ROUGE por Maria Marques Mendonça

Beauty

ROUGE por Maria Marques Mendonça

por13 Fev 2017 lmanifesto

Entramos numa semana em que a tónica do amor está deveras acentuada. Mas, quer sejamos uma better half ou proudly single, a palavra de ordem é auto-confiança e empowerment, independentemente do estado-civil, ou da lotação do coração.

Voltamos a receber uma das nossas cronistas favoritas, Maria Marques Mendonça que nos traz um ensaio sobre um dos símbolos máximos da feminilidade, o batom vermelho. 

 

Texto: Maria Marques Mendonça

Fotografia: Soraia do Carmo

A última vez que escrevi uma “carta”ao L Manifesto, que lhe abri as portas da minha casa e me deixei fotografar, muita coisa era diferente. Para começar, ainda não era inverno. Depois, estava grávida, com uma pele radiosa a mostrar que o verão se tinha prolongado muito para além do que é habitual. Ó, como a vida é diferente agora. O que me falta de horas de sono, tenho acumulado em olheiras. Por entre alertas laranja da Proteção Civil e as bronquiolites do mais velho, as saídas de casa têm sido raras. Aqui que ninguém nos ouve, a maternidade não é, definitivamente, o que se vê no instagram. Mas nem sempre estou com vontade de o admitir ao mundo (acabei de o fazer aqui, não foi?), e muito menos a mim própria. Quando assim é, um batom vermelho ajuda. E muito.

 

Tal como acontece com a moda, a maquilhagem que estamos a usar (ou a não usar) transmite uma mensagem. Umas vezes é só falta de tempo, outras dá pistas sobre quem somos, quem queremos ser,  como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmas. A maquilhagem que escolhemos usar tanto pode sussurrar segredos como ser exibicionista. Às vezes é classy, outras punk, romântica ou desligada. E há um tom de batom vermelho para tudo isto.

 

Quando, em 1912, as sufragistas tomaram as ruas de Nova Iorque manifestando-se pelo seu direito de voto, muniram-se de palavras de ordem, de cartazes e lábios pintados de vermelho vivo. Maquilharam-se para simbolizar a sua independência. Aquela manifestação, entre tantas outras coisas muito mais importantes, significou também um ponto de viragem revivido ainda hoje em todo o mundo  – o da apropriação da maquilhagem como símbolo de emancipação: somos donas do nosso corpo e podemos mostrá-lo da forma que nos der na real gana – quanto mais feminina, melhor. O batom esteve sempre associado à sexualidade - e no início do século passado era usado apenas por prostitutas e atrizes) - mas passou a simbolizar também o poder do feminino, da identidade da mulher. Passaram mais de cem anos, mas (infelizmente) à luz de tudo o que tem acontecido no mundo, esta luta mantém-se actual.

 

Porque usamos batom hoje? Apenas para nos sentirmos bem? Não vale a pena subestimar a confiança trazida pelo poder de escolher a aparência com que enfrentamos o mundo. Mas não só. Um batom vermelho pode ser a moldura perfeita para as palavras que saem das nossas bocas.  Pode fazer a diferença, fazer de nós novas mulheres. Já o foi no passado e pode sê-lo todos os dias, com qualquer uma de nós.  Só que, da minha experiência, posso dizer-vos que  a percentagem de mulheres que se recusam a usar um batom vermelho é diretamente proporcional àquela de mulheres que adoram batom vermelho… nas outras! Porquê? “Pareço um palhaço” é a justificação mais comum. Mas, a não ser que tenham a coordenação motora do meu filho de 2 anos, dificilmente se parecerão com um.

 

Se este é um look que vos agrada, deviam experimentar. Sim, no início, vão ver-se ao espelho e não vão reconhecer aquele rosto, não parecem vocês, o sorriso está diferente e não conseguem dizer se isso é uma coisa boa ou má. Mas já dizia Fernando Pessoa, “primeiro estranha-se…” e depois, quando derem por isso, já não conseguem sair de casa sem ele.

Não é fácil encontrar o tom ideal na primeira tentativa. E quando digo ideal, não me refiro àquele que em teoria fica bem com o tom da pele, cabelo e olhos, mas sim ao que transmite exactamente o que pretendem.

  1. Não tenham pressa. E não desistam. Podem não o encontrar no primeiro balcão em que passaram. Pode não ser dessa marca, mas ele existe.
  2. Levem convosco a pele perfeita. O que quer que seja que isso signifique para vocês. Se for um rosto sem qualquer maquilhagem, vamos a isso. Se gostam de ter todas as imperfeições camufladas com base, corretor, iluminador e tudo o que mais exista no mercado, óptimo. O objective deste ponto é irem como se sentirem mais bonitas para que o batom seja apenas um ingrediente extra, sem pressão.
  3. Sejam práticas. Encontrar o tom perfeito nem sempre o mais importante, às vezes interessa mais a sua textura e a facilidade com que se consegue que os lábios fiquem como desejamos.
  4. Na dúvida, procurem texturas que funcionem por camadas. A primeira camada terá um efeito mais glossy e transparente, a segunda será mais sumarenta e atrevida, a terceira mais evidente, e por aí em diante. Isto pode ajudar todas as mulheres que precisam de ganhar coragem aos poucos, dia após dia. É como mergulhar no mar: há quem corra e se atire de cabeça na primeira onda e outros darão passos mais tímidos, molhando-se aos poucos, ligeiramente contrariados, mas com a certeza de que vai valer a pena.
  5. Own it. De lábios pintados e queixo erguido, o mundo é vosso.

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