SOLO: LI FURTADO

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SOLO: LI FURTADO

por15 Mai 2017 lmanifesto

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Soraia do Carmo

 

Encontrámo-nos num local emblemático da cidade de Lisboa, naquele que consideramos ser um dos mais importantes alvéolos do pulmão artístico da capital: os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. Um espaço que convida a pensar, a abrandar, a respirar… perfeito para uma boa conversa desde que a companhia seja a ideal. #anditwas

 O relógio marcava as 11h30 quando ao fundo, entre o maravilhoso degradé de verdes, vemos surgir uma silhueta petite, num look total black que contrastava com o seu flawless modern bob na versão super blondie. Falamos de Li Furtado, a fundadora da Cinco Store, a marca de joalharia que conta já com uma legião de fãs amazingly cool espalhada por vários pontos do globo, foi por aí que iniciámos a conversa.

Adepta do mundo digital em toda a sua magnitude, expressão e poder, Li confessa que a parte da criação é desafiante, minuciosa e vibrante, mas o que lhe acelera o batimento cardíaco e descontrola a respiração é, sem dúvida, ver alguém usar as suas peças, quer seja em foto ou pessoalmente.

A joalharia e o seu valor, mais do que monetário e de uma eventual questão de status, prende-se com significados e emoções. O acto de comprar uma peça, de criar uma memória, de agregar traços de personalidade, vivências, momentos e o possibilitar, quiçá, mais tarde, partilhá-las e perpetuá-las por gerações e gerações faz com que se atribua uma essência muito especial a peças que, muitas vezes, espelham uma simplicidade estética apaixonante. E com isto, acabámos de descrever as peças da Cinco.

Para mim o mote da Cinco são precisamente as raparigas simples com atitude! Penso numa pessoa que não precisa de estar com grandes alaridos, que está num look simples, clean mas tem uma peça que a distingue, que brilha e que completa o outfit! Por outro lado, penso em peças que poderia perfeitamente usar, com as quais me identifico, sinto de alguma forma que se isso não acontecesse estaria a desvirtuar ou a a afastar-me deste projecto! Acredito que de colecção em colecção estou cada vez mais a aproximar-me do que é a Cinco, ou seja, de um equilíbrio entre aquela simplicidade e uma forte componente de identidade. A última colecção, a Mindfulness, demonstra precisamente isso, são peças que não só têm um especial significado para mim como para alguém que está nos Estados Unidos, têm uma mensagem! Não obedecem à lógica de ter o sentimento gravado e escancarado mas se a pessoa se quiser relacionar com ela, consegue facilmente fazê-lo. A ideia de que cada peça tem uma mensagem e que cada pessoa pode interpretá-la à sua minha maneira é muito importante. 

 A Cinco começou com o conceito que tem hoje, quando o Miguel, o meu namorado, me ofereceu esta pulseira em prata! Foi aí que pensei: Ok, vamos fazer peças em prata, vamos comunicar para um target muito específico e vamos fazê-lo essencialmente online. Devo isso ao Miguel e aos meus pais. Relativamente à estratégia da marca, não tenho a ambição de ter loja física, ou seja, o conceito da Cinco não passa por ter lojas físicas. Eu gosto e acredito imenso no online e acho que a marca acaba por ter mais expressão neste contexto!

 

Surgiu de uma forma muito espontânea e rápida e o nome é um reflexo disso, surgiu de uma forma quase aleatória, precisava de registar um domínio para site e pensei, porque não colocar a minha data de aniversário, sempre foi um número do qual gostei bastante! E assim foi!

A ideia da #cincopeople surgiu precisamente para dar o espaço necessário para que a imagem possa ser criada pelas próprias pessoas que compram diariamente na Cinco, são elas que constroem a marca  e que trazem novos estilos e personalidades!

Apesar de seguir e reflectir tendências, não é uma marca do momento. Não quero que a peça seja uma peça de hoje para hoje, quero, por exemplo, daqui a 20 anos poder usar o fio que trago agora comigo. A beleza da joalharia é precisamente essa! A par disso, tenho clientes espalhados por vários países com referências culturais distintas, tendências e pessoas completamente diferentes daí não poder assentar sobre uma leitura exclusiva de um momento. Prezo muito esta universalidade, é importante.

 

Quero, acima de tudo, que a peça desperte alguma emoção quando a pessoa a recebe, que sinta um apego especial.

 

Das coisas que mais prazer me dá é ouvir um amigo dizer que foi a determinado sítio e viu alguém a usar Cinco. É a melhor coisa do mundo, fico genuinamente contente.

Naturalmente que estou atenta às tendências, por exemplo, a vontade de usar peças de roupa com decote em V, quer sejam vestidos, t-shirts, blusas, isso faz-me imediatamente pensar em potenciar o uso dos fios e apostar neles, tenho de estar atenta! Porém, noutros casos, há peças que surgem por acaso, que sinto que vão resultar. Para além disso, tenho um grupo amigas de longa data, algumas são bloggers que conheci desde o início do meu blogue, que de vez em quando me vão enviando sugestões e tendências-desejo para as quais poderia até eventualmente não estar tão atenta! Têm sido um apoio fantástico desde o início, sempre mostraram genuinamente a Cinco e isso ajudou a que, naturalmente, algumas portas se fossem abrindo! São dicas preciosas que depois analiso e vejo se se incorporam nos parâmetros da marca, se vai ter reflexo no mercado, de pricing, de target! 

 

Quando a peça chega fico em êxtase. Adoro as peças, amo-as, mas o que me dá mais gozo é ver uma pessoa a usá-las e ver que gostou! O meu processo termina ali e depois começa uma nova etapa, a peça ganha uma vida e a Cinco faz parte dela. Ver que a pessoa usa a peça de uma forma que nunca imaginei, que a transporta de uma forma única para o seu dia-a-dia, isso, sim, para mim é especial! Não me considero uma artista, gosto de tentar antever tendências e perceber como a pessoa se vai relacionar com ela e com as peças que desenvolvo. Para mim o trigger são as pessoas, ver para onde viajam, onde gostam de tirar fotos, como tiram essas fotos, pois, tudo isso, serve de inspiração para criar peças que as possam acompanhar nesses momentos.

Encaro a moda como arte e sempre acreditei na arte usável, que possa ser colocada à disposição! Para além dessa característica, o mais importante é que o cliente a aceite da melhor forma possível, se não o fizer, então isto passa a ser um processo só meu e deixa de fazer sentido. Sou uma mera espectadora, as peças não são só minhas são para alguém que as quer usar e tornar para sempre suas.

 

Atribuir significados a peças, torná-las suas ou de alguém com quem partilhámos sentimentos, vivências e experiências, na realidade falámos de uma tradição que nos permite trazer bem perto de nós um pedacinho de alguém que nos diz ou disse muito. É nas mãos da Li Furtado que começam muitas dessas histórias, numa peça que carregará em si significados e deixará de ser apenas uma mera peça para passar a ser parte integrante de uma história.

 

© 2017 L Manifesto

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