Maria Guedes

Maria Guedes

Tudo começou em 2009.

A franja meticulosamente cortada, pele frequentemente bronzeada, adornada por umas subtis e delicadas sardas potenciadas por um estilo über cool, que não precisava de grandes produções para fazer parar o trânsito. Quem não se lembra das fotos de street style captadas por José Cabral para o seu blog “Alfaiate Lisboeta” das diversas vezes em que se cruzou com Maria Guedes na rua? Ou, ainda, das skinny animal print e botas estilo militar que levou para o “Alive” e da sua crush por calças cigarette de cintura subida ao estilo Chloé de Clare Waight Keller? Pois bem, nós lembramo-nos!

A nossa convidada transbordava fashion sense & knowledge que urgia ser partilhado e o blog foi, sem dúvida, uma das suas melhores e mais acertadas decisões, a sua casa de partida. Numa altura em que começavam a surgir os primeiros domínios digitais de moda em Portugal, aqueles pelos quais sentíamos uma adição quase semelhante ao desmedido “vício das telenovelas”, que não permitia deixar passar um único dia sem visitarmos a lista TOP 5 dos blogues portugueses, Maria Guedes fazia, incontornavelmente, parte desse grupo híper inspiracional que pululava a nossa lista de favoritos.

Hoje, quase 10 anos depois, continua a alimentar uma incrível legião de followers em Portugal. Passou de blogger a influencer e empresária, com um negócio e estratégia assentes numa inequívoca coerência de linguagem e ADN demarcado, mas que, ainda assim, não a fazem perder a capacidade de se reinventar.

Maria Guedes protagoniza o Manifesto desta semana and, as you know, she’s awesome!

 

Fotografia: Soraia do Carmo

Texto e styling: Margarida Marinho

Maquilhagem: Carla Pinho com produtos Guerlain (Beauty Partner)

Cabelos: Helena Gonçalves

Agradecimento especial ao Armazém J9a pelas instalações, tão gentilmente, cedidas.

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From NYC with love

Desenhava e desenhava. Se pensarmos até que idade, normalmente, as crianças brincam com bonecas, somos rapidamente transportados para a primeira década de vida de Maria Guedes, correcto?

A partir do momento em que a destreza a muniu das skills necessárias para a tarefa, Maria passava uma parte significativa dos seus dias a desenhar. Roupas das bonecas, as bonecas em si, silhuetas. Adorava. Talvez por influência da mãe e da sua paixão por moda, ou até, pelas páginas das revistas que folheava e que faziam parte do estacionário de sua casa, desde cedo, que a moda a fazia delirar.

Os meus pais diziam muitas vezes para ir brincar e sair com os meus amigos e eu não queria, desenhar era um vício. Achava que ia ser estilista.

Os 13 anos chegaram e, como seria de esperar, o foco alterou-se ligeiramente. Os desenhos ficaram de lado e deram lugar à uma incessante vontade de sair, de se divertir e de estar com os amigos. Assim continuou por algum tempo, porém, a trajectória escolar manteve-se sempre ligada às Artes.

Evitou a área de design de moda já que o cenário em Portugal não era semelhante ao que assistimos hoje em dia, em que existe um claro apoio e crescente valorização dos talentos emergentes. A escolha recaiu sobre Marketing e Publicidade. Também esta, uma área de criação, em ascensão que parecia antever um futuro que é hoje, o seu presente.

Adoro business, marketing e branding.

Na Ogilvy, Maria trabalhava precisamente nesta última área.

Achava super interessante fazer a pesquisa, ver o que há no mercado e o que não há; entender como um produto se pode destacar dos demais só através de uma linguagem visual. A comunicação visual sempre me fascinou.

E ai está! Alguns anos na área, chegaram para entender que a moda lhe tinha “ficado atravessada” e que precisava de tirar teimas, como quem diz, experimentar.

Aos 28, Maria Guedes parte para NYC para frequentar um associate degree em Fashion Studies, na famosérrima Parsons New School for Design. Um ano intenso, condensado e exigente em que “levou um banho de moda” que a permitiu dotar-se das ferramentas fundamentais para criar: indústria, design, retail, marketing e, ao mesmo tempo, modelagem e costura foram algumas das áreas pelas quais passou.

Levei um treino como acho que nunca tinha levado e que estava a precisar. Estagiei com designers (como Zac Posen) e vivi aquele ritmo frenético da semana da moda. Foi solitário, frustrante, foi tudo de mau para depois ser tudo de bom. Adorei e fiz muitos amigos.

Um ano e meio mais tarde, já com quase 30 anos, impunha-se uma tomada de decisão. Se por um lado Maria adorava NY e queria ficar por lá, por outro, sentia falta da família e a necessidade de pôr em prática o conhecimento que tinha adquirido e as inúmeras ideias que nunca lhe faltaram. Voltou.

O cenário não era o mais animador. Portugal estava mergulhado numa onde de crise e desemprego sem igual, no entanto, sem querer recorrer a um cliché, mas já o fazendo, é nas alturas de crise que encontrámos a capacidade de nos reinventarmos e de sermos criativos. #truestory

E assim foi. Este cenário desolador, acabou por ser encarado como a oportunidade de se dedicar a um projecto seu. Começou por desenhar vestidos de festa para as suas amigas, o que a levou a reunir um leque de clientes interessante, para se seguirem os vestidos de noiva, aos quais se dedicou ainda durante 7 anos. Um caminho que culminou na criação do seu próprio vestido de noiva que se definiu como a pièce de résistance da sua bridal career.

Bem, mas voltemos a 2009. Sim, tanta coisa e, cronologicamente falando, ainda só se passou um ano.

Sabemos que a Bridal Season estará algures entre Maio e Outubro, pelo que os meses mais frios são sempre mais livres. Maria aproveitou essa “época baixa” para se dedicar a escrever o seu livro  “Tanta Roupa e Nada para Vestir” que sairia no final desse mesmo ano. Um guia com algumas dicas úteis e intemporais para todas as mulheres. Na verdade, inicialmente Maria queria criar um guia para as suas clientes, uma ferramenta na qual se pudessem apoiar e que iria facilitar o processo matinal de escolha e day matching perfeitos. Quase 100 páginas depois, o que era um simples guia, acabou num livro impresso.

O blog Stylista surgiu nesse mesmo ano:

Surgiu de mim para mim. Era um complemento do livro, com dicas mais de tendências da estação e compras!

Não foi nada pensado, como diz Maria Guedes:

Foi pura inocência. Quase não havia blogs em Portugal ou pelo menos que eu tivesse essa consciência. Lembro de uma amiga que estudou comigo em NY e que era de Barcelona, dizer que havia algumas miúdas a partilhar fotos de looks do dia-a-dia e recordo-me de ter pensado o porquê de fazer isso, para mim não fazia sentido! Fui ver, comecei a seguir e reparei que até tínhamos escolhas em comum. Entendi a lógica, achei giro e pensei em começar a partilhar alguns conteúdos, mas à minha maneira! 

Depois do blog, o percurso foi-se dando de uma forma muito natural e ao longo desse caminho foram surgindo novidades e feedbacks do público. A mestria residiu e reside ainda na capacidade de interpretar essas necessidades, abraçá-las veementemente e dar-lhe o seu twist. Surgiram assim, as relações com as marcas, alguns projectos em que foi embaixadora e mais recentemente os Market Stylista.

Ler Capítulo 1

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Digital Influencer

Nova Iorque serviu como triggering event.

 

Vim com mais mundo! 

A verdade é que começou a viajar muito cedo, pois teve a grande sorte do seu pai ser piloto e de lhe proporcionar viagens com bastante regularidade e, arriscamos dizer, que daí também advirá o seu notório sentido prático e visão out of the box.

Essa visão, contacto constantes com outras pessoas e outras culturas (em NYC deu-se o expoente máximo) foram com toda a certeza, uma alavanca para a sua forma individual e única de ver o mundo e de se expressar nele, aliada a uma estética e criatividade que têm por base a sua formação e percurso profissionais.

Conseguimos destacar algumas características ou pilares fundamentais da sua comunicação: exigente, clean, cool, gráfica e minimal com particular atenção para formas. Em tudo. Desde os coordenados que escolhe e habilmente conjuga, ao post que publica no seu blogue, ao enquadramento pensado para as fotos ou, ainda, às stories esteticamente irrepreensíveis e definately eye candy que vai partilhando diariamente.

Porém, é na autenticidade, que reside o maior segredo. Sem ela, o seu percurso ter-se-ia perdido algures nestes 10 anos de caminhada.

Sempre o fez sozinha, mas hoje em dia, conta já com a ajuda de uma equipa.

Não sabe para onde caminha, sabe apenas que para além da moda há outra área que lhe dá um prazer tremendo explorar, à qual recentemente atribuiu um local de destaque no seu site e categoria à qual dedica frequentemente o seu IG feed: lifestyle.

Sei que o blog já era, pertence ao passado, e se existe é mais como uma forma de portefólio do que outra coisa. Hoje em dia tudo se passa no instagram.

A sua relação com a moda mantém-se, existe ainda uma inspiração e devoção constantes, mas tem a certeza de que não se vê a tirar fotos de si mesma para sempre e, cada vez mais, sente uma natural inclinação para outras áreas.

Não sei o que o futuro me reserva, mas é importante conseguirmos ler os sinais que vão surgindo para nos adaptarmos.

Exemplo disso são os mercados que ganharam já distinção de evento do ano e foram apontados como um dos negócios mais criativos e bem-sucedidos de Lisboa.

A verdade é que enquanto influencer (que protagonizou em 2015 a capa da Vogue Portugal ao lado de Helena Bordon e Kristina Bazan) o seu negócio já ultrapassou o formato do blog e é, hoje em dia, uma marca de referência que chancela outras marcas e negócios e que disponibiliza autênticos serviços de consultoria de marca e branding.

Diz ser frontal, exigente e sem papas na língua. Não sabe ao certo para onde vai, mas sabemos com toda a certeza de que o que quer que seja que para aí vem, vai ser incrível e nos vai continuar a surpreender.

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