SOLO: ANNA WESTERLUND

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SOLO: ANNA WESTERLUND

por22 Mai 2017 lmanifesto

 

Há muito que esperávamos que este encontro se proporcionasse, pressentíamos algo de especial.

Engraçado será dizer que normalmente não são criadas expectativas, vamos para sermos surpreendidas, como se de uma tela em branco se tratasse e que, aos poucos, ao som de cada palavra e de cada história contada, vai sendo lentamente preenchida. Traços que se cruzam, aguarelas que se misturam, cores que se sobrepõem e que, no final, quando os nossos olhos delicadamente se abrem, nos proporcionam uma ilustração única e exclusiva, à medida da nossa convidada ou convidado. Desta vez, quando os nossos olhos se abriram, metaforicamente falando, é claro, um qualquer mar caribenho relevou-se diante de nós, tínhamos sido surpreendentemente transportados para lá, flutuávamos sobre um lindíssimo recife de corais e a máscara de snorkeling que utopicamente usávamos, permitia que respirássemos e observássemos detalhadamente cada pormenor daquela flora subaquática incrível e colorida.

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Soraia do Carmo

Uma descrição em formato de ficção mas que se equipara ao que sentimos quando entrámos no atelier de Anna Westerlund, no andar -1 de sua casa.

Um privilégio, sim, e isso sente-se, respira-se um ambiente familiar e tranquilo naturalmente emoldurado pela tão esperada e infindável população de objectos que habitam mesas, mesinhas, estantes e paredes. Com um só olhar isolámos detalhes, fios coloridos, missangas, pedaços de tecidos que antevemos entrelaçados numa qualquer pega de um teapot ou sugar cup lindíssimo.

Os anos não passam por Anna, a beleza, frescura e tranquilidade mantêm-se inalteradas, sem precisar de recorrer a um look especial, esperava-nos no seu work outfit e estava incrível! #genetics

Fãs e seguidoras assumidas do seu trabalho, começámos por perguntar de onde vem aquela delicadeza e doçura singulares que se espelham a cada peça que cria.

Gosto de cor, de padrões, de misturar materiais e também gosto de peças mais depuradas, mas sinto que é tudo muito espontâneo! Nesse sentido posso dizer que há muito de mim em cada peça porque estas surgem de matérias e materiais com os quais gosto de brincar e experimentar, dá-me imenso gozo! Cada peça acaba por ser o resultado de diversos ensaios.

No início de cada colecção crio um mood baseado em sensações que quero transmitir. Mais do que uma história em si, procuro cores, texturas… Aliás o que me fascinou na cerâmica e o que me fez enveredar por esta área , foi precisamente o facto de nos permitir desenvolver um trabalho de autor e um trabalho mais utilitário sem que um comprometa o outro, ou melhor, deixando que os dois coexistam e se complementem! Em áreas mais artísticas, nas artes plásticas, um trabalho mais comercial poderia comprometer o trabalho de autor, neste caso não. Aqui é mais fácil criar diferentes linguagens. Gosto de design de interiores e dentro desta área, a cerâmica sempre me proporcionou a liberdade que precisava para experimentar e testar os vários sentidos.”

Perguntámos se a sua infância marcada por uma relação forte com a natureza influenciou o seu trabalho.

É verdade que a natureza e a forma como cresci em constante contacto com ela, nas férias da minha meninice que eram muito livres e passadas no campo, está muito presente em mim, mas, ao mesmo tempo, não creio que esteja assim tão presente como uma referência incontornável no meu trabalho!

É engraçado que noto que recolho imensas coisas, por exemplo, se vou à praia trago pedrinhas e raminhos, mas não significa que essas sejam referências conscientes para o meu trabalho, ou seja, não as tenho posteriormente como formas às quais me procuro aproximar. Sinto que sou mais de recolher informação, coisas mais urbanas e industriais e depois faço o meu mix entre várias coisas que me atraem e que podem, perfeitamente, pertencer a naturezas opostas!

Sou uma coleccionadora de imagens, é um bocadinho o meu vício. Dá-me imenso prazer ver, observar! Quando me perguntam de onde vem a minha inspiração, vem de tudo, está muito ligada a esta predisposição para estar de olhos bem abertos, atenta! Tudo pode ser uma inspiração desde que tenhamos a alma aberta a isso e é nesse sentido que gosto muito de recolher e de guardar imagens.

Disseram-me, há algum tempo, uma coisa que gostei de ouvir e que me fez querer usar essa descrição, disseram que as minhas peças parecem uma ilustração transformada em objecto, achei giro, gostei da ideia! A verdade é que quando começo a fazer uma peça, não penso na sua utilidade, isto é, quando comecei a fazer bules não o fiz porque tinha um fascínio por eles mas porque é um objecto que tem diversos componentes que permitem ser trabalhados de forma individual: a tampa onde podia brincar e pôr qualquer coisa, a pega, o seu formato… de repente era uma peça que me permitia experimentar imensos materiais e me dava liberdade para criar. Quando penso num objecto imagino algo que me dê liberdade criativa ou que tenha uma forma apelativa! E talvez seja isso que algumas pessoas têm algum receio de usar as minhas peças no dia-a-dia e preferem utilizá-las como peça de decoração. Isso levou-me, recentemente, a pensar numa colecção com um conceito mais tableware, mais utilitária, que apresentarei brevemente.

Liberdade de criação que valoriza e que lhe valeu um reconhecimento muito especial!

O convite da Anthropologie, foi uma experiência espectacular! Fiquei muito surpreendida e muito feliz. Sendo muito sincera, confesso que sempre tive o sonho de algum dia vir a fazer alguma coisa com esta marca, tenho-a como uma referência global que ainda conserva e preserva uma linguagem muito única. Era um grande sonho até que, num belo dia, recebi um e-mail que dizia: “Hello from Anthropologie” e pensei:” Mas isto é uma newsletter? Não costumo recebê-la neste e-mail! E aí sim, li e não queria acreditar que me estavam a contactar para desenhar uma colecção! A verdade é que naquele momento senti uma responsabilidade enorme, mas a simplicidade e a maneira como deram seguimento a este trabalho, deu-me tanta segurança que tornou tudo muito mais fácil. Foi delicioso, é muito bom quando um sonho se torna realidade! A verdade é que temos muitos momentos de insegurança quando estamos a trabalhar e ter um boost de confiança deste é muito importante e motivante, faz-me pensar que às vezes faço alguma coisa de jeito!

Trabalhar uma colecção nova tem um lado divertido, dá-me imenso gozo pensar no que quero fazer mas inevitavelmente chega a fase mais stressante onde surgem os questionamentos e as dúvidas, o processo resulta de um misto de sensações! A cerâmica é um bocadinho caprichosa e há coisas que não dá para contornar, às vezes idealizo e quero reproduzir aquilo que imaginei e nem sempre é possível! Mas é esse o desafio! A partir do momento em que há uma exposição de quem somos, há dúvidas e inseguranças.

Há um movimento global dos crafts, no sentido de valorizar o que é handmade e faz todo o sentido porque o nosso país tem uma tradição na cerâmica muito rica e seria uma pena desperdiçar e perder essa identidade. Por outro lado, sinto que hoje em dia tudo tem de ter um twist contemporâneo e isso faz com que se perca uma continuidade. Acredito que as duas versões – a mais tradicional e a mais contemporânea- têm espaço e devem coexistir, não é necessário acentuar e/ou criar essa quebra, são trabalhos distintos e ambos bonitos!

Uma estética apurada, um adn inconfundível que, ao mesmo tempo, mistura diferentes referências, conseguindo manter-se num registo clean e simples. Influências de uma estética nórdica.

A grande maioria das pessoas que resultam de influências de duas nacionalidades, como é o meu caso, sentem essa dualidade cultural e há traços que se acabam por manifestar mais quando estou em Portugal e outros quando estou na Suécia. Por exemplo, quando estou na Suécia e apesar de gostar de ter as coisas organizadas, tal como todos os suecos, sinto falta de alguma desorganização, de uma espontaneidade. Já quando estou em Portugal, local onde moro e onde nasci, o lado nórdico parece que salta e, por vezes, essa desarrumação torna-se excessiva. Na Suécia, há uma preocupação estética com tudo, é algo de inato isso aqui não acontece. Costumo brincar com o exemplo das marquises, na Suécia não há marquises, é uma solução que destrói as fachadas, é inestético e ninguém o faz! Ao passo que em Portugal há imenso, é o nosso lado prático e espontâneo que nos leva a isso e se calhar aos nórdicos até lhes daria imenso jeito ter uma marquise mas a consciência estética não o permite! Mas independentemente disso, tenho muito orgulho em ser portuguesa e sueca.

No meio daquele ambiente de criação, a presença de Anna, a sua calma e doçura filtram o caos criativo e transportam-nos para uma realidade cujo ritmo nos é imposto pela delicadeza que cada peça exige para ser criada.

Um mar saturado de detalhes que inebriam quem tem o privilégio de o presenciar e que resultam de uma fusão singular de referências culturais díspares que enriquecem e tornam o talento e visão de Anna ainda mais especiais.

 

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