Simão Bolívar

Simão Bolívar

Simão Bolívar, a definição de um espírito livre.

Entrar no seu apartamento é, na verdade, o equivalente a visitar uma galeria de arte, daquelas cuja imponência surge dos detalhes e das obras e não do espaço em si. Uma inquietude que surge numa atmosfera de aparente paz e tranquilidade, e que nos conduz para uma espécie de trampolim emocional, para um reboliço de experiências e a uma incontrolável necessidade de absorver tudo; de encontrar uma palavra que defina o que sentimos quando impactados por algo que nos corta, inesperadamente, a respiração e nos arrepia; que vem de cá de dentro, algo que, muitas vezes, não conseguimos traduzir em palavras, e que, apenas a contagem do batimento cardíaco, revela a que ponto nos arrebatam ou não… Pois bem, imaginamos que seja este o addictive triggering event que leva Simão a “cair de amores” por esta obra, em detrimento de outra. Não se considera um player, de todo, mas um apaixonado pela arte.

O seu apartamento, datado da década de 50, representa isso: uma paixão pelo detalhe, pelo belo - e quanto a isso podíamos encetar uma infinita discussão sobre o seu significado, mas não o vamos fazer, por tudo aquilo que desperta em si a mais pura sensação de prazer.

Quem é Simão Bolívar e o que faz? Segundo o título do Linkedin, Simão descreve a sua área de operação como: independent human resources, public relations e communications professional. A tradução? Um criativo que não terminou o curso de Arquitectura mas que, a cada dia que passa, encontra uma nova prova de que este o marcou e, ainda, marca. É perito em fomentar sinergias e relações entre tudo e todos, antecipando resultados que visam a excelência, aplicada às mais diversas áreas.

 

Fotografia: Dulce Daniel

Texto: Margarida Marinho

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Espelho, espelho meu

Que a casa é um reflexo de quem somos, já aqui citámos diversas vezes. Nem sempre acontece, é verdade; há excepções e ainda bem. Mas, neste caso, por força de alguns conteúdos made in redes sociais e outros artigos que tivemos o prazer de ler, levávamos já uma imagem criada. Porém, o factor surpresa existe e, desta vez, não foi excepção.

Tudo começa antes mesmo de entrarmos no apartamento. Ao sair do elevador, tivemos imediatamente uma sensação de “deja vu”. Não na verdadeira acepção da palavra, mas algo nos remetia para a memória de um local com o mesmo tipo de corredor: com aquela luz estrategicamente pensada para incidir de uma forma muito particular, a estética, a perspectiva “geométrica” que os nossos olhos encontraram quando observavam, de longe, a porta de entrada do apartamento do nosso convidado. #remembercasabatlo

À medida que nos fomos aproximando, a austeridade característica do cimento e do vidro foram sendo desconstruídas e coloridas pelo verde de alguns vasos kitsch cheios de plantas que “emolduravam” a entrada.

Simão recebeu-nos e, enquanto o seguíamos, fomos inundados por uma sensação de paz e tranquilidade, sobre a qual já tínhamos falado. A verdade é que apesar de fazer mil e uma coisas, de gostar e sentir necessidade de lidar com pessoas, surpreendentemente, Simão precisa de momentos solitários que possibilitem a sua reernergização. Sumariamente, ao longo da sua carreira, já assumiu o papel de director artístico do conhecido espaço da noite portuense- Pitch Club, coordenou ainda os backstages do Bloom, no Portugal Fashion durante anos, faz ocasionalmente styling, actualmente, é o Fundador e Project Manager da Cinbol, uma agência de Branding & Event engineering, uma profissão que exige networking, uma entrega constante e híper-sociabilização. Contudo, é aqui, na sua casa, no seu “ninho”, onde vive sozinho, que encontra o refúgio e o seu equilíbrio, rodeado das coisas que verdadeiramente lhe fazem bem.

Tenho uma adição humana enorme, adoro conhecer pessoas e conhecer-me através delas, mas, acima de tudo, tenho uma necessidade muito grande de me recolher para equilibrar de alguma forma a minha energia (…). Acho que muitas vezes, o que faz falta é precisamente o estar-se em paz, pacificado connosco mesmos (…). É a eterna questão que assenta sobre o autoconhecimento.

Não se considera solitário, pelo contrário, porém, gosta de aproveitar esses momentos para se encontrar. É ponderado, fala com uma eloquência e tranquilidade desarmantes. Ficaríamos ali a ouvi-lo durante horas. Sem dogmas, sem certezas e com uma capacidade introspectiva invulgar, tem o dom de verbalizar aquilo que muitos sentem, mas poucos encontram as palavras certas para o fazer.

Com características profundamente urbanas, o apartamento tem, no entanto, um exotismo muito peculiar e, acrescentaríamos, artístico, que reflecte mais uma paixão de Simão: plantas. Adora. Não pelo facto de ter um efeito terapêutico, como é usual ouvirmos, mas pela beleza em si, pela perfeição da estética da natureza aliada ao prazer de cuidar delas.

Tudo começou há uns anos, quando um amigo lhe ofereceu uma fotografia (que ainda se encontra em lugar de destaque) do atelier de Henri Matisse, de um exuberante, maravilhoso e, naturalmente caótico, corner repleto de vasos da espécie Monstera deliciosa, comummente chamadas de Costela-de-Adão. Pela beleza que encerra, esta fotografia, serviu de inspiração para o pequeno horto que Simão foi construindo ao longo dos anos e que permanece imaculado.

Esta é a sua casa há mais de uma década. Em tom de brincadeira, diz ter conhecido todos os antigos donos da casa, que não foram muitos, e as diversas versões decorativas do mesmo. Actualmente, no reinado da já citada corrente urbana com toque de exotismo detecta-se, ainda, um equilíbrio entre obras fortes e arrebatadoras e peças menos ornadas cuja paleta ilustra os misteriosos 50 tons de branco.

Em destaque, encontramos uma versão incrível e contemporânea, da lenda do castigo de Sísifo (segundo Tiziano), a 3D, da autoria do artista José Almeida Pereira. Não menos incríveis são as peças em cerâmica, as ilustrações ou a Mercury Ball do arquitecto mexicano e vencedor do Prémio Pritzker, Luis Barragán.

Peças trazidas de diversas galerias; na verdade, as paredes, cantos e prateleiras da casa reflectem também as recorrentes viagens que Simão vai fazendo.

Está no Porto e é aqui que gosta de estar, é certo, mas precisa frequentemente de se ausentar e iniciar uma imersão criativa. Berlim, Londres e Madrid são os seus destinos predilectos. Cada cidade com características muito distintas no cenário artístico, mas que complementam a sua ecléctica interpretação da arte.

Se Londres prima por uma oferta diversificada, com exposições e representações de grandes figuras internacionais, Berlim, apresenta-se como uma oferta igualmente muito interessante mas sob um ponto de vista mais “outsider”.

Gosta de viajar em busca de autenticidade, daí muitas vezes viajar fora das épocas mais turísticas e regularmente para os mesmos destinos. Acima de tudo diz que não precisa de conhecer o mundo, precisa, sim, de conhecer os locais dos quais gosta, sentir conforto e identificação. A ajudar, tem ainda o facto das suas cidades favoritas terem uma capacidade de regeneração, de transformação e oferta enormes, que permite sempre conhecer coisas diferentes a cada nova paragem.

É um apaixonado pela cidade. Se está dois ou três dias numa escapada “versão campestre”, sente rapidamente a vontade de voltar. Para si, qualidade de vida é ter tudo à sua disposição quer vá, ou não, usufruir. Confessa que o Porto lhe traz essa liberdade conservando, porém, um ritmo menos frenético e uma qualidade de vida da qual talvez não conseguisse usufruir em grandes cidades europeias.

Conversas esotéricas à parte, este apartamento, para além de um reflexo da personalidade, das paixões e das viagens de Simão, é categórico afirmar-se que é um local propício a momentos de reflexão e de pausa envolvidos de boas energias e inúmeros estímulos de criação.

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Momentos Introspectivos

Tem a certeza de que não voltaria a atrás um dia que fosse. Quando lhe perguntam se aceitaria voltar ao passado, para emendar algo que fez, diz, plenamente convicto, que não. Entende este percurso como uma aprendizagem e que, mesmo com erros cometidos e alguns detectados, gosta muito mais de si agora do que quando iniciou esta jornada.

Não há rugas na cara ou qualquer tentativa de recuperar uma infância perdida que justifiquem essa viagem. Acredito que o processo de crescimento é sempre ascendente, na perspectiva de atingir um bem maior. Defendo numa postura pacificada, não uma perspectiva desenfreada que nos leva a pensar que, agora que o tempo parece estar a correr mais depressa, estou preocupado porque a idade está a pesar e/ou a própria decadência física me estão a trazer dissabores.

Tudo faz parte de um processo de autoconhecimento que não é fácil, mas é necessário: Temos de dar o corpo às balas.

Ainda existem alguns ditos constrangimentos da idade- uma declaração invisível e auto-proclamada de supostos comportamentos e achievements que, por usucapião, regem a conduta de uma sociedade em geral e no singular. Porém, assistimos, também, a diversas correntes antagónicas que primam por viver as suas vidas mediante a sua própria vontade, sem interferir com a liberdade de outros. Correntes que questionam convenções e que, apesar da sua condição tribalista e avessa a marginalizações, dão um exemplo de integridade pela diferença.

Tenho 38 anos e sinto-me mais jovem do que nunca pela maneira como encaro a vida; não acho que já fiz e vivi tudo, não fecho portas. Aquele sentimento que, inevitavelmente, a idade traz de- been there, done that retira-nos, muitas vezes, a disponibilidade para nos voltarmos a surpreender, a apaixonar. Temos experiência acumulada, sim, e essa evita que possamos ir ao tapete mais vezes, e se formos, ajuda-nos a levantarmo-nos com mais facilidade, mas não podemos deixar que nos leve a sentirmo-nos empedernidos, que nos vede a liberdade e a capacidade de nos surpreendermos e de vivermos, porque ainda há muita vida.

Uma postura que resulta de uma perspectiva de vida e de “seek for pleasure”, totalmente adaptada à sua medida e de acordo com uma forma única de a interpretar, em que o que faz sentido é o que apaixona e emociona.

Procura isso precisamente: algo que lhe traga uma emoção associada, uma experiência, uma memória. Falámos de uma viagem, um quadro, uma ilustração algo para o qual olhe e sinta uma ligação inexplicável. Talvez aí, e segreda, seja o único momento em que sente uma ponta de egoísmo - característica que repudia e que não joga de todo com o seu perfil- quando vê uma peça, se apaixona e deseja sair dali com ela já debaixo do braço.

Simão fala de um recurso e uma paixão que sente serem vitais para a sua existência e que reflectem apenas um crescimento, um amadurecimento e a evolução de um ser humano que ainda tem muito para descobrir e para dar. Numa tarde, Simão não só nos abriu as portas de sua casa como falou sobre questões tão simples, mas tão complexas presenteando-nos com uma visão sui generis e enriquecedora que cabe a cada um interpretar e ponderar.

Obrigada Simão.

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© 2017 L Manifesto

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