Mariana, a Miserável

Mariana, a Miserável

Não podemos esconder: estávamos há um bom par de meses desejosas de bater à porta da convidada desta semana. Foram diversos os encontros, as conversas singulares e inspiradoras, as revelações e histórias que, como se de uma acção divina se tratasse, Mariana assistiu em primeira mão. Coincidências engraçadas que, inconscientemente, nos encaminharam para este dia. Vamos chamar-lhe uma omnipresença criativa impossível de passar despercebida; esta fazia parte da vida e das memórias de quem entrevistávamos.
Uma influência doce mas nostálgica, forte mas inquieta. Mariana deixava um pouco de si em cada ilustração, em cada retrato e ali permanecia, naquela casa, naquele canto, eternizando momentos.
Um encontro daqueles difíceis de relatar e compreender; dos que, como poucos, libertam faísca e nos fazem acreditar que, numa vida passada, já nos devíamos ter cruzado. Isto claro, sob a nossa perspectiva… o que dirá Mariana Santos, a doce e delicada Mariana, a miserável.

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Dulce Daniel

Maquilhagem e Cabelo: Marlene Vinha

Agradecimento especial à Ó! Galeria 
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A casa-atelier de Mariana

Cada vez mais acreditamos que as coincidências são sinónimos de uma arte de conjugar e sobrepor, que de acaso pouco têm. Estávamos na rua da Picaria, no Porto. Segundo algumas infos carinhosamente cedidas pela nossa convidada, este é um endereço especial, foi morada de Francisco Sá Carneiro e uma das artérias ligada, desde sempre, a áreas criativas que valorizavam o poder e dom de quem sabe trabalhar com as mãos: inicialmente, a carpintaria e marcenaria, posteriormente, a ilustração com a abertura da já extinta Galeria Dama Aflita. Hoje em dia, para além de um dos hotspots gastronómicos da cidade, é o refúgio de alguém também muito especial, alguém a quem pela admiração que nutrimos, incumbimos a responsabilidade de perpetuar a herança inspiracional e as vibrações de criação deste local.

Era um dia típico de Verão, 9h30 e o calor já fazia estalar a madeira de muitas das janelas características das casas antigas que ladeiam esta rua.

Para Mariana, estes não são os seus dias favoritos, sente que o Porto perde algum do seu encanto. Gosta do cinza, dos típicos dias em que uma sublime névoa que nasce no Douro, se arrasta pela cidade escarpada e, destemidamente, se estende, cobrindo-a com um manto nostálgico e uma luz taciturna que confere uma grandiosidade extra à sua cidade.

Falámos na ”sua cidade”, mas curiosamente, Mariana nasceu em Leiria. Desde cedo desenvolveu uma relação especial com o Porto, muito por conta do seu pai. Passeios frequentes, em trabalho, dos quais não abdicava da sua companheira de viagem. Passavam por todas as “capelinhas”, como quem diz, pelos locais mais tradicionais da cidade. Memórias de amor que ficaram gravadas e que alimentaram a sua coragem quando para lá se mudou definitivamente, também por exigências do coração. Leiriense de gema, estudou nas Caldas da Rainha, estagiou em design gráfico em Barcelona, viveu durante algum tempo na capital, mas é do Porto que fala com orgulho e paixão.

Quando volta de um fim-de-semana com a sua família e passa a ponte, respira e sente que finalmente está em casa.

Voltemos à Rua da Picaria onde o seu T1 nos fez suster a respiração e soltar um prolongado “Owww…!”

Pequenino, condensado, melhor dizendo, au point. Por ingenuidade, talvez, não imaginávamos o apartamento de Mariana com tamanha concentração de luz, alvura, e detalhes girl friendly. Involuntariamente, transpusemos algumas das histórias das suas ilustrações, da sua paleta e do assumido desvio de tudo o que representa o “bonitinho e perfeitinho”.

Até aos seus 14 anos, viveu com o pai e acredita que esse lado girly se encontrava pouco explorado até se ter lançado “a solo” e ver-se com uma casa para decorar. Aí sim, decidiu assumir a sua feminilidade e ser quem queria ser.

De olho azul profundo enfeitiçante, rapidamente nos fez um tour pelo apartamento e nos apresentou ao “homem da casa”: Virgílio. O gatarrão dourado, amoroso, cuja simpatia e aparente serenidade oculta um alter-ego que assume o cognome de: Virgílio, o fofíssimo flower ripper!

É aqui que Mariana encontra a sua paz, é aqui que cria e para onde anseia voltar sempre que se ausenta.

Ler Capítulo 1

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A Mariana

Fofuras à parte, voltemo-nos para o olhar de Mariana: o que representa? O que diz?

Durante uma longa e maravilhosa conversa, uma frase ficou no ar, Mariana dizia que das falhas surge a luz; tal como Meryl Streep, que na cerimónia dos Globos de Ouro, citou Carrie Fisher ao dizer: “Take your broken heart, make it into art”, também a menina do coque e olho azul se inspira nos seus desamores e infortúnios.

Passámos um dia inteiro juntas e, ao chegarmos a casa, tínhamos no e-mail um vídeo que resumia muito do que tínhamos retirado deste dia na companhia de Mariana: Misery is wasted on the miserable, de Louis CK. Tal como no vídeo, também a mensagem de Mariana se assemelha a um poema que nasce e se alimenta, retirando das situações e das amarguras da vida os ensinamentos mais profundos, mais fortes e mais bonitos. É dessa aparente, sentida e necessária miséria, que num processo de catarse expia a sua dor, ficando esta eternizada num momento, numa imagem, numa ilustração linda que nos ensina uma lição. Também da miséria brotam lindas flores. As flores são o que retiramos de bom dessas experiências.
Retratos e imagens carregados de mensagem, de amor, de dor, todos eles abraçados por um traço infantil e ternurento.

Uma vulnerabilidade que Mariana insiste em afirmar que tem, aliás, que todos temos.

Quero passar a mensagem de que é bom, de que é ok chorar. Não temos de esconder o que sentimos, não temos de mostrar que somos fortes quando não o somos. O choro é uma forma do nosso corpo mostrar que alguma coisa não está bem! Este é o meu manifesto, quero mostrar que podemos chorar, que faz parte da vida.

Uma reflexão que nos leva ao próximo projecto de Mariana. Sabemos que a sua casa é o seu atelier, o local que esconde e preserva o equilíbrio de que precisa para trabalhar e, como tal, nas paredes e recantos de sua casa não faltam ilustrações apaixonantes. Uma arte solitária e introspectiva com a qual se identifica.

Focámo-nos, essencialmente, nos desenhos afixados em frente à sua cama: várias ilustrações da série Meninos das Lágrimas, uma mensagem forte, presente desde o início do seu trabalho, que passará a livro muito em breve.

São trabalhos que se baseiam em histórias vividas por si ou histórias que lhe tocam, mas que pertencem a outros, mensagens que a ajudam a resolver e ultrapassar angústias e situações. O ano foi assumidamente difícil e este projecto permite-lhe condensar todas as energias e aprendizagens num só trabalho. Este assume uma vertente ainda mais pessoal, que lhe permitirá alcançar o desejo de ter um livro, algo que tanto adora, e aliar isso à vontade de lançar um livro de desenhos e mensagens para adultos, porque também eles merecem.

Diz que a tragédia tem sempre algo de humorístico, que sem ela a vida seria uma seca e é graças à mesma que damos mais valor às coisas boas.

Lembra, com um carinho especial, a exposição que fez “Lonely Hearts”, cuja preparação exigiu uma entrega e pesquisa muito especial. Mariana precisava de entender o que pensa um coração sozinho. Resguardada sobre um invisível trench coat de investigadora, participou numa sessão de Speed Dating, sem nunca esconder o motivo da sua presença. Uma experiência reveladora que a despertou para a coragem que cada pessoa que ali estava tinha de ter. Sentiu que nada tinham a perder e que possuíam apenas uma predisposição para contrariar a loucura das rotinas diárias, assumir as suas vulnerabilidades e encontrar um momento para si e para conhecer alguém.

 O cognome, veio por acaso, dos tempos em que tinha um fanzine, chamado Miserável, com uma amiga da faculdade. Mais tarde, na época de ouro dos blogues e já com uns quantos trabalhos que iniciariam o registo que ainda hoje possui, Mariana sentiu que “a miserável” faria todo o sentido.

Nascia, assim, uma artista.

Ler Capítulo 2

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O Porto de Mariana

Falávamos há pouco sobre o Porto, sobre a ligação que existe entre Mariana e esta cidade. Uma história que pressupôs um breve mas delicioso passeio.

Subimos a Rua da Picaria, passámos a Travessa de Cedofeita e parámos na Rua Miguel Bombarda, mais precisamente na Ó! Galeria. Aquela que considera ser “a sua casa”, começava, em 2010, a dar os seus primeiros passos sob o olhar de Ema Ribeiro. Ambas em posição de partida, Mariana e Ema acabaram por iniciar, nessa altura, uma amizade.

Lá expõe os seus trabalhos juntamente com uma carteira, cada vez mais incrível, de artistas. Uma quick stop que não poderíamos deixar de fazer. Teríamos lá ficado horas a fio a apreciar detalhadamente cada obra.

A hora de almoço já tinha passado e a fome apertava, podíamos ter escolhido inúmeros locais da oferta maravilhosa da cidade, mas como o dia estava lindo e o Douro ganha ainda mais encanto, fomos até ao Guindalense Futebol Clube para almoçar e ver a paisagem deste local. #decortararespiração.

Sabemos que estes não são os dias favoritos de Mariana. A luz melancólica da cidade num dia cinzento transporta-a para um filme do cinema europeu que tanto adora, porém, é impensável não nos arrepiarmos com esta paisagem luminosa!

Mas, tal como estes dias, mais do que tristeza, o olhar de Mariana transmite luz, esperança e uma ponta de ironia, como cada ilustração que nasce do seu traço.

Ler Capítulo 3

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