SOLO: Imauve by Inês de Oliveira

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SOLO: Imauve by Inês de Oliveira

por20 Mar 2017 lmanifesto

O novo tema semanal pedia um Solo à medida, com alguém que nos remetesse para os conceitos de beleza, graciosidade, elegância e equilíbrio. Entrevistámos, por isso, a designer de moda Inês de Oliveira, no seu pequeno atelier, situado no coração do Bairro Alto, para ficarmos a conhecer melhor o tão promissor projecto a que se tem dedicado de corpo e alma. Imauve é o nome da marca da jovem designer, lançada oficialmente o ano passado, mas cuja criação remonta ao ano de 2013.

 

Texto: Filipa Leal

Fotografia: Soraia do Carmo

O sol espreitava radiante naquela manhã, enquanto caminhávamos pelas ruas inclinadas do Bairro Alto, com os seus traços típicos e a tranquilidade diurna, até ao atelier de Inês de Oliveira, onde nasceu a marca Imauve. A decoração e organização do espaço têm vindo a sofrer alterações ao longo dos últimos anos, consoante as necessidades da criadora e dos seus projectos. Pelo pequeno e modesto T1, já passaram máquinas de costura, costureiras, mesas de corte e vários clientes, quando a marca vivia, sobretudo, de pedidos especiais. Hoje em dia, e sobretudo agora que a nova colecção se encontra em fase de produção, Inês confessa que as suas rotinas implicam uma movimentação constante, e que pouco tempo resta para o trabalho em atelier, saltitando diariamente entre fábricas, costureiras e fornecedores.

“A Imauve nasceu neste espaço, no Bairro Alto. Sempre desenhei e sempre trabalhei aqui. Lisboa é uma cidade que me inspira imenso e esta zona, em particular, com o rio tão perto e a herança destas ruas históricas, com as casas de passamanarias, as lojas de tecidos da Baixa, tudo isso sempre exerceu imenso fascínio sobre mim e sempre foi um sítio muito propício para criar. Quando comecei a Imauve, tinha costureiras aqui a trabalhar comigo, fazia peças exclusivas e recebia pessoas aqui. O meu atelier era neste espaço e fazia tudo aqui: desenhos, corte, modelagem, costura e provas.”

“Neste momento, não posso dizer que tenho um espaço fixo, porque o meu trabalho permite-me essa flexibilidade; tanto posso estar a desenhar aqui como na praia, mas também preciso de um certo método e estrutura. Preciso de um escritório, preciso de um computador, de uma impressora, de um scanner, mas o meu trabalho também é muito “on the go”. Pego nas coisas e vou à costureira, depois vou à fabrica, depois vou comprar entretela, por exemplo, depois preciso de não sei o quê ou lembro-me que não tenho botões... E ainda há as reuniões e provas, pelo meio. Portanto, ando sempre de um lado para o outro.”

“Apesar de considerar o atelier como a minha “sede”, sinto que posso trabalhar em todo o lado e, ultimamente, até tenho estado num escritório, junto de outros empresários, numa espécie de cowork, o que também é útil porque lido com outras pessoas, e estar sempre sozinha pode ser muito duro... Mas eu gosto desta vida, deste dinamismo, gosto de acordar e não saber ao certo o que vou fazer, porque todos os dias são diferentes. Acabo por me adaptar à minha agenda e ao que surge. Às vezes anseio por um dia (ou umas horas) em frente ao computador, porque nunca consigo ter tempo para isso e nunca consigo parar. É muito stressante, mas ao mesmo tempo é muito bom. É um trabalho muito dinâmico e obriga-me a ser muito flexível e a saber adaptar-me a todas as circunstâncias, isso traz-me muito entusiasmo.”

Com uma Licenciatura em Design de Moda e um Mestrado na mesma área, Inês confessa que, mesmo durante os tempos de Faculdade, ou enquanto ganhava experiência profissional noutras marcas e empresas, sempre soube aquilo que queria: ter a sua própria marca. E foi desse sonho que nasceu, então, a Imauve.

“Comecei a Imauve em 2013, como uma ideia, um sonho, aquilo que eu gostaria de fazer um dia, “quando fosse grande”. Nessa altura, dei os primeiros passos mas achei que ainda eram pouco sólidos, ou seja, que precisava de aprender mais, e por isso tive outras experiências profissionais, mas mantive sempre a Imauve mais ou menos acesa, com trabalhos e projectos pontuais, embora nada de muito significativo. Só quando me vi a ter um emprego como designer de moda, onde era valorizada e onde podia fazer aquilo para o que estudei, é que percebi que estava na altura de investir verdadeiramente na minha marca.”

Um dos aspectos fundamentais sobre o qual assenta todo o conceito da Imauve, está profundamente relacionado com os materiais utilizados. Inês é adepta assumida de tecidos 100% naturais e de materiais fabricados em Portugal. A designer expressou-nos a sua visão relativamente à moda e à selecção de tecidos, e confessou uma paixão vincada por fibras naturais, que passa, também, pela sua experiência pessoal e por uma íntima relação com os materiais têxteis.

“Há uma questão importante, que é o meu contacto com os materiais, e que se reflecte muito na minha marca... Tem a ver com eu achar que a roupa não é apenas uma manifestação artística, ou seja, que a moda não é apenas uma forma de arte. Acredito que o seja, e há criadores que fazem isso muito bem, como a Rei Kawakubo, o Yohji Yamamoto e todos aqueles designers mais conceptuais que, realmente, estão a tentar transmitir algo e estão a tentar passar uma mensagem, que eu admiro, mas que não é aquela que eu quero passar. Eu vejo a moda de uma perspectiva mais funcional, mais prática, mais de usabilidade.”

 

“E é aí que entra a questão dos tecidos. Eu sempre tive uma pele muito sensível, e o contacto dos têxteis com a pele sempre me causou alguma dificuldade... Por isso, quando pensei em ter uma marca, soube sempre que iria utilizar matérias naturais, como o algodão, a seda... Portanto, este fascínio pelos tecidos naturais não tem só a ver com a performance; um tecido natural é mais "autêntico", a pele respira melhor e, por isso, é mais confortável. E, claro, a textura, o toque suave, o cair da peça, que não fica espetada, não fica armada, não aperta, não manipula o corpo. Acho que a roupa deve coexistir com o corpo e fazer com que nos sintamos confortáveis.”

 

“Eu consigo estar horas a olhar para amostras de tecido, a tocar, a ver a forma como reflectem a luz, a senti-las... É uma espécie de um namoro. Os materiais são o ponto de partida, muitas vezes. Normalmente, desenho muito, por exemplo, para esta colecção, desenhei cerca de 500 peças e só escolhi 17, portanto foi um processo muito selectivo. Mas, apesar do design ser o meu foco, os tecidos são aquilo que ajuda a peça a passar de um desenho para a realidade, por isso têm igual importância. No design, a forma segue a função e, neste caso, a forma é dada pelos tecidos, ou seja, o desenho estabelece o contorno e o tecido estabelece o preenchimento.”

“Eu privilegio as matérias primas portuguesas, por isso os tecidos são quase todos portugueses e produzo tudo em Portugal. Infelizmente, não consegui encontrar sedas com as especificidades que eu queria, por isso tive de importar. Mas todos os outros materiais, desde a cartolina das etiquetas, a todos os outros tecidos e materiais, são produzidos em Portugal. Quero manter uma marca "made in Portugal", por isso privilegio muito isso. Nós temos uma indústria têxtil fabulosa que, infelizmente, levou o seu rombo, mas que agora está a renascer.”

Para as suas criações, Inês rege-se pelo princípio de que a forma segue a função, procurando que as suas peças respondam satisfatoriamente às necessidades diárias das mulheres reais - as verdadeiras musas da Imauve. Mas, apesar dos tecidos delicados e das linhas simples, a leveza das suas peças não se prende simplesmente com aquilo que é visível e palpável; existe, também, uma mensagem de equilíbrio e tranquilidade, mais subliminar, que Inês procura passar através das suas criações.

“Costumo dizer que a Imauve é desenhada para a mulher contemporânea, porque no fundo, a mulher contemporânea é uma mulher que faz tudo. É para essa mulher que eu trabalho, não tanto para uma mulher “mística”, imortalizada pela sociedade, como as divas, as actrizes ou as estrelas da música. É certo que tudo isso me fascina e todas essas mulheres acabam por me inspirar, mas, no fundo, não são elas que me motivam, são as mulheres como eu. E acho que o facto de eu ser mulher ajuda-me muito a fazer este trabalho, porque eu penso muito no que é que eu preciso. Não digo que desenhe para mim, mas se calhar desenho para uma pessoa parecida comigo, com necessidades reais. Acho que é por isso que as minhas peças têm tanta simplicidade, porque num mundo tão cheio e tão confuso, às vezes é preciso uma certa calma... É isso que também interpreto no conceito da Imauve, a questão do "slow fashion", tentar lutar um pouco contra o calendário e contra todos estes prazos loucos, e tentar encontrar soluções de vestuário que nos permitam sentirmo-nos bem e confortáveis, nas várias situações que o nosso dia-a-dia exige.”

E ninguém melhor do que a própria fundadora da marca para conhecer as verdadeiras necessidades da mulher contemporânea. De entre variadas características, Inês é, indubitavelmente, uma mulher activa, multi-facetada e empreendedora. Porém, todos os malabarismos diários acabam por ser realizados de uma forma um pouco solitária, com as responsabilidades e preocupações inerentes e comuns a todos aqueles que decidem largar tudo para criar o seu próprio negócio.

“É um trabalho solitário porque ainda não tenho equipa. Sinto que sou o motor de tudo e que está tudo muito dependente de mim. Mas adoro todas as fases, desenhar, cortar etiquetas, pensar nas condições de lavagem, prototipizar, ver o desenho tornar-se realidade... Dá-me imenso gozo.”

“Acompanhar todo o processo de produção é, simultaneamente, uma das coisas mais interessantes que faço e um dos maiores desafios. De facto, às vezes é complicado... Nem todas as pessoas lêem o mesmo molde da mesma maneira, nem todas as pessoas fazem as costuras como eu gosto, e eu sou muito, muito exigente. Mas acho que é uma coisa que sempre tive, este perfeccionismo nasceu comigo. Por isso, é uma das melhores coisas, mas também é uma das mais desafiantes.”

“Houve momentos difíceis, claro. Todos os dias há aquele pensamento de que se calhar não vou conseguir... E é natural, porque está tudo muito no início. Às vezes passo por algumas situações complicadas com a Imauve, e costumo dizer que não há desafios maiores do que aqueles que estão para vir, porque tem sido sempre de forma crescente, em vez de ser ao contrário! (risos) Há sempre mais responsabilidade, mais riscos... Ao aumentar o volume das colecções e da marca, o número de obstáculos também aumenta. Tem sido uma espécie de escalada, estou a subir e cada vez está a ser cada mais desafiante. No início havia muita incerteza, mas também havia o desconhecido e o desconhecido é muito bom. No fundo, é aquela surpresa de algo que me espera, que não sei como vai ser, mas sei que é algo que quero muito. E esse inesperado, esse segredo que o futuro encerra, é uma motivação gigante para tentar chegar lá e descobrir o que há ali reservado para mim. Nesse aspecto, sim, houve momentos de dúvida, mas há esses momentos diariamente, é uma preocupação para toda a gente que tem um produto no mercado. Até agora eu tinha um sonho, e agora quero ter um negócio e quero que seja bem sucedido. Em Portugal, infelizmente, estamos um bocadinho formatados para o pessimismo.”

Prestes a lançar a sua loja online, Inês falou-nos, ainda, da nova colecção de Inverno e dos planos para o futuro da Imauve.

“A nova colecção de Inverno vai ter cerca de 20 coordenados, mais ou menos como esta. Não tenciono fazer colecções muito vastas, porque acho que quando queremos ser tudo, acabamos por nos dispersar; mas também não quero que seja demasiado pequena, correndo o risco de não oferecer opções suficientes ao público. E é importante, por exemplo, numa loja online, ter várias imagens e vários produtos por onde escolher, senão parece tudo muito redutor. Então, foquei-me naquilo que acho que são os essenciais para qualquer guarda-roupa, e é para essas peças que eu me dirijo quando começo a trabalhar numa nova colecção.”

“O futuro passa pelo comércio electrónico, sem dúvida. Acho que é uma ferramenta importantíssima, facilitadora, unificadora, e acho que todo o comércio vai passar pelo online em muito pouco tempo, é apenas uma questão de paradigma.”

“Gosto de pensar "Act locally, think globally". Claro que gostava que o próximo passo fosse a internacionalização da marca, mas não sei se ainda é cedo para isso. Felizmente, o online permite-nos isso, permite-nos sonhar com a internacionalização, e acho que a Imauve ia ser muito bem recebida noutros países, como o norte da Europa, por exemplo. Mas, primeiro, vou focar-me em Portugal, que é o meu país, o país da marca e das matérias primas. O meu percurso nunca passou pelo estrangeiro, nunca pensei que tinha de ir para fora para ter sucesso em Portugal; por isso, se é aqui que estou a começar, se é este o meu ponto de partida, quero dar uma oportunidade ao meu país de provar o meu produto e ver como é que o público responde. Mas claro que adorava exportar e penso em lançar a Imauve internacionalmente.”

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