UNDER THE COVER

Saturated dreams

UNDER THE COVER

por29 Mai 2017 lmanifesto

 A palavra de ordem é viajar, cá dentro, lá fora… tanto faz!

Viajar pressupõe sair do estado de apatia diário para entrarmos num processo voraz de assimilação, em que uma catadupa de imagens, histórias e visões nos permitem observar e entender o mundo com outros olhos, extra tolerância e verdadeira sensibilidade.

Podemos afirmar que se compara ou assemelha a um sonho em que, das duas uma: queremos esperançosamente permanecer ou desesperadamente sair.

Felizmente, hoje em dia, viajar e sonhar nem sempre implica sair de casa, podemos, simplesmente, percorrer quilómetros, conhecer as mais incríveis personagens e ter acesso ilimitado aos locais mais improváveis sem que, para isso, tenhamos de preparar malas e comprar bilhetes de ida sem volta.

Arturas e Luís, a dupla que nos proporcionou esse oásis em pleno centro de Lisboa: a under the cover.

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Soraia do Carmo

Frequentadoras assíduas, podemos já descrever o local de olhos fechados (se bem que, de cada vez que lá vamos, novas publicações dão vida a este espaço!), estantes e estantes transportam-nos visualmente para uma urban gallery, que está aqui mas podia perfeitamente ter as suas portas abertas em Kreuzberg, o famoso bairro berlinense.

Estão expostas cerca de duas centenas de publicações recomendadas, uma curadoria minuciosa que conta com exemplares das mais diversas áreas: moda, viagens, arquitectura, design, current affairs, lifestyle, música, ilustração, and so on

Sonhos saturados de cor, capas dignas de moldura que os nossos olhos devoram assim que colocamos o pé na under the cover e que tornam o processo de escolha quase impossível.

Revistas que dão sentido ao conceito de slow reading, estão ali para serem saboreadas, lidas com calma e que, undoubtedly, ficarão religiosamente guardadas na nossa biblioteca de coleccionadoras. #addiction

Conheceram-se em Coimbra. Arturas, lituano, estava ao abrigo do programa Erasmus, Luís já trabalhava, inesperado será dizer que ambos se dedicavam à área da Saúde. Numa conversa informal, revelam-nos o que se esconde por baixo das capas destas publicações.

"Quando pensámos num projecto nosso, queríamos essencialmente fazer uma coisa da qual gostássemos, não tinha necessariamente de estar relacionado com a nossa área de formação até porque, hoje em dia, isso não é relevante.” - Luís

“As pessoas vêm muito aqui para encontrar inspiração, as nossas publicações são maioritariamente estrangeiras, com conteúdos diferentes e de alguma forma achamos que isso pode ser uma fonte de referências tal como aconteceu connosco. Isso não quer dizer que não valorizemos o mercado editorial nacional e que não faça parte dos nossos objectivos ajudar a divulgar publicações portuguesas, porque faz e queremos muito.” - Luís

“Gostamos de apoiar projectos novos, de forma independente, porque, de certa forma, também foi assim que começámos, do zero! Sentimos naturalmente essa ligação com alguém que está a começar uma revista também! -Luís

“Tínhamos uma ideia muito certa do que queríamos e do que pretendíamos oferecer e fomos fiéis à mesma mas, acima de tudo, o que torna a loja mais especial e diferente é a curadoria que está por trás. Mais do que o número de publicações, é o trabalho, a pesquisa, o estarmos sempre a tentar trazer publicações novas, mais surpreendentes, melhores e, claro, o facto de estarem de acordo com as expectativas e desejos dos nossos clientes. É isso que nos dá muito prazer.” -Luís

“Este processo de descoberta e pesquisa tem por base diversas ferramentas desde o instagram e outras redes sociais, passando por outras lojas-referência nas quais confiamos plenamente e que funcionam como linha-guia, golden stardard e, claro, os nossos clientes que à medida que vão viajando nos vão trazendo sugestões.”- Arturas

 

 

“Recentemente tem acontecido uma coisa surpreendente, temos vindo a ser contactados pelos próprios editores. Este negócio é de nicho, é um circuito, e apesar de termos uma loja de 14m2 as pessoas já ouvem falar de nós em pontos muito mais longínquos do que alguma vez imaginávamos. Por exemplo, fomos contactados por uma revista que está a ser produzida na China e sabe da nossa existência. Isso, sim, é incrível! ”.- Luís

 

“O papel das redes sociais também tem sido determinante. Já tivemos clientes da Roménia, outra cliente na China que estava a fazer um estágio em França e que quando veio a Lisboa fez questão de nos vir visitar. É algo que nos deixa muito felizes! ” - Luís

“Temos vários critérios-chave, que dependem da área à qual a revista pertence. Mas para começar e independentemente do tema, o design da publicação tem de ser interessante, marcante, contemporâneo, bonito, seguindo-se a qualidade do papel e a gramagem e, por fim, o cheiro que sentimos quando abrimos ou folheamos da publicação… Nem todos os cheiros são agradáveis! Costumo contar uma história muito engraçada em que a cliente estava num dilema sobre qual revista levar e, apesar de ter chegado à conclusão de qual era a sua favorita levou a outra porque o cheio não era agradável e não a conseguiria ler. São detalhes que, por vezes, podem escapar mas acabam por ser determinantes. Em conversa com um designer ficámos a saber que esse odor é uma escolha editorial com base nas cores e nos químicos usados e, como tal, passa a ser parte integrante do produto, do objecto.”- Luís

 

“Para além desses pormenores, naturalmente, avaliámos a fundo os temas e conteúdos para, posteriormente, fazermos um zoom out que nos permita analisar a publicação como um todo! Quando o cliente entra, à partida, irá dirigir-se à publicação especialmente pela capa, uma característica importantíssima, depois, quando pega nela é uma questão de sentir ou não desejo, não se explica! Isso é fascinante!”- Luís

Engraçado será dizer que os interesses editoriais e temáticas-desejo de Arturas e Luís são assumidamente diferentes o que, talvez, esteja na base do equilíbrio e da diversidade de temas que podemos encontrar na umbrella under the cover.

Arturas, um apaixonado pela estética, moda, fotografia, pela componente mais visual, já Luís navega por current affairs, política e economia, com uma predilecção pelo texto per si.

“De alguma forma, as duas coisas acabam por se conjugar. Se pensarmos, por exemplo, as revistas de moda apesar de terem um componente visual forte têm sempre entrevistas, não são exclusivamente moda. Da mesma forma que as revistas mais literárias têm a componente de design e de fotografia cada vez mais apurada e desenvolvida. E isso traduz-se numa publicação mais interessante.” - Luís

 

“Há pessoas que entram e perguntam se podem tocar, precisamente pela forma como temos as revistas expostas. Sempre achamos que o first look era muito importante e que esta seria a forma de trazer o merecido destaque a cada publicação!” - Arturas

Uma jogada arriscada? Num momento em que se discutia o relevo e a continuação da imprensa escrita, Luís e Arturas abriam a under the Cover. Opiniões precisam-se.

 

“Eu acho que estas publicações constituem um paradoxo, situadas entre o livro e a revista, são contemporâneas, são reflexo dos dias de hoje, das coisas que se vivem agora, no entanto, são intemporais. Daqui a 5,6,7 meses ou 1 ano vão continuar actuais. Isso resulta da forma surpreendente e fresca com que abordam os temas com informação que se estende muito para além do tempo de vida de prateleira.” – Luís

“A minha opinião diz-me que numa Era digital, cada vez mais as pessoas valorizam o que é imutável. As palavras que se escrevem e não se conseguem alterar. Na internet os textos são muitas vezes corrigidos e o que lemos hoje não é o mesmo que lemos ontem no mesmo website. No caso específico das revistas impressas, quando estão a ser publicadas, por exemplo, com uma tiragem de mil exemplares e que se sabe que será distribuída para todo o mundo, implica que se pense muito antes de escrever aquelas palavras, bem como, sobre a forma como tudo está feito!” -Luís

“Há pessoas que gostam de ser surpreendidas, temos clientes que vêm cá especificamente por causa de algumas publicações às quais são fiéis e levam sempre, temos outros perfis que vêm à procura do que há de novo e, por fim, temos outros grupo de pessoas que gostam de temas específicos. Estamos muito agradecidos a todos porque são eles que nos motivam a querer continuar a fazer o nosso trabalho da melhor forma possível!” – Luís

 “É uma tentação trabalhar no meio de tanta coisa boa, infelizmente não temos tanto tempo livre disponível para nos dedicarmos à leitura mas, sim, estou a ler mil coisas ao mesmo a tempo e, mesmo que não seja uma revista que por norma leia, gosto de estar sempre a par de todos os conteúdos! Acho que, de alguma forma, toda a gente sente o mesmo. O tempo é escasso e quando arranjamos uns minutinhos, aproveitamos para ler um bocadinho. As revistas têm isto de positivo, podemos ler hoje um artigo e amanhã outro, ir saltando e mudando de revista.” – Luís

Decidimos fazer a perguntinha óbvia e a resposta não foi fácil, na realidade a resposta teve de se basear numa janela temporal semanal, caso contrário seria impossível decidir. Qual a revista favorita de cada um. (o rufar dos tambores…)

Para Luís, a Works that Work, que fala sobre a criatividade inesperada que ajuda a melhorar o mundo; para Arturas e, na semana em que esta entrevista teve lugar, entre outras, rendeu-se à System!

 

 

 

 

Temos sempre a preocupação de que haja algum factor ou característica que nos obrigue a guardar a revista, esse é um critério nosso. Hoje a internet obriga-nos a viver o imediato, o presente e aqui estas revistas obrigam-nos a pensar sobre o passado e a imprensa escrita permite-nos esse resgate, o ir buscar essas memórias!” - Arturas

A entrevista aproximava-se do final quando a título de conversa de backstage, surgiu uma questão que exigia uma resposta e que se prende com a desvalorização da imprensa escrita face ao digital.

“Se eu gosto daquele trabalho, tenho de dar o feedback e isso faz-se adquirindo essa essa revista.”- Arturas

“Se falarmos no caso das revistas de moda acreditamos que estão um pouco à parte, divergiram, isto é, ou ficaram muito baratas porque tinham imensa publicidade ou seguiram a linha de capa dura, edição exclusiva e cuja experiência não consegues ter online. As plataformas digitais, ao contrário que se estava à espera, estão a ajudar estas revistas, algumas até acabam por passar para papel!”- Luís

“A actividade nicho dá-nos o acesso a algo que queremos mesmo muito e terá uma componente de exclusividade. Li uma vez que a experiência de leitura acaba por se equiparar ao momento em que os carros vieram substituir os cavalos, isto é, continua a andar-se a cavalo, só que simplesmente, passou a ser uma experiência vivida de uma forma diferente. No caso dos carros, são usados para andar de um lado para o outro a um ritmo mais frenético. Acho que isso representa um pouco aquilo que sentimos com a leitura em papel, temos de guardar aquele tempo para nos entregarmos e quando o fazemos é quase equiparável a uma experiência espiritual.”- Luís

 

 “Existe uma revista, que vinha com um manual de instruções em que dizia: baixa a luz, desliga tudo o que é electrónica e entra na viagem… e é isso!”- Luís

E assim, embarcámos numa viagem de um pouco mais de uma hora, onde todos os nossos sentidos foram postos à prova. Aqui, o privilégio foi o de poder contar com esta dupla que nos guiou e alertou para essa sensações que, apesar de elementares, são cruciais e que acabam por assinalar a primazia e a beleza do papel! Veio para ficar em toda a sua plenitude.

 

 

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