Virgul

Virgul

O dia amanheceu e o frio cortante de uma madrugada demorada manteve-se, o sol trazia com ele uma luz branca intensa, mas deliciosa. Daqueles dias que reavivam a memória de alguns momentos “cinematográficos” em que a nossa melhor companhia se resumia a uma chávena XL de café americano envolta num casulo de tricot e uma manta tartan, em fazenda. A luz, factor relevantíssimo neste cenário, infiltrava-se pela janela da sala destemidamente e sem precisar de permissão prévia.

Estávamos assim, numa espécie de compasso mágico. O dia, esse, foi-se transformando, culminando num céu cinza antracite com uma luminosidade nostálgica, característica de um belíssimo e tradicional dia de Inverno.

Tínhamos um convidado especial e uma proposta peculiar.

Queríamos trazê-lo para essa realidade, para essa clássica serenidade e nostalgia de um enigmático dia de Inverno. O contraste da sua personalidade forte, o seu carisma contagiante e a veia musical pulsante foram o key factor para transformar este dia e esta produção em algo único e memorável.

Dispensa apresentações: o cantor, rapper e MC Bruno Silva aka VIRGUL é o convidado da semana do L Manifesto.

 

Texto: Margarida Marinho

Produção: Margarida Marinho e Ana Barraquero

Fotografia: Maria Rita

Maquilhagem: Lea Louro

Editora: Warner Music

Ler Intro

13

Bruno

Numa semana de intenso trabalho chegou ao estúdio e entrou com um semblante reservado, mas tranquilo. Só os olhos sorriam.

Não teremos de fazer um longo fast forward até ao momento de “descompressão”... 2 minutos depois ainda continuávamos próximos da entrada, de pé e a conversa não parecia querer parar. Tínhamos lido que a timidez poderia ser uma característica, acreditámos que o correcto seria retirar timidez e substituir por serenidade e delicadeza.

Sentámo-nos e com um café que nos aquecia as mãos, protelámos o início da gravação para ouvir uma versão live que o nosso convidado deliciosamente cantarolava.

Quando falamos com figuras do espectro público existe sempre a possibilidade de nos surpreendermos, é difícil dissociar a persona da pessoa, no entanto, é normal construirmos a nossa própria opinião com base no que ouvimos e vemos.

Não estávamos longe: a simpatia é clara, a delicadeza já aqui falámos, “terra a terra” também é uma expressão idiomática bastante interessante e que o define na perfeição.

Virgul, título concedido pelos seus amigos de infância em honra aos desenhos animados franceses cujo bebé seria um tanto ou quanto traquina e que o nosso convidado gostava de assistir religiosamente, começa por falar sobre a sua vida e sobre como chegou até à música, num percurso interessantíssimo, repleto de vitórias e, entretanto, milhares de visualizações.

Inicialmente era a dança que o cativava. Adorava! Chegou a acreditar que seria bailarino, à semelhança de algumas referências e influências incríveis, como Michael Jackson. Cresceu ao som da música e de um ritmo contagiante que o moldou e alimentou aquela sensibilidade em estado de latência. Circulava-lhe no sangue.

Nasceu em Almada, onde a sua mãe, de quem fala com um tremendo e indisfarçável amor, foi regando e estimulando essa veia musical e essa alegria.

Anos mais tarde, e já adulto, chegou a viver quase dois anos em Angola e afirma ter sido revelador; encontrou ali as justificações para muitos dos traços da sua personalidade, da sua forma de viver e voltou com a certeza de que o seu percurso continuaria intrinsecamente ligado à música.

Passar da dança para o canto deu-se de forma muito natural, mas já só muito próximo do momento em que integrou a família Da Weasel, inicialmente como back vocal, a convite do seu querido amigo Carlão. Teria uns 16 anos quando começou a prestar a devida atenção a este dom. Até lá, a música tinha um papel fundamental, mas ainda visto como hobbie cuja aprendizagem se fazia através de encontros de beatbox, de improvisos de rimas, de alguns workshops que ia frequentando no seu bairro e do convívio com os amigos.

Fazer parte dos Da Weasel e alcançar o estrelato foi algo repentino e imprevisível, confessa que foi uma das alturas mais marcantes e incríveis da sua vida.

Os Da Weasel tiveram um impacto indescritível no panorama nacional. Segundo Bruno, nada foi pensado ou planeado; foi, sim, vivido de forma autêntica, apaixonada e desmesurada e talvez aí se resida a fórmula do sucesso. Eram jovens que tinham um dom e a possibilidade de conseguirem viver dele, que se divertiam e que amavam o que faziam.

Diz com um sorriso no rosto, voz doce e grave: “... foi muito rock” e muita dedicação.

Brinca ao dizer que, tal como a comida da mãe- que pode ou não ser a melhor do mundo, acaba por parecê-lo pela dose de amor e de carinho que recebe... o mesmo acontecia com os Da Weasel e continua a acontecer na relação que construiu com a música.

Ler Capítulo 1

23

Dar o salto

Bruno entra agora numa nova fase, depois dos Da Weasel, seguiram-se os Nu Soul Family e, por fim, uma aventura a solo.

Um salto difícil, mas que sentia ser totalmente necessário, na verdade já o queria há muito, mas só agora viu todas as condições reunidas, incluindo a equipa ideal.

Brincou e disse que, à sua semelhança, os rapazes sentem frequentemente uma afinidade muito forte com a figura maternal, sentem-se protegidos e que têm ali um pilar; intitula-se, aliás, de “menino da mamã”. Uma comparação que podemos transpor para a sua vida profissional. Sempre esteve acarinhado e trabalhou em prol de uma equipa, de uma “figura” por quem nutria uma ligação forte, em que dava a cara e a voz por um projecto, mas não como único protagonista. Aqui o voo é outro. Um trabalho interior de valorização, de maturidade, de confiança e de aposta num desafio que o pode tornar mais vulnerável e, naturalmente, mais exposto, mas que lhe permitiu crescer e enfrentar com mestria novas situações.

Chegou a fase da vida em que se sente mais confiante e se quer aceitar como é, sem artifícios, assumir as suas forças, mas também as suas fraquezas, num caminho que em tudo é o reflexo da sua essência e da sua vontade. Autênticidade e genuinidade são as palavras de ordem.

Três singles lançados: “I need this girl”, “Só eu Sei” e “Rainha” que foram um sucesso e representaram milhões visualizações e vários prémios alcançados... o culminar desse trabalho deu-se dia 24 de Novembro, quando lançou o seu 1.º álbum a solo “Saber Aceitar”, que pressupõe um convite ao público para o aceitar como é, na sua essência.

Um álbum onde vai buscar inspirações às suas vivências ou de quem lhe é muito proximo. As suas músicas criam uma identificação e trazem consigo uma mensagem de confiança e de verdade. Para Bruno, a música é exactamente isso: verdade, paixão, um ensinamento.

 

Ler Capítulo 2

33

O outro lado

Afastámo-nos da azáfama de palcos, de discos, de digressões... Nos raros tempos livres, a filha encabeça o topo incontestável das suas prioridades e ocupa a mais sincera forma de felicidade.

Adora cinema, adora dançar e sair com os amigos, fazer desporto, ouvir música e viajar; na verdade, o aeroporto é para si um lugar especial imbuído de uma atmosfera de mistério e curiosidade, de multiplicidade e introspecção.

E é aqui que terminamos: envolvidos pelo cinza do céu e do Tejo e de um Virgul observado por uma lente diferente, mas autêntica.

Ler Capítulo 3

© 2017 L Manifesto

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