estilo muito simples. Somos previsíveis nesse sentido.”


À medida que a Cláudia nos vai contando as histórias das suas peças favoritas, pela casa seguem-nos dois pequenos amigos de quatro patas. O Gato e o Amarelo. Dois charmosos gatos, com personalidades opostas.
“O Gato é uma paz de alma, mas o Amarelo é um bocado destruidor. Tem a mania que é rebelde. E já nos aprontou algumas... Os cortinados, mandados fazer à medida, em linho, foram uma verdadeira facada no coração. Já estão cheios de fios puxados. Mas o meu maior desgosto foi um vaso que comprei a uma rapariga do Reino Unido, que faz peças em cerâmica e só abre a loja de mês a mês, e tudo esgota em 5 minutos. Lembro-me de estar muito concentrada ao computador, uns minutos antes de ela abrir a loja, ansiosa, porque queria mesmo aquela peça, e é tudo caríssimo, mas tão bonito e ainda para mais feito à mão. Consegui comprar, e quando chegou, coloquei um cacto e deixei-o em cima da mesa, toda feliz! Fui dormir, e acordo a meio da noite com um estrondo... Secretamente soube que era o meu vasinho, mas nem quis imaginar, por isso não me levantei e voltei a dormir. De manhã, vi a triste realidade... o vaso todo partido. Não durou nem 24 horas, fiquei mesmo triste. Não fui capaz de desistir dele e colei-o! Aliás, colei várias vezes. Da primeira coloquei logo uma nova planta no interior e ele cedeu novamente com o peso da terra; eu, teimosa, colei novamente, mas estava sujo de terra e cola e pensei “vou colocar na máquina de lavar loiça para ficar como novo”. Não sei onde tinha a cabeça, claro que se desfez novamente! E eu insisti mais uma vez e colei-o, e aqui está ele, até tem um género de altar”.

Constatamos todas, entre risos, que a Cláudia é bastante persistente. Mas diz já ter aprendido a lição.
“As peças de que mais gosto ou que são mais frágeis, já não estão à mão de semear... estão guardadas ou colocadas a um nível mais elevado para o Amarelo não chegar lá. Como é o caso destes fantasminhas em cerâmica feitos à mão, de uma loja dinamarquesa.”




“A cómoda do nosso quarto, feita também pela nossa amiga, é outra das peças favoritas cá de casa. Escolhemos tudo, e deu-nos imenso gozo fazê-la. O poster das baleias que está em cima da cama, e que veio dos Açores, do mesmo sítio da baleia que está na sala, de um daqueles pontos de observação de baleias no Pico, é outro dos favoritos.”

“O nosso novo projecto cá em casa é o escritório, que ainda está um pouco vazio, e temos, por isso, ainda muita oportunidade de decoração, que é a parte melhor! É o que nos dá vontade e sensação de satisfação!”

“Gosto muito de fotografia, sempre colecionei máquinas. Algumas herdei dos meus pais e da minha tia. Em Berlim, os rolos e a revelação eram muito baratos, comprava 3 rolos por 50 cêntimos! Aqui em Portugal, já quase que não as uso, porque é mesmo muito caro. As minhas favoritas são as de médio formato. Estão aqui apenas em exposição. Algumas ainda têm rolo que não cheguei a terminar. Quando for revelar, nem sei o que lá está! Sempre tive o gostinho pela fotografia analógica. Quando olho para as fotos, lembro-me perfeitamente do momento em que as tirei, o que estava a sentir.”

O Daniel conta-nos, em jeito de curiosidade, e com algum orgulho na voz:
“A Bayard também está presente em tudo. Esta taça, por exemplo, tem uma história curiosa. Foi onde o meu avô começou a fazer os rebuçados à mão. Na sua casa, tanto o meu avô como a avó, faziam os rebuçados ao fogão, o meu pai e a minha tia ajudavam a embrulhar, para mais tarde o meu avô os vender nos cinemas ou nas farmácias. A historia do Dr. Bayard começa aqui, nesta taça.”

Passamos para a cozinha, o segundo sítio da casa onde passam mais tempo, hábito que aprenderam com os alemães.
“Eles lá passam muito tempo na cozinha. “Fazem sala” na cozinha. Ficam a beber chá, a conversar, umas vezes de pé, outras vezes sentados em bancos altos, nem sequer é na mesa de jantar. A cozinha para eles é o centro da casa.”

“Estas canecas são muito divertidas. Achei que se pareciam muito comigo e com o Dani, claro que as tive de trazer.”

“A maior parte das fotos que temos no frigorífico são de Berlim. Sempre que alguém nos ia visitar tínhamos que ir ao Photoautomat, por isso temos imensas fotos... Nem conseguimos ter aí todas.”

Passamos ao quarto do benjamim da casa, que é o paraíso dos brinquedos. Cores e formas, tudo misturado num universo mágico, digno de página de revista.
“A maior parte das coisas que aqui estão vieram de Berlim. Praticamente todos os brinquedos de madeira vieram de lá, e há também muitas prendas de amigos.”

“Este candeeiro de baleia é uma peça muito especial. Foi feita à mão por um amigo nosso que sabia que nós adorávamos baleias. Foi uma surpresa, não estávamos nada à espera e quando chegou pelo correio ficamos encantados. É lindo, único e mágico.”


“Há muitos livros em alemão. É uma forma de nós praticarmos o nosso alemão e ele ir aprendendo algumas coisinhas. O Benny adora livros e histórias, e nós também, para dizer a verdade.”

“Aqui está a melhor amiga dele, a Titis. Filha de grandes amigos nossos, e eles adoram-se! Estão sempre aos beijinhos e abraços. Esta fotografia foi a prenda de natal da Titis para ele. E como o vestimos aqui todos os dias, achámos importante ter por aqui fotos que são especiais para ele: os anos da avó, a melhor amiga.”



“Este é o livro favorito dele neste momento, o do Gigante. Não tem história, são só bonecos, nós é que inventamos a história. Mas ele adora! Gosta de ver onde está o pássaro, procurar o esquilo ou o lago. Antes de dormir, quer sempre ler este livro. Até achámos que ele não ia ligar muito, porque não tem história, mas tornou-se o adorado da colecção.”


Depois de uma visita guiada por uma casa cheia de histórias e pequenos recantos deliciosos, repletos de amor, foi com muito carinho que nos despedimos destes anfitriões que tão bem nos receberam.