SOLO: VERA MARMELO

Garçonne

SOLO: VERA MARMELO

por10 Abr 2017 lmanifesto

Inesperado, é a palavra ideal para descrever o percurso de Vera Marmelo, a nossa convidada da rubrica Solo desta semana.

Uma semana dedicada a elas, a mulheres que através do seu percurso, postura e exemplo se destacam e inspiram.

Vera Marmelo é uma garçonne cativante, que fala com uma paixão e entusiasmo contagiantes e que, fatalmente, aprendemos a admirar. Sentámo-nos para a ouvir, é uma contadora de histórias, das boas!

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Soraia do Carmo

Marcámos encontro na sua "residência musical", não que tenha como extra hobbie DJing mas porque é lá que, frequentemente, a encontramos a fotografar, na Galeria Zé dos Bois, bem no epicentro do Bairro Alto.

Paramos aqui e, numa breve analepse, vamos explicar o porquê do inesperado. Vera, a conhecida fotógrafa (de música) é licenciada em Engenharia Civil, especializada em Hidráulica que, para nosso espanto, continua a exercer, conciliando assim traços de personalidade mais analítica com a sua alma de artista e a verdadeira paixão, a fotografia. Quem diria, certo?

Num rápido fast forward voltamos às notas que tocavam inicialmente. Vera, nasceu no Barreiro, a música entrou na sua vida por intermédio de um circulo de amigos que por ali andava e que foi criando e conhecendo na sua cidade natal. A música acabaria por fortalecer a base das suas amizades porque, enquanto uns tocavam instrumentos e cantavam, Vera registava cada momento e cada emoção. Foi lá que tudo começou e foi lá que, pela primeira vez,  fotografou  o Festival OUTFEST, que ainda hoje cobre religiosamente!

Várias foram as amizades que influenciaram e ajudaram a moldar o seu percurso.

Conheci o Tiago Sousa quando mudou para o Barreiro e se começou a dar com os músicos de lá e a ir aos mesmos concertos a que eu ia. Ele tinha lançado uma editora, a Merzbau, e trabalhava com os B Fachada, Noiserv, entre outras bandas. Foi aí que, de uma forma natural, comecei a trabalhar com ele e a fotografar com o objectivo de o ajudar a divulgar essas mesmas bandas.

 

Tudo tem como base a amizade, nunca faço apenas as fotografias. Gosto de conhecer as pessoas e faço questão de passar muito tempo com eles, acho essencial e creio que é por causa disso que me chamam para trabalhar. Há um esforço muito grande da minha parte de não os tratar como modelos, são pessoas normais que, regra geral, não gostam muito de ser fotografadas! Já me cruzei com rapazes e raparigas músicos, lindos, mas muito difíceis de fotografar porque não é o registo deles e, como tal, sentem-se pouco à-vontade.

A verdade, é que apesar de ter cada vez menos tempo disponível para fazer aquilo que gosto, continuo a apostar em fazer coisas diferentes e é isso que permite não me cansar de fazer o que faço e manter os pés assentes na terra, já que não parto do pressuposto de que só vou fazer trabalhos muito maiores, com pessoas e editoras muito mais conhecidas. Por exemplo, este ano comecei a fazer festivais de Metal, fui até ao Porto fazer um concerto de Back Metal e assisti a situações inesperadas e diferentes que achava que já não teria idade para assistir, porém, ao mesmo tempo, sinto que isso é bom!

 

Divirto-me tanto a fazer um Paredes de Coura com os Orelha Negra ou a fazer um Sudoeste com uma orquestra. Sinto que são momentos muito importantes na vida destas bandas e que eu estou lá para os acompanhar. No entanto, ao mesmo tempo, também me sinto super bem aqui a fotografar os miúdos desta nova geração. Há miúdos que tocam na ZBD com 16 ou 17 anos e isso em muito se deve ao que o Sérgio fez e fomenta. Gosto de conversar com eles, trocar experiências e sentir que eles também têm coisas para me devolver. É muito bom!

O disco novo do Thurston Moore, ex-Sonic Youth, tem esta foto na capa. Foi tirada aqui em 2012 e foi uma de 4 fotografias feitas por mim com uma máquina médio formato bem à porta da ZDB. O Sérgio, responsável pela programação da casa, é um filho da geração Sonic Youth, o que fez com que o Thurston viesse cá actuar por diversas vezes. Na primeira vez que aqui veio, foi um grande acontecimento e quando assim é, quando são pessoas de quem gosto mesmo muito, venho, trago a máquina e tento tirar uns retratos mais especiais. Aconteceu o mesmo com o Devendra Banhart, com a Angel Olson. Bem, mas continuando, passados 2 anos a editora do Thurston entrou em contacto comigo porque tinha gostado imenso da foto e queria comprar os direitos da mesma para a usar como material promocional. Entretanto, a grande novidade é que, por insistência da namorada do Thurston, a Eva, fã da ZDB, a foto foi escolhida para ser usada como capa no novo disco “Rock n Roll Consciousness”. Estará ligeiramente diferente porque aplicaram um filtro para adaptar ao ADN do álbum, mas é esta!”

Quando me contactaram para perguntar se podiam utilizar a foto eu disse logo: "ok!" A verdade é que, como já é tão antiga, parece já não ser minha! É muito fixe pensar que a foto apareceu em todo o lado mas, mais especial se torna, porque sei que não foi só uma foto fruto do acaso, foi o resultado de uma relação de anos que existe entre a ZDB e eles. Para além disso, no livro de memórias que o Thurston lançou recentemente, existem diversos depoimentos da equipa da ZDB e uma das fotos escolhidas é a do Sérgio com guitarrista que foi tirada por mim em 2012 e que marca o início desta relação.

Desde o início que a música dita o ritmo de cada foto, de cada retrato, mas há algo ainda mais importante.

Sempre gostei de música mas, às vezes, vou a festivais acima de tudo porque é uma oportunidade para estar com amigos mais do que ouvir a música propriamente dita. Claro que há uma paixão pela música mas, grande parte do entusiasmo vem da energia que sinto de todas as pessoas que estão à volta para fazer aquilo acontecer!

Não encaro este trabalho com o sentido de imortalizar ou documentar a longo prazo, na verdade só recentemente comecei a entender a necessidade de documentar uma geração e foi quando fiz meu primeiro livro, precisamente, com retratos de músicos portugueses: Samuel Úria, Norberto Lobo, Noiserv, Capicua, o Alex D’Alva, bem como, das minhas relações com o Barreiro. Acho que este entusiasmo todo vem precisamente da cidade de onde venho! A questão de imortalizar não define o meu trabalho!

Posso considerar-me uma sortuda porque já fotografei os meus músicos favoritos, o Thurston, o Rodrigo Amarante, que adoro, e o Devendra Banhart, que era o meu crush desde os 20 anos, e isso é um grande privilégio. Na ZDB há esta hipótese, os músicos de quem gostas muito vêm aqui tocar e isso é incrível, mas a partir do momento em que conversas com eles entendes que são pessoas normais e tudo se simplifica.

 

Faço sempre o exercício de colocar as coisas em perspectiva e pensar: Caramba, prefiro pensar que vendi uma foto a uma editora grande ou saber que esta artista, de quem eu gosto tanto, vai lançar um disco que fez dela uma superstar (foi o que aconteceu com a Angel Olsen) e eu tenho uma pequena ligação a ela e a esse momento. Isso é muito especial e é isso que faz tudo acontecer!

Fotografar música da forma como faço e estar ligada a bandas que estão a começar, é o que me tem permitido manter tanto o amor a esta arte. Posso dizer que sou curadora da música que fotografo. Estou num momento em que sinto que posso recusar algum trabalho se não me identificar ou não tiver alguma afinidade com o que fazem hoje em dia.

 

No meio de um freestyle e uma identidade artística que passa por captar pessoas reais e emoções genuínas, Vera foi, pela segunda vez consecutiva, convidada para fotografar a workstation da Moda Lisboa. Fiel a si própria, fez o que de melhor sabe fazer: captou pessoas reais.

 

Não vale a pena pensar que vou fazer aquelas imagens moda, tão inacreditáveis como, por exemplo, a Carla e o Arlindo fazem porque não tem nada a ver comigo. Quando aceitei este trabalho deixei  claro que esta não é a minha praia, a meu entender eu tinha de fugir daquele registo moda que estamos habituados a ver e ir ao encontro do meu estilo e da minha identidade. Este ano, decidi fotografar as pessoas de costas. Não estava minimamente preocupada com o seu aspecto, com a face, não fotografei modelos, simplesmente fui ter com pessoas que não são moda, mas que, sob o meu ponto de vista, são interessantes e bonitas.

 

E é isso que marca a diferença do seu trabalho, o manter-se fiel a si própria, o preservar a sua identidade e trazer a beleza e a verdade de cada pessoa e de cada emoção. Uma imagem que conta uma história que sabemos, agora, vir carregada de significado e de ligação.

 

Os fãs da música dão valor às minhas fotos e ao meu trabalho, mas sinto que as pessoas sabem quem eu sou porque fotografo os músicos e as bandas que admiram e porque tenho uma relação com esses artistas! Mas, na realidade, o público da música investe nos concertos, quando muito nos álbuns, não em fotos… e eu entendo isso perfeitamente. No fundo penso: O que é melhor? Ver uma foto minha, que custou um balúrdio, pendurada na casa de alguém, ou ir a uma casa de discos e ver a minha foto como capa do álbum de uma banda que adoro e que vai para casa de muita gente, quem sabe, em diversos pontos do mundo? 

 

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