Tiago Nacarato

Tiago Nacarato

“E por falar em saudade, onde anda você, onde andam seus olhos que a gente não vê (...)”

Retirado de uma das mais bonitas músicas do poeta e dramaturgo Vinicius de Moraes, este excerto traz-nos à memória uma experiência recente.

Falamos de um carioca de raiz e de alma, um compositor e boémio inveterado, interpretado por um jovem português, portuense, olho azul, de ascendência brasileira e alma carioca.

Foi em Setembro, mas ainda hoje nos arrepiamos ao rever a reacção dos jurados nas imprevisíveis “Provas Cegas” da versão portuguesa do programa The Voice. As três cadeiras rodaram, sem hesitações, quando as primeiras notas de um timbre doce, delicado e com uma sonoridade que nos transporta para a Lapa, um dos mais típicos bairros cariocas onde a MPB reverbera em cada beco e em cada casa de show, ecoaram pelo palco num júbilo protagonizado por um só artista e os acordes da sua estimada guitarra.

Foi ali que, Tiago Nacarato, cantautor portuense com sangue brasileiro e sotaque carioca, conquistou o público e nos trouxe uma música que, como diz Salvador Sobral: “... is not fireworks; music is feeling”.

O L Manifesto foi até ao Porto saber mais sobre a vida deste promissor músico cuja voz parte corações Atlântico fora.

 

Produção e Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Dulce Daniel

Maquilhagem: Maria Luis

Ler Intro

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O início

Uma história de amor da qual resultaram 3 filhos, os pais, ambos brasileiros, cruzaram-se somente em Portugal.

Teve no seu pai, músico, uma forte influência artística porém, apesar do velho ditado proferir que “filho de peixe sabe nadar”, não partilham os mesmos estilos musicais embora partilhem uma predilecção pela música brasileira. Tiago chega a dizer que percorrem caminhos antagónicos, exploram referências e olhares diferentes, mas não nega que deve ao seu pai esta predisposição e sensibilidade que o definem.

Desde sempre que a música fez parte da sua vida, quer quando ouvia o seu pai cantar, quer pela presença constante de instrumentos ou ainda quando partilhavam o palco em alguns dos seus espectáculos. Recorda, com alguma nostalgia no olhar, mas com firmeza na voz e convicção na mensagem, que o pai protagonizou um dos dois momentos que mais o influenciaram e encaminharam para este destino que desconhecia.

Conta que num aniversário, quando a tradição de trincar a vela e pedir o desejo chegou, o seu pai não o fez em silêncio como seria de esperar, fê-lo em voz alta para toda a gente pudesse ouvir e recordar, disse: “quero que este miúdo seja melhor do que eu!”. Palavras que ainda hoje ecoam na sua memória e que considera ser um dos dois turning points da sua vida.

Mas nem sempre a música esteve nos planos de Tiago, aliás, pelo contrário. Como uma grande parte dos miúdos, também sentiu o chamamento do desporto, nomeadamente do futebol... Queria ser jogador e chegou mesmo a fazer parte de uma equipa em Vila Nova de Gaia.

A vida prosseguiu tranquilamente até à chegada de outro momento que viria a ser responsável por definir o seu percurso. Teria uns 15 ou 16 anos quando o seu irmão (o do meio) lhe ofereceu uma guitarra. Olhou para ela e num momento de clarividência sem igual, sentiu um chamamento, criou ali as primeiras amarras de uma relação que ainda dura e que quer alimentar para a vida. O segundo turning point acaba de ser revelado.

Foi um presente que recebeu e encarou com tamanha responsabilidade e compromisso que se empenhou ao máximo e deu tudo por tudo. Durante um ano focou-se na música: em aprender, em compor, em crescer.

Num momento de autodidactismo, como o próprio afirma, encontrou na música uma ferramenta que lhe permitia expressar emoções e sentimentos que, por vezes, não se encaixavam em meras palavras “faladas”, mas apenas através de sons e melodias. Não tinham formato, nem veículo certo para se revelarem e emergirem de um oceano de pensamentos e vivências.

Conheceu músicos e compositores, criou laços de amizade que ainda mantém, que o ajudaram a crescer e que o influenciaram inequivocamente. Destaca Diogo Brito e Faro e Peixe, o guitarrista da Banda Ornatos Violeta, com quem teve aulas de guitarra e que, graças à sua visão pouco convencional, lhe mostrou uma outra perspectiva da música que se revelou apaixonante e avassaladora. O seu primeiro projecto musical surgiu aqui e, em conjunto, percorreram os mais importantes palcos da cidade- Casa da Música, Serralves em Festa, entre outros.

A música brasileira permaneceu fora do seu campo de visão por uns tempos. Dedicou-se ao estudo da canção e da guitarra, e direccionou-se para um género mais Rock, mais fusão, mais variedade, até que, inesperadamente e, por intermédio de uma namorada, que tinha uma imensa paixão por samba e rodas de samba, lhe apresentou esse universo dentro do cenário portuense. Coincidência ou destino, a primeira roda de samba a que assistiu foi dos Bamba Social, grupo que integra há cerca de 3 anos.

Uma coisa levou à outra: Tiago conhecia um dos membros do grupo que estudara na Valentim de Carvalho a quem decidiu mostrar um Sambinha que tinha composto para a sua namorada da altura. E assim, começou a relação que ainda hoje perdura e que nos leva a ter o prazer de ouvir boa música brasileira em Portugal.

Nascidos há sensivelmente 7 anos, os Bamba Social surgiram numa tentativa de criar um bom grupo de samba e música brasileira em Portugal. Alguns do seus membros são efectivamente brasileiros, outros, são apaixonados pela malemolência do samba. Actuaram pela primeira vez na Baixaria, um espaço no Porto, e a resposta do público foi incrível. Desde então, a cultura brasileira musical e de qualidade passou ser parte integrante do cenário da Invicta.

Ler Capítulo 1

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A Música

A voz de Tiago exalta em si a melancolia do povo português com o romantismo e leveza das suas raízes brasileiras.

Diz não ter razões para estar ou ser triste, mas a sua alma carrega em si rasgos de nostalgia e tristeza e é desses sentimentos que saem os acordes mais negros, mas também, mais bonitos. Vai buscar inspiração a momentos vividos, ou não, por si, mas que de alguma forma despoletaram sentimentos ou emoções fortes e dignas de expressão. Por mais razões que tenha para estar e ser feliz gosta de se prender a esses momentos, numa atitude que lhe é vital e pressupõe momentos de introspecção e uma boa dose de solidão.

Quase paradoxalmente, a música brasileira trabalha letras tristes envolvidas em ritmos alegres, num romantismo indissociável que se vê e sente e que Tiago não tem medo de assumir e partilhar.

Da sua forte ligação com o Brasil surge, sem dúvida, a vontade de ir e por lá ficar, bem no epicentro de uma terra que ama a música e que a venera. Para já, a opção é ficar por cá e, se possível, ir todos os anos ao Rio buscar inspiração.

A sua mais recente experiência, que já aqui falámos, foi no The Voice Portugal.

Na verdade, foi contactado pela produção do programa para participar no programa. A experiência foi avassaladora, ver os 3 jurados virarem as cadeiras numa questão de segundos; Anselmo Ralph juntou-se aos restantes uns segundos mais tarde.

Foi para lá com expectativas baixíssimas, não quis optar por referências pop e mais comerciais, manteve-se fiel a si próprio e escolheu um clássico, uma música que considera maravilhosa e que reflecte a sua alma na totalidade - Onde anda você, do “Poetinha”.

Diz que ainda vive o sonho e que a sua participação no The Voice ainda ecoa nos dias de hoje. Foi incrível, mas pressupôs uma capacidade de adaptação e gestão muito grandes “Eu já me conheço há muitos anos e passar do anonimato a ser reconhecido, isto é do 8 ao 80, da noite para o dia, não e fácil.”

Ler Capítulo 2

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O futuro

A música é a sua vida e sente-se feliz assim, tem planos e tem sonhos. Não faria sentido dizer o contrário e muito menos sentido faria se dissesse que não pensa lançar um disco. Claro que sim, não é uma música ou actuação num programa que o definirão enquanto artista. O grande plano é lançar um disco com canções compostas e escritas por si, fazer boas parcerias tanto em Portugal como no Brasil para que tudo flua e perdure. O disco? Talvez no próximo ano.

Ao falar em música e no cenário fervilhante do Porto, questionámos Tiago se sente a responsabilidade de ajudar a divulgar e a dar força a uma geração interessantíssima e talentosíssima de jovens cantores e compositores. A resposta foi peremptória: Tiago diz que essa é uma responsabilidade de todos e de cada um, individualmente. Quem tem a sorte de se destacar e ter uma voz, como no seu caso o facto de ter chegado à televisão cuja mensagem se dissipa por um público vastíssimo, deve ter a missão de divulgar o trabalho e os nomes dos cantores e compositores de referência no panorama nacional.

Quase em tom de apelo, afirma que a produção individual tem tido cada vez mais força e que basta que o público pesquise um pouco mais sobre o que se faz de bom para encontrar um leque diversificado de alternativas e trabalhos. Explica que temos de deixar de ver a arte como mera fonte de entretenimento para que possa passar a ser algo que pressupõe reflexão, introspecção e ainda mais valor.

Cita nomes de músicos que são referências para o seu trabalho e que possuem projectos incríveis, mas pouco mediáticos - Márcio Silva, um dos grandes compositores no nosso cancioneiro, Mané Fernandes, um compositor incrível no Jazz, Ricardo Coelho, João Grilo e, claro, Miguel Araújo.

Nomes que Tiago menciona com orgulho e que mostram a diversidade e a qualidade do que por cá se faz.

Uma das poucas formas de arte que tem o dom de destruir barreiras, de unir pessoas, ideais e de transformar o mundo.

Ler Capítulo 3

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