Joana Silva

Joana Silva

Pense uma brisa fresca de um final de tarde de Verão, daquelas que trazem um perfume leve, doce e indecifrável, cuja fórmula terapêutica milagrosa tem o poder de nos relaxar, revigorar e fazer voltar a apaixonar pela estação à qual associamos alguns dos melhores momentos da nossa vida.

Sempre que pensamos na nossa convidada sentimo-nos envolvidos por essa moldura e transportados para um cenário idílico, de traços rústicos, com um predomínio irrefutável da natureza.

Na verdade, falamos de uma extensão de Joana, que revela, também, essa leveza, aliada a uma energia, beleza e postura absolutamente cativantes.

Desde que afastou o portão de madeira maciça da sua quinta e nos recebeu, com um sorriso que enaltecia a sua tez dourada pelo sol, percebemos que tudo batia certo.

Esta semana, viajamos até à Ericeira para conhecer Joana Silva e o seu wood house project.

 

Fotografia: Soraia do Carmo

Texto: Margarida Marinho

Maquilhagem: Lea Louro

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Slowliving

A descrição inicial faz-nos pensar numa pessoa única e exclusivamente ligada ao elemento Terra, mas Joana é um reflexo genuíno de um perfil profundamente Geração Z e, como tal, multifacetado, preocupado, empático e muito focado. Faz parte de um grupo que veio abalar os alicerces e as nossas certezas; uma geração que, apesar de ter crescido rodeada de vícios e hábitos [para os quais ainda não tinha sido dado o alerta vermelho geral, um pouco por ausência de informação e consequente falta de conhecimento profundo sobre o significado de valores como sustentabilidade e responsabilidade] conseguiu arregaçar as mangas, atribuir a merecida importância e destaque a essas temáticas e adoptar uma corrente assente na responsabilidade individual. Pequenas acções do dia-a-dia que são concretizadas em prol de um bem comum.

Um discurso que ouvimos e voltamos a ouvir, mas que nunca é demais repetir porque haverá sempre alguém a quem esta mensagem ainda não chegou.

Joana vive de acordo com uma filosofia muito própria, nada fundamentalista, que foi sendo assimilada e trabalhada, adequando-se, naturalmente, à personalidade e vida do casal. É uma pessoa positiva, por natureza e com muita vontade de aprender.

É natural de Lisboa, cresceu em Sintra, mas aos 21 anos e, ainda a estudar, decidiu dar um passo que viria a transformar a sua vida: com o seu namorado mudou-se de “malas e bagagens” para uma “casinha” na Ericeira. A experiência correu tão bem que não voltou a viver na capital, pelo contrário, decidiram construir, de raiz, um projecto a dois (entretanto, já são 3).

Foi graças a esta mudança que Joana abriu os horizontes e iniciou um caminho de profunda mudança e transformação. A primeira etapa? A alimentação. Um exercício que iniciou à medida que ia acompanhando o seu namorado no projecto de criação de uma pequena horta.

Queria tirar o máximo partido do que tínhamos em casa, por isso, comecei a aprender a cozinhar e cada vez mais interessada no tema. A alimentação foi o turning point. Isso e o facto de vivermos numa casa de madeira abriram o meu horizonte para uma vida mais sustentável. Comecei a ter preocupações de como produzir menos lixo, fazer mais coisas em casa (DIY), comprar local.

Os anos foram passando e não houve um momento em que se tivesse arrependido de ter tomado a decisão de sair da sua zona de conforto. Na verdade, Joana consegue preservar o melhor dos dois mundos: concilia uma profissão excitante e desafiante enquanto Digital & Communications Manager for Luxury Brands na L’Oreal e, em paralelo, corta completamente a rotina e o stress com a tranquilidade e equilíbrio que encontra apenas a 30 minutos de Lisboa.

Um pequeno paraíso bem perto do mar, talvez a melhor forma de descrever o cenário que encontrámos à chegada.

Imagine percorrer um corredor em terra batida, envolvido por vegetação e árvores de fruto, que terminava numa clareira inesperada e numa visão genuinamente romântica, bem ao jeito das matinées de domingo que compulsivamente devoramos. No centro, a casa de madeira dourada e o alpendre despojado e delicioso assumiam o protagonismo. Encaminhámo-nos lentamente para a entrada, passando pelo sofá corrido, super comfy, estrategicamente colocado ao lado da porta de entrada para que se possa contemplar aquele cenário digno de filme. Mas não fica por aqui. Do lado direito da casa, mesmo no meio das figueiras, escondida entre as folhas largas e aveludadas, encontrava-se aquele que descobrimos ser o spot favorito de Joana para embalar o pequeno Francisco: a rede em linho branco.#omgisthisreal

Uma descrição de 360º da qual não poderá ser omitida a companhia constante dos 3 mosqueteiros da casa: Kaya, Woody e Mogli, os soldados sempre atentos e encarregues de defender a fortaleza.

Joana e Roberto ainda viveram alguns anos na primeira casa, mas a dada altura, isto é, há cerca de 3 anos decidiram que aquele seria o momento ideal para se focarem num projecto a 2. E assim foi, the dream came true e, acreditem, que a descrição não faz jus à realidade.

Há três anos achámos que estava na altura de construir a nossa casa e na realidade não somos de pensar muito nas coisas, por norma avançamos e depois logo se vê. Foi a melhor decisão que tomámos. Foi (e ainda é) um projecto muito desafiante. Construída por nós (créditos ao autodidacta que tenho em casa) e sempre under construction – nunca vamos estar satisfeitos, há sempre algo a melhorar ou alterar. Mas é assim a vida, na verdade. Agora precisamos de um quarto extra que já está a ser pensado.

Descrever a casa é um trabalho exímio de literatura, um discurso que precisa de uma cadência certa e recurso a adjectivos e palavras muito específicas para ilustrar a atmosfera e o equilíbrio que se sente e se vive.

Tons terra alternados com branco e pérola, são envolvidos pelo elemento unificador, vivo e cheio de energia: a madeira. Tudo pintado pela luz dourada que entra pelas janelas e pelo verde do quintal. #stilldreaming

Queríamos congelar aquele momento.

Entrámos no openspace. Sala de estar, de jantar e cozinha contíguas, num espaço amplo, sem portas e sem limites. Respira-se paz e tranquilidade. Aqui, o menos é mais.

Sou mais de rústico VS moderno. Sou mais de madeira maciça, vergas, bambu, linho, cerâmica, basicamente, materiais naturais. Tons terra são a minha base. Gosto de coisas que também me aproximam da natureza e me fazem sentir confortável. 

Especial será dizer que cada trave erguida, pregada, cada móvel que ali vemos (ou quase todos) foram pensados e criados a dois. Professor de surf ou artista, Roberto tem uma queda e sensibilidade incríveis que lhe permitiram erguer aquele que, à partida, seria um projecto ambicioso e arriscado, e transformá-lo numa realidade com toque de perfeição.

A minha casa tem muita coisa feita por nós. A maior parte dos móveis foi o Roberto que fez, alguns dos elementos que mais gosto vieram da praia (paus, corais) ou de viagens (a cabeça de vaca que trouxemos de Bali por exemplo). Também fiz o macramé que está por cima do meu sofá. Adoro esses detalhes, fazem uma casa tornar-se ainda mais especial.

Uma casa com alma, vivida e na qual Joana já sonha ver, em breve, o pequeno Francisco a correr, a sujar-se, a brincar, construindo aqui muitas das suas melhores e mais felizes recordações.

Está a ser melhor do que imaginava, sem dúvida. O Francisco veio trazer um amor inexplicável à nossa vida. Mal posso esperar por vê-lo a correr no jardim, a brincar com os nossos cães. Acredito que lhe vamos proporcionar uma infância cheia de memórias boas. Vou trabalhar para que seja uma criança genuinamente feliz, descomplicada e que goste de se sujar. Nestes quase 4 meses já sinto uma transformação enorme em mim. Mais centrada, com mais certezas e ainda mais descomplicada. Tão pequenino e já nos ensina tanto sobre as coisas realmente importantes nesta vida. 

Quanto a Joana, a sua área favorita é a cozinha. Adepta dos pequenos-almoços tardios, com calma, acompanhados daquela luz matinal sem igual. Adora cozinha e preparar, por exemplo, a sua granola homemade que espalha um cheirinho delicioso dos cereais torrados pela casa. #slowliving

Para Joana, a casa é o seu refúgio. É lá que encontra o equilíbrio e onde se reúnem muitas das ferramentas que lhe permitem manter uma relação visceral com a natureza e usufruir daquilo que considera o mais importante da vida.

Viver no campo, perto do mar, é impossível não criar essa relação. A natureza engole-nos quando faz parte do nosso dia-a-dia. Ir ver o pôr-do-sol, saber em que fase está a lua, conhecer as marés, comer comida real da nossa horta… tudo isto nos aproxima.

 

Love is in the details, right?

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Nature Girl vs City Girl

Não tem naturalmente de existir uma dicotomia. Thank god que hoje em dia podemos ser o que queremos. E o mais interessante? Conciliar correntes, vontades e experimentar.

Joana tem energia para dar e vender. Sempre pensou que seguiria Jornalismo, mas quando o momento de escolher chegou, o curso de Turismo pareceu-lhe uma óptima opção e, para ajudar a fundamentar a decisão, as saídas profissionais estavam quase garantidas. Estávamos em pleno boom do Turismo. O objectivo era o de focar-se na organização de eventos, festivais de Verão e concertos. Durante a licenciatura ainda fez alguns estágios, mas não amou a experiência. Naturalmente, não ficou por aqui.

Já falámos que Joana não diz que não a nenhum desafio e, a dada altura, sentiu que deveria lançar o seu próprio negócio online e, como nada vem por acaso, foi através desse projecto que encontrou a sua verdadeira vocação: Gestão com especialização em Marketing.

Foi no decorrer do curso que descobriu algumas das áreas com as quais sentia uma profunda ligação- moda e beleza. Afirma que a mãe pode ter tido alguma influência nessa ligação na medida em que tem um cabeleireiro e que, desde pequena, a área da beleza e cuidados pessoais sempre a acompanharam e sempre fizeram parte das suas vivências. A L’Oreal foi a próxima meta:

A L’Oréal estava, sem dúvida, na minha mira, mas pelo que ouvia era muito difícil entrar. Quando terminei gestão surgiu uma vaga através do Linkedin e candidatei-me. Quando te candidatas através do Linkedin consegues ver quantas pessoas já o fizeram e quando vi que eram mais de 600. Disse para mim mesma “no way!

Não foi o que aconteceu, Joana foi a feliz contemplada. Coincidência das coincidências? Ficou responsável pelo Marketing de uma das marcas que há mais tempo apregoa princípios de sustentabilidade e conscious beauty.

Dividiu-se entre Lisboa e Madrid durante cerca de dois anos até que lhe foi lançado um novo desafio, e ao invés de ficar responsável por 1 só marca, Joana passou a gerir 12. Talvez pelo desafio e pela rápida mutação e necessidade de adaptação ao mundo digital, Joana tenha precisado de encontrar um escape, algo que lhe permitisse balançar as exigências do dia-a-dia, com os valores e necessidades pessoais que lhe são vitais.

A casa, a filosofia de slowliving e a sua relação com a natureza foram recentemente complementados com uma nova forma de expressão que é já uma das suas mais recentes paixões: a cerâmica.

Momentos de criação, de relaxamento e de pura entrega, que lhe trazem a possibilidade de exteriorizar emoções através das suas mãos e esquecer todo o resto.

A cerâmica enquanto cliente já tinha o meu coração. Sempre me perdi com peças para a cozinha, principalmente peças portuguesas. Este verão tomei uma decisão que andava a adiar há séculos e inscrevi-me num atelier. Estou a adorar, é super desafiante, mas ao mesmo tempo considero o barro quase que uma terapia mindful. Num mundo tão digital como o meu é sempre bom parar e sujar as mãos.

Obrigada Joana!

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