SOLO: Kruella D’Enfer

Stendhal Syndrome

SOLO: Kruella D’Enfer

por17 Jan 2017 lmanifesto

A protagonista do novo SOLO é a artista e ilustradora Kruella D’Enfer. Iniciou a sua carreira em 2009 e o seu nome já é bem conhecido no mundo da arte urbana em Portugal e, cada vez mais, no estrangeiro. O L Manifesto foi conhecer o seu atelier e saber mais sobre o imaginário da artista de 28 anos, conhecida pelo seus trabalhos coloridos e criaturas fantásticas.

 

Texto: Filipa Leal

Fotografia: Soraia do Carmo

"Quando comecei a ilustrar era tudo novo para mim, não sabia o que é que se fazia em Portugal. Como o meu namorado vinha de Design Gráfico e desenhava bastante, obrigou-me também a começar a desenhar noutros estilos, de outras formas, e a tentar perceber que estilo é que eu queria seguir."

"O meu namorado foi, de facto, uma grande influência no início. Mas à medida que fui conhecendo o mundo da ilustração em Portugal - as pessoas, as galerias e as exposições - os artistas que faziam aquilo que eu poderia vir a fazer no futuro acabaram por ser as minhas grandes influências. Portanto, os ilustradores mais velhos foram uma forte motivação. E comecei à procura de outros ilustradores e outros estilos, fora de Portugal, que pudessem fazer a ligação com o que eu queria fazer."

"Eu cresci numa aldeia, em Tondela, onde havia poucas crianças, por isso tive muito poucos amigos. Fui obrigada a ter uma imaginação muito grande nas minhas brincadeiras e a criar as minhas próprias histórias; acho que isso acaba por se reflectir nas coisas que faço hoje. Não vou a um sítio procurar influências específicas, vou procurar histórias, mitos urbanos, lendas ou até contos infantis, e daí crio cenários e personagens únicas, que acho que não se vêem em mais lado nenhum. É isso que faz com que o meu trabalho seja mais original, talvez."

"A minha infância tem um papel muito importante nos meu trabalhos. Tenho dois irmãos mais velhos e brincava com as coisas deles, mas também brincava muito sozinha, e isso fez com que desenhasse muito. Ainda hoje vejo nos meus cadernos de criança que criava as minhas próprias histórias, não ia ler livros porque também não os tinha... Então fazia as coisas por mim."

"Descobri uma expressão há pouco tempo que acho que define o meu estilo artístico na perfeição: Surrealismo Mágico. Achei perfeito e acho que vou ficar com isto! Os cenários que crio são sempre surreais, as criaturas são mágicas e as pessoas olham e vêem um cenário meio infantil, mas que também lhes diz algo. Para mim, isso é muito importante."

"Estive algum tempo fora de Portugal, na Tailândia. Foi muito difícil porque tive de começar do zero... A Tailândia é um sítio pouco usual para um ilustrador português ir. Não tem uma cultura artística muito grande, a nível de exposições e de ilustração, mas decidi arriscar e ir para lá. Foi difícil recomeçar do zero, quando por cá já tinha atingido alguma coisa. É uma realidade completamente diferente, quase ninguém fala inglês, são muito fechados, e querem sempre ilustradores tailandeses primeiro, só depois dão oportunidades aos estrangeiros. Na Europa é muito mais fácil, mas claro que é sempre complicado mudar de país e ser logo reconhecido."

"As viagens influenciam sempre o meu trabalho. Normalmente viajo por causa de alguma parede ou alguma exposição, e todos têm um tema; esse tema obriga-me a pesquisar sobre o sítio onde estou. Quando estou noutro país, acabo sempre por visitar as galerias, conhecer os ilustradores locais, conhecer realidades e estilos diferentes, e isso acaba sempre por me influenciar. Tem muito a ver com a pesquisa que faço sobre cada local. Há sempre coisas em cada cultura que me inspiram."

"A viagem que mais me marcou foi a Tailândia, sem dúvida. Gostava de fazer muitas mais, adorava ir ao Japão, ando obcecada com isso ultimamente. Tenho um certo pânico de demasiada informação e, se na Tailândia já foi complicado, imagino como seria estar no meio de Tokyo... Mas ao mesmo tempo, isso também me atrai. Absorver a informação toda que existe, há tanta coisa para ver que acaba sempre por ser um grande motivo para querer lá ir e conhecer tudo. Também adorava viver uns tempos em Paris e poder expor lá, existem uma série de galerias que, para mim, são as melhores. Tem tudo a ver com a minha personalidade, com o meu estilo de trabalho. Já fiz lá algumas exposições colectivas que correram muito bem e isso motivou-me imenso."

"A minha fase inicial foi muito experimental. Como andava à procura do meu estilo, experimentava vários materiais e fazia imensos trabalhos à mão. Hoje em dia já não faço tantos, o meu trabalho agora é quase só digital. Desde 2009 que faço ilustração e fui-me apercebendo que havia estilos que me aborreciam mais facilmente. Desenhava a carvão durante uma semana e fartava-me, então mudava para aguarelas, por exemplo, e assim sucessivamente. Isso fez com que explorasse muitos materiais diferentes. Neste momento estou a fazer mais trabalhos digitais, mas sei que daqui a um tempo poderei estar a fazer de outra maneira, porque é a minha forma de trabalhar."

"Tenho um fascínio pela escultura e já há imenso tempo que quero experimentar. Mas preferia encontrar alguém que soubesse trabalhar bem um certo material, como a cerâmica, por exemplo, e colaborar com essa pessoa. Claro que também poderia fazer sozinha, mas, hoje em dia, gosto mais de colaborar com outros artistas, poder juntar os talentos e fazer algo com isso. Cada vez valorizo mais as sinergias e colaborações. No início, queria trabalhar sozinha e fazer tudo por mim, mas à medida que o tempo vai passando, quero melhorar em certas técnicas ou estilos, e colaborar com pessoas que são boas em determinadas áreas, fundindo talentos e absorvendo conhecimentos."

"As cores que utilizo não têm nenhum significado específico. Elas foram-se juntando desde o início e são sempre as mesmas. Tem graça porque, se eu pensasse nos meus trabalhos a preto e branco, acho que não teriam tanto impacto e eu não iria gostar deles. Por isso uso estas cores todas, fazem sentido na minha cabeça e, para mim, já não há outra forma de trabalhar. Fazem sentido e acho que provocam alguma reacção nas pessoas; o facto de ser um trabalho assim tão colorido provoca alguma alegria. Vejo isso mais nas paredes e nos trabalhos de rua. As cidades são sempre tão cinzentas e o meu trabalho é uma coisa colorida ali no meio, acho que deixa as pessoas felizes, e isso é sempre um bónus."

"Há muitas coisas que me marcaram. O ano passado foi muito importante para mim, porque houve uma série de festivais de arte urbana e fui a sítios onde não pensava ir antes, a Estarreja, ao Bairro da Torre, em Cascais... É um bairro problemático e foi o que me marcou mais. Estou habituada a estar em casa, ao computador, onde ninguém me chateia e ninguém dá opiniões enquanto eu faço o meu trabalho. Mas, quando estou na rua e num bairro destes, as coisas mudam de figura. Fico mais exposta e tenho de lidar com uma realidade diferente; as pessoas passam e olham para o que eu estou a fazer, dão opiniões, e eu fico sujeita a uma série de coisas. Mas no final, quando sinto que aquilo que foi bom para elas e vejo que ficam felizes com o meu trabalho, é muito enriquecedor. O meu trabalho evoluí com isso e eu também."

"No início nunca pensei que fosse ter de me expor assim tanto. Não digo que não soubesse que teria de dar entrevistas ou coisas do género, mas estar a trabalhar na rua e ter as pessoas a vir falar comigo e a darem a suas opiniões, que podem ser positivas ou negativas... Isso é totalmente diferente e temos de saber lidar com isso. Mas faz-nos crescer e é uma boa experiência."

"Tenho de sair muitas vezes para me inspirar. Gosto de ter imensas coisas aqui à minha volta, porque me servem de inspiração e, quando estou aborrecida, olho para o lado e vejo qualquer coisa que pode desbloquear uma ideia. Mas, como trabalho em casa, às vezes é complicado desbloquear ideias e tenho de sair. Vou passear, beber um café, ver pessoas, falar, ler, desenhar, e aí sei que vai surgir alguma coisa, vai fluir melhor."

"Desde o ano passado que tenho vindo a fazer trabalhos mais digitais, por causa de projectos que foram surgindo e que me obrigaram a isso. Não pus de parte esta técnica mais manual, mas preciso de projectos específicos para a por em prática novamente, porque neste momento estou confortável assim, sobretudo devido ao estilo que estou a trabalhar. Sei que, eventualmente, poderá surgir uma exposição que me vai obrigar a fazer o que faço no computador, mas manualmente, e vai ser mais um desafio. Mas é isso que eu quero. Tenho isso tudo apontado, numa lista de coisas que quero concretizar em 2017. Outro objectivo para este ano é ter uma parede em Lisboa, porque ainda não tenho nenhuma só minha. Felizmente, é um projecto que já está encaminhado. Quero ainda concretizar uma exposição a solo, também em Lisboa, e outras exposições lá fora."

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