UNLOCK: Ana Morais

Grace

UNLOCK: Ana Morais

por23 Mar 2017 lmanifesto

Numa semana onde a obrigatoriedade é desacelerar, afastarmo-nos de tudo o que é tóxico e ir ao encontro de um equilíbrio, do que é belo no seu estado mais puro, um nome emerge: Ana Morais.

As três formas de avaliar essa beleza se impõem: the way she looks, não é novidade que a Ana tem uma figura invejável e uma beleza que revela um exotismo subtil misturado com uns laivos de surfer girl; a da energia contagiante que possuí mas que, em simultâneo, transmite serenidade e, por último, o seu trabalho e a sua identidade artística.

Fomos até Espinho conhecer um pouco mais sobre si, sobre a sua esfera privada e sobre a sua casa, "à beira mar plantada", na rubrica Unlock desta semana.

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Dulce Daniel

De tez bronzeada, cabelos compridos apanhados num top knot super tendência e envolvida por um lindo e fluído vestido estampado, recebeu-nos com um sorriso no rosto!

Estávamos oficialmente no Casulo de Ana Morais, no seu refúgio, aquele que a inspirou a caminhar numa vertente mais artística, aquele que a viu crescer, que lhe deu o espaço mas, ao mesmo tempo, a força e solidez necessárias para se libertar e voar ao encontro da sua verdadeira vocação. Um voo alto e plano que a permitiu conquistar novos horizontes. Não é esse o verdadeiro significado de casulo? 

Formada em jornalismo, passou pela rádio, pela televisão e escreve ainda no seu blogue, Tapas na Língua, mas possuiu, desde sempre, uma paixão pelo design e decoração de interiores e, foi aí, que depois de muitas voltas, encontrou o fio da sua meada.

Se analisarmos a fundo o que tem feito ao longo do seu percurso profissional, tudo pressupõe uma mensagem, sendo certo que se encontra camuflada e adquire diversas formas mas, a mensagem, está lá!

A mensagem é tentar tornar o nosso espaço e a nossa vida mais bonita. Fazer com que um espaço ganhe vida, enviar um pouco de carinho e beleza para cada pessoa! O macramé pode manifestar-se de diversas formas, vai muito da técnica e do gosto pessoa. Eu gosto do boémio e do contemporâneo e o que pretendo é precisamente ligar os dois. Quero, acima de tudo, traduzir essa beleza numa peça leve que una estas duas características!

 

Tudo começou na licença de maternidade, sempre adorei decoração, comprava muitas revistas, lia imenso e via peças lá fora que queria encomendar, só que o shipping era caríssimo! Vi e apaixonei-me pelo macramé! Pensei para mim, a minha filha dorme bem, tenho tempo, vou dedicar-me a isso. Comprei  revistas em segunda mão e decidi experimentar. Fui gostando e criando cada vez mais! Entretanto passaram alguns meses e recomecei a trabalhar e, a dada altura, chegou o momento em que tive de optar e, naturalmente, arrisquei tudo pelo casulo.

O nome surgiu de diversas circunstâncias, primeiro, porque quando tudo começou estava a trabalhar no meu casulo, depois porque, na realidade, faço peças para o casulo de outras pessoas e, por fim, porque todo o processo de transformação da peça até que chega à sua versão final é quase como o processo pelo qual a borboleta passa até que voa, sendo a peça final a borboleta, claro!

A beleza do handmade é o facto de trazer muito do artista, de ser uma peça única sem igual! (...) Porém acaba por ser um jogo de paciência e saúde porque passo horas e horas de pé a trabalhar. Para além disso, a corda com que trabalho é um material áspero e grosso e as peças são muito pesadas! Aquela peça, a Rhand, é das maiores que tenho, deve pesar uns 8 quilos e trabalhei nela durante uma semana!"

Tento sempre sair da minha zona de conforto, não gosto, mas obrigo-me a isso! São baby steps, aprendo uma nova técnica, treino e tento sempre trabalhá-la na colecção seguinte! É assim que nos desafiamos e que pode resultar algo de extraordinário!

Alguns nomes saem-me, invento, outros são alguns moçambicanismos que vêem do lado da minha mãe, que é Moçambicana! Gosto de nomes tribais, acho que vem daí .

Vou ter  novidades para meninas na próxima colecção e, desta vez, não é só para casa!

A paixão pelo trabalho é tão visceral que Ana precisa de pôr o despertador para dar como terminada a jornada. É raro encontrar uma devoção tão grande, uma sorte que, infelizmente, só toca a alguns!

Perco-me, fico ali a trabalhar continuamente! Tenho de pôr o despertador para impor um ritmo e conseguir organizar-me! Tenho de ser extremamente disciplinada porque dentro deste negócio existem diversas vertentes paralelas à criação! Eu adoro trabalhar em casa, mas tenho estipulado que o facto de estar aqui não vai servir para, por exemplo, pôr uma máquina a lavar. Fazes isso no teu horário de almoço ou no fim do dia, tal como se estivesses no escritório! Mas foi um processo de aprendizagem que ainda demorou.

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Eu gosto muito de moda, sigo imensas páginas e perfis da área, adoro música, fotografia, decoração, cinema... tudo isso influencia imenso e diariamente o meu trabalho. Estou sempre a "beber", temos de estar atentos ao que nos rodeia, conectados com o que está a nossa volta,  porque tudo mexe e tudo se relaciona. As minhas viagens são, também, uma grande fonte de inspiração! Na verdade, quase tudo me inspira, é só preciso estarmos atentos e receptivos ao que nos rodeia!

 

Em conversa, concluímos que a citação que "A beleza está nos olhos de quem a vê" faz mesmo sentido, o que para muitos pode não ser nada, para outros pode significar o mundo, depende da sensibilidade e das vivências de cada um!

Sou uma pessoa positiva, mas um pouco ansiosa. Na hora em que sinto que o "fusível" está a queimar vou para a praia arejar e repensar na minha vida! A vinda para Espinho, para um ambiente mais relaxado próximo da praia, foi precisamente para me transmitir essa tranquilidade e ajudar no processo de criação e, porque, a partir do momento em que somos mãe, as prioridades mudam e o bem-estar dos nosso filhos passa a ser o principal!

 

O processo de criação pode ser penoso, às vezes não estamos mesmo inspiradas! Obrigatoriamente tenho os dias definidos para diferentes tarefas como criar, tratar de encomendas, responder a e-mails, e, nesses momentos, opto por inverter a ordem dos processos!

Esta máscara trouxemos na última viagem a São Tomé! Estava numa oficina ainda por acabar, não estava sequer pintada, mas senti que tinha de a trazer. O artesão ficou escandalizado e disse para não dizer de onde tinha trazido, porque não estava terminada! Eu agarrei-me logo a ela! Normalmente, eu e o João gostamos sempre de trazer peças das nossas viagens!

 

Este candeeiro foi-me oferecido pela minha mãe, há muitos, muitos anos, para a primeira casa onde vivi sozinha. Já passei pela Covilhã, Coimbra, e Lisboa!

 

Aquela citação é da Yoko Ono e, mais do que nunca, está muito em voga. Gosto muito dela!

 

Esta última mensagem foi-me enviada por uma francesa, com a qual me identifico imenso, são aquelas amizades virtuais que vão surgindo! Apesar de ainda não nos termos conhecido pessoalmente, gosto muito dela e quando me enviou este quadro, eu enviei-lhe uma peça!

 

As redes sociais permitem, não só, o acesso à vida de alguém que admiramos e que não pertence ao nosso círculo de amigos, mas, ao mesmo tempo, permite estas surpresas boas, estabelecer uma proximidade, quebrar fronteiras e diminuir distâncias. No caso de Ana Morais, foram várias as amizades que surgiram assim, o que se vai reflectindo em casa através de pequenos detalhes!

A casa é um projecto under construction, mas eu gosto de ter tudo direitinho, não demorar muito a ter tudo finalizado! Acredito que o facto de trabalhar aqui e passar a maior parte do tempo em casa influencie essa postura e necessidade.

 

Trabalhar numa peça é um processo terapêutico, que pode ser doloroso, mas acima de tudo relaxa-me e faz-me sentir bem!

O atelier era um terraço interior todo cinza. Quando decidi que ficaria a trabalhar em casa, quis transformar este local para lhe trazer luz e pedi a um amigo meu que me fizesse o projecto. Temos um inverno rigoroso e prolongado e, para mim, a luz é fundamental. Mesmo quando chove, estar aqui a trabalhar e ouvir aquele som, é super relaxante.

Se bem que, em tom de confissão e indo buscar um pouco da descrição inicial que fizemos da Ana, revelou-nos que a sua banda sonora favorita para trabalhar é o Reggae, já que emana uma energia muito positiva que a remete para a paixão que tem pela praia, pelos amigos e a transporta para as suas experiências, ainda que curtas, de surfista!

As peças ganham um destaque ainda maior com a luz que se reflecte nos tons neutros da paleta-desejo. Caça sonhos XXL lindos, porta-vasos suspensos, cordas de algodão que deslizam da peça na qual está a trabalhar, troncos de árvore… tudo cria um cenário idílico e que inspira a criar!

Subimos as escadas e chegámos ao segundo andar. Começámos pelo escritório, seguiu-se o quarto da Ema e depois o do casal.

Estas malas estão sempre aqui, mas quando vamos para algum lado, desde que que não seja uma mala de porão, levamo-las! Comprámos em Marrocos e como gostamos imenso delas ficam sempre aqui porque nos fazem acreditar que estamos sempre prontos para mais uma viagem!

 

Fizemos uma secretária comunitária, porque um queria uma coisa e o outro outra! Encontrámos esta solução!

Gypset Travel e Justina Blakeney, estes livros são bíblias para mim!

 

Este foi o primeiro caça-sonhos que fiz para uma sessão de DIY no blog!

Todos os dias, a Ema, veste o vestido de bailarina por cima do pijama polar, parece um chouricinho! Adora!

 

O caça-sonhos maior  fi-lo para a inauguração do novo quarto, é mesmo como dizem:"Em casa de ferreiro, espeto de pau!" Remodelamos o quarto há uns 6 meses e reparei que ainda não tinha nenhuma peça minha no quarto da Ema, daí que me dediquei a isso e fiz este caça-sonhos só para a minha filha!

Esta sereia foi-me oferecida pelo projecto Cuddle + Kind feita por artesãos no Peru. A compra reverte a favor de uma instituição que tem como objectivo ajudar uma comunidade de crianças!

Os meus paus, que adoro, apanho-os na praia da Maceda e uso-os para suportar as minhas peças mas, às vezes, apaixono-me tanto que acabam por ficar sem peça, sem o seu propósito inicial e vivem só por si!

 

As influências africanas estão muito presentes na minha vida e na minha casa!

Mais uma vez, tivemos a confirmação de que a casa é, inequivocamente, o reflexo da pessoa, das suas vivências e das suas paixões! O casulo de Ana Morais é o seu refúgio, no qual combina o boho-contemporâneo presente na sua arte, com a sua paixão pelos tons neutros e pela madeira no seu estado mais puro, e onde tudo é apimentado pelas influências tribais que lhe circulam no sangue e trazem o exotismo que, apesar de subtil, se detecta a léguas!

Obrigada Ana!

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