Solo: Juliana Bezerra

Botanicum

Solo: Juliana Bezerra

por17 Abr 2017 lmanifesto

Tem tanto tempo de Joalharia quanto tem de vida em Lisboa. A brasileira Juliana Bezerra chegou à capital portuguesa, há cerca de 12 anos, e quase em simultâneo, ingressou no curso de Joalharia, na antiga escola Contacto Directo. Estava prestes a começar uma história forjada a ouro e prata, que a elevaria ao estatuto de referência da joalharia de autor em Portugal.

Visitámo-la numa tarde de quase-Verão, na loja-atelier perto do Jardim das Amoreiras. Da pequena montra podemos espreitar o interior, onde a rudeza da maquinaria e ferramentas coabita em simbiose com as formas orgânicas e delicadas dos objectos expostos. Um cabinet de curiosités, onde o olhar viaja através da essência e peças da Ju, como carinhosamente é tratada.

 

Texto e Fotografia: Soraia do Carmo

O processo de entrada na loja de Juliana Bezerra tem um ritual com algumas etapas, mesmo quando vamos com o objectivo vincado de fazer uma entrevista. A chegada a compasso decidido e apressado é desacelerada pela montra, onde as peças de autor prendem os primeiros soslaios, obrigando-nos a fitá-las languidamente, por largos segundos. Há sempre uma ou outra peça que nos fala, e nós desejamos esse diálogo, assim como o contacto corporal. Ao entrar, "para ver de perto", quem nos recebe é uma artista e anfitriã com um sorriso quente e fácil, e um melódico sotaque brasileiro que não perdeu, mesmo depois de uma década em Portugal.

Está naquela loja há cerca de quatro anos, assim que sentiu a necessidade de ter um espaço para trabalhar a marca em nome próprio. Recorda o início, quando partilhava um atelier, em Santos, com três colegas joalheiras, antes de procurar um espaço a solo... Para espalhar o seu mundo pelas paredes, e as inspirações e referências visuais que a cativam, pelas estantes e mesas.

 

"Os objectos são uma forma de lembrete, em vez de anotar num caderno o que quero fazer com determinado objecto ou pedaço da natureza, rodeio-me da sua presença física.

A minha musa inspiradora é a natureza, mas também pesquiso muito na história da joalharia, nas formas já existentes que quero trazer para o presente, e fazer uma re-leitura das mesmas, através do meu traço.

Mas, há mais coisas que me inspiram como a Arquitectura, fachadas, ferragens e outros elementos da paisagem urbana."

Esta não é a primeira vez que entramos na loja da Ju. E os elementos de decoração, seguramente, não são os mesmo da última vez que ali estivemos. As referências decorativas servem de matéria inspiracional, e são os mais fiéis indicadores do imaginário corrente da joalheira. Dão-nos pistas reais do que vai, ou já está, a ser criado.

“De momento, estou  a trabalhar na colecção de Verão, então estou a compor aqui um cenário com folhagens que me fazem lembrar o Vietname, mais umas pequenas coisas que trouxe de lá. São achados da viagem, como folhas secas que fui encontrando e guardando. E, como o Vietname tem muita influência chinesa e japonesa, então eu trouxe tudo o que fizesse lembrar essas estéticas, como os padrões, livros para ter uma base de história… Tudo isto me ajuda a ganhar uma direcção numa colecção. Como estive lá quero aproveitar a inspiração porque me dá mais "chão" para criar as peças.”

"Esta é a área das inspirações. É um grande universo que conta com gravuras, ilustrações, objectos, tudo coisas que não posso esquecer. Há também coisas que vou recolhendo da rua, ou que algumas pessoas, por saberem que eu gosto, me oferecem. Nomeadamente, sementes, conchas e folhas.”

"Aqui tenho as minhas inspirações permanentes! Como a Tarsila do Amaral, que adorava brincos grandes... E, como eu também adoro, então é uma das minhas musas! Aqui também está sempre o Picasso com o seu lado louco, que é um traço que adoro nas pessoas... Um pouco de loucura! Tenho também uma referência a Matisse.”

Juliana pontua, também, o espaço de trabalho com pequenas frases motivacionais, que completam o cenário inspiracional.

Tornou a pequena loja num espelho da própria alma. Podemos lê-la em cada metro quadrado.

“Adoro o conceito de loja-atelier. Tenho sempre o que fazer: Se não estou a atender um cliente, então estou na bancada de trabalho a polir ou a lixar uma peça. Se assim for solicitado no acto da compra, posso alargar um anel na hora, ou oxidar, ou pôr mais brilhante.  É uma dinâmica que funciona. "

“Adoro o diálogo com o cliente. A descoberta do mesmo. Aprendo muito com os clientes, até na forma de usar as peças… Por exemplo, com a mistura de anéis, quando vejo essas composições naturais nos dedos da cliente, e que eu nunca tinha pensado antes. Esse feedback é muito interessante. Para além do carinho, há clientes que me chamam de Ju, somos quase uma família!

E, até já tenho coleccionadoras. Grande parte das minhas clientes são reincidentes, e isso é incrível. Fico muito grata.”

Podemos ousar dizer, que uma das componentes da fórmula de sucesso da marca, é a coesão. Tudo está inter-ligado. Uma imagem liga a uma história ou pesquisa: A imagem ganha vida corpórea e recebe um nome, que por sua vez, está também em consonância com a premissa da sua criação:

“Por exemplo, a última colecção foi dedicada ao barroco português e brasileiro, então tenho peças com nomes dos pintores da época, de princesas, príncipes ou cidades como Vila rica. No passado, já usei nomes científicos das conchas, das frutas... Portanto, os nomes são muito pensados, nada disto é à toa.”

E, o fio condutor do universo de Juliana guia-nos até à plasticidade da marca. E, mais uma vez, à coesão.

“A parte referente à criação da campanha da colecção dá-me um enorme prazer. Tenho a sorte de trabalhar com a mesma equipa desde o início... Com o mesmo fotógrafo, que é alguém com quem partilho visões. Por exemplo, agora já sabem que a colecção nova terá o mote Vietname, então já está a ser pesquisado o cenário, a plasticidade perfeita, a luz ideal para as fotografias. E, eu confesso que adoro esta parte!”

A plasticidade que defende, transborda para as redes sociais. Campo onde aprendeu a divulgar a marca.

"Comecei pelo Facebook... Foi aí que comecei a vender. As redes sociais são uma montra gigante! Ás vezes preocupo-me mais com o instagram do que com a montra da loja. Chega a todo o lado, já cheguei a receber aqui pessoas da Austrália, que seguiam a minha página de Instagram."

E, o tema conduziu-nos ao recente reconhecimento... A uma escala estratosférica… A marca Juliana Bezerra figura nas páginas do roteiro de Lisboa da Louis Vuitton!

“Fiquei uma semana sem acreditar! Li o email umas dez vezes, porque não acreditava que era real.  Para mim foi uma honra, e o próprio texto que escreveram... Fiquei arrepiada quando li, é lindo e estudaram mesmo o meu trabalho. É como se fosse um selo de credibilidade.”

“Quero melhorar no aspecto global. No negócio como um todo. Desde as embalagens, à durabilidade das peças, estou sempre a seguir o sentido da evolução. Queria um espaço maior, mas adoro estar aqui e isso tem de ser ponderado. Dá-me a paz necessária para produzir”

 

 

© 2017 L Manifesto

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