Unlock: Carolina Flores

Dance baby dance

Unlock: Carolina Flores

por2 Mai 2017 lmanifesto

Estudou na Faculdade de Belas Artes e começou a trabalhar como web designer, mas foi o blog Last minute dreams que amplificou a veia criativa de Carolina Flores, assim como o estilo pessoal que lhe tem valido milhares de seguidores nas redes sociais. Mas, as verdadeiras It girls não se medem apenas pelo número de followers, Carolina tem o tal factor "X" transgeracional. Un visage d'enfant de Birkin com edge de uma Melody Prochet. A equação não é, obviamente, tão simples ou literal... Mas, este je ne sais quois é inquestionável!

 

Texto e Fotografia: Soraia do Carmo

Articulámos, finalmente, as agendas para uma visita ao final da tarde. A preocupação maior era a eventual falta de Luz no apartamento perto de Belém. Porém, os dias estão mais longos, e aquele em particular foi generoso connosco, dando-nos uma suave luz dourada de fim de dia, daquelas que envolvem os sujeitos fotográficos em auras de flares feéricos. Carolina esperava-nos com a simpatia habitual, num lindo e longo vestido preto de "princesa punk", como gracejou mais tarde.

Sem hesitar, e já com a máquina fotográfica em punho, começámos a disparar assim que entrámos no apartamento. Havia muito para registar, muito para contar. 

 

A sala é onde mais gosto de estar e adoro acumular objectos com significado para mim, como livros, revistas, prints, coisas da minha avó e bisavó. Aliás, quando vim para esta casa praticamente só tive de comprar uma mesa e um sofá porque já tinha algumas coisas.

De facto, a introdução de Carolina era pertinente e certeira. Na sala, primeira divisão onde entrámos, ao  isolar os vários objectos da estante, encontrávamos pequenos portais para a história da Carolina. Heranças de família irmãmente conjugadas com livros, revistas e objectos coleccionados.

"Esta concha é muito delicada. É dos objectos mais antigos desta estante. Era da minha trisavó, e tem uma pequena paisagem pintada à mão."

"Adoro mãos. Colecciono figuras de mãos e coloco-as aqui."

"O candeeiro dos anos 70, era da minha bisavó, sempre gostei dele e estava no meu quarto. Trouxe-o comigo para esta casa."

"O que mais gosto na sala são os meus discos, que herdei quase todos do meu pai. O gira-discos também era dele. Só agora é que comecei a comprar discos, mas ainda estou a descobrir a colecção infinita que ele tem. Não há um dia em que eu esteja em casa sem ouvir música. Raramente ligo a televisão."

"Este disco comprei em Berlim, na última vez que lá estive. Adoro-o, é dos meus preferidos."

Há poucos espaços vazios, de objectos e significados. Na passagem da sala para o quarto Carolina aponta mais um detalhe:

"A peça mais importante do Hall é este quadro que é a minha bisavó, pintada pelo meu tio-bisavô."

No mesmo ensemble visual, mais livros, velas,  fotografias, e os enormes olhos do print Cocoa Eyes do sueco Olle Eksell. Junto ao mesmo, uma fiada de pequenos olhos contra o mau-olhado, que segundo Carolina tem espalhados pela casa porque "Nunca se sabe...".

Entrámos, de seguida, no quarto, a maior divisão da casa.

"O meu quarto… Não tenho nada pendurado nas paredes porque ainda não decidi o que colocar... A casa tem sido um work in progress, demora anos a construir e compor.  

Tenho estas molduras ao lado da cama... Aquela, por exemplo, é uma fotografia da Cheryl Dunn, uma fotógrafa que adoro! Conheci-a em Londres e a fotografia está assinada por ela."

E, se de um lado do quarto está um sereno espaço para dormir, do outro lado encontra-se um cenário familiar à condição feminina:

"Tenho imensos sapatos e casacos. Acho que é o que gosto mais! Estou sempre a comprar casacos. Quanto a sapatos… Não tenho favoritos… Talvez os Vans, estou sempre com ténis Vans."

"Adoro este lenço. E não o vejo apenas como uma peça para usar. Já pensei em pendurá-lo em cima da cama. Mais uma vez, a simbologia das mãos e dos olhos."

Carolina contou-nos que o quarto não é a divisão favorita da casa! Ou pelo menos, não é a divisão onde passa mais tempo... 

"Passo muito tempo na cozinha, mas não significa que seja necessariamente a cozinhar. É a área onde me movimento mais, por causa da varanda. Passo muito tempo na minha varanda, sozinha e com os meus amigos. Tenho esta vista maravilhosa, um dos motivos que me fez querer ficar com esta casa.

Antes a varanda estava mais bonita, tinha imensos cactos e outras plantas, mas agora não posso ter nada disso, por causa do gato!"

De volta à sala, Carolina gravita de novo em torno dos livros, reforçando o amor pelos mesmos.

"Estou sempre a ler. Acabo por ler mais livros do que revistas. Principalmente quando ando de comboio. Aí nessa estante, esses livros mais pequenos e mais práticos para transportar já os li todos!"

Junto à estante pega em mais livros. Alguns são herdados e têm anotações dos familiares. Carolina folheia um desses tesouros privados e delicia-se com a caligrafia dos antepassados. Conta ainda, em jeito de confissão, que tem um fascínio pelo Cosmos, e pelas estrelas, uma curiosidade que encerra a nossa conversa... De facto, havia muito para contar. Mas, saímos com a certeza de que é desta matéria que são feitas as It Girls, as genuínas e que despontam de forma orgânica, não as fabricadas com uma entourage por trás. A Carolina é feita dessa matéria-desejo. Ainda não a vimos a viajar pelo mundo, de Fashion week em Fashion week, sentada nas first row ao lado de todas as outras It Girls ou It Women, mas francamente, deve estar por dias!

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