Joana Ribeiro

Joana Ribeiro

De uma feminilidade e beleza desconcertantes. Olhar penetrante, lábios desenhados e pele imaculada sobressaem ainda mais quando uma boa dose de assertividade, energia, alegria e espírito crítico se manifestam.

A cada imagem que íamos captando, a luz dourada reflectia sobre os cabelos que se libertavam da trança messy que lhe envolvia o rosto, criando uma aura romântica, doce e idílica, potenciada por um cenário de tirar o fôlego.  

Joana Ribeiro, actriz, desce do palco, põe de lado os textos e personagens ficcionais, e fala-nos abertamente sobre si e as suas paixões.

Enquanto isso, deleitávamo-nos com a luz poética de um final de dia memorável.

 

Fotografia: Maria Rita

Texto e Styling: Margarida Marinho

Maquilhagem: Carla Pinho com produtos Guerlain (Beauty Partner)

Cabelos: Helena Gonçalves

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Era uma vez…

Se vai, vai com tudo. Uma expressão um tanto ou quanto trivial, mas que acreditámos definir a forma como Joana se apresenta perante a vida. É pragmática, sim. Não perde tempo e aposta apenas naquilo que, à partida, sabe que conseguirá, de alguma forma, alcançar ou terminar (dependendo do ponto de vista).

Isso levou-nos a iniciar este capítulo como se de um conto se tratasse. O percurso de Joana assemelha-se, em parte, a estas estórias que ouvimos desde tenra idade, que exaltam feitos e caminhos desbravados que, apesar da turbulência e incontáveis obstáculos, apresentam desfechos positivos e outros, até, triunfais. No caso de Joana Ribeiro não podemos falar de desfecho ou final, está ainda no início de um longo e maravilhoso caminho; no entanto, nestes 6 anos percorridos, já são algumas as personagens que ilustram os diversos capítulos da sua vida em palco. Falámos de 4 telenovelas, uma série, uma peça de teatro e três filmes, um dos quais, origem do prestigiante e merecido convite para participar na apresentação mundial do filme, na 71ª edição do Festival de Cinema de Cannes. #dreamscometrue

Da mãe herdou a sensibilidade, o gosto e a consequente valorização da arte nos seus estados mais puros e contagiantes. Momentos partilhados “a duas” que a despertaram e marcaram até hoje.

Ainda me lembro de ir com a minha mãe à l’ Opera Garnier, em Paris, ouvir uma peça de ópera que surtiu em mim um efeito avassalador. Lembro-me de ficar arrepiada e ter sentido uma enorme vontade de chorar.

E é assim que vive tudo. A mãe brinca e chama-lhe dramática, porém, apesar que ter um sentido prático apurado, Joana vive tudo intensamente. Sente-se pela forma como fala, pela entoação que dá aos temas que a apaixonam e aos que a incomodam, nas apreciações e análises pertinentes que faz e, acima de tudo, na garra com que enfrenta cada desafio.

Adora música, clássica de preferência, mesmo afirmando não possuir um conhecimento profundo sobre a disciplina, corre em busca da sensação que cada nota e cada conjunto despertam em si. Aliás, isso no que se refere à música mas, naturalmente, à arte em geral que tem o dom de emocionar e de conseguir unir pessoas e perfis tão diferentes e despoletar memórias e experiências tão únicas e individuais. A Gulbenkian poderia, perfeitamente, ser a sua segunda casa pelas horas aí passadas no jardim, propício a momentos de paz e descontracção, na cantina para um snack com uma vista deliciosa e, claro, no seu local favorito: o anfiteatro ao ar livre, cuja particularidade de se encontrar rodeado de natureza e verde, lhe acrescem uma imponência e um “dramatismo” invulgares, que adora.

Se a mãe a influenciou numa direcção, o pai, engenheiro civil, podemos dizer que contribuiu para a boa dose de pragmatismo, que já aqui falámos, mas também a sua vontade de se dedicar a tudo de corpo e alma, independentemente do que for; herdou, também, um gosto particular pelas exigências da disciplina de geometria descritiva, tendo, até, chegado a frequentar um curso de desenho na Escola de Arte para completar a formação. Aparentemente, tudo a levava a crer que o caminho natural seria prosseguir dentro da área e frequentar o curso de Arquitectura.

Um semestre foi o tempo que demorou a entender que não era por ali que o seu futuro iria passar. Não considera ter sido uma perda de tempo, de todo; foi um curto, mas interessante período que lhe permitiu retirar alguns ensinamentos que, até metaforicamente falando, se podem perfeitamente aplicar à sua existência e à sua profissão. Acima de tudo, conseguiu perceber que para uma pessoa como Joana, focada e que adora trabalhar, só vale a pena se amar o que faz a 100%.

Foi no decorrer desse semestre, que os seus pais, assistindo a uma desmotivação crescente, a convenceram a viajar e estudar fora. Desse apoio surgiu, também, o alerta para participar no casting da primeira novela que viria a fazer- Dancing Days.

O meu pai ligou-me a avisar que havia um casting e que eu tinha de ir (risos).

Já tinha pensado nisso, mas descartara a ideia. É perfeccionista e muito exigente consigo mesma, brinca, e diz que sofre do complexo “OCD”: gosta de ter tudo organizado, planeado e dominar o mais possível todas as variáveis envolvidas numa equação. Como tal, sempre pensou que o seu percurso passaria por desempenhar algo que pudesse controlar um pouco melhor e onde sentisse que existia uma progressão mais ou menos programada. Nunca ponderou seguir a área da representação precisamente pela incerteza crónica associada à profissão e pela importância que o factor sorte pode representar nesse mesmo percurso.

O factor sorte é determinante. O estar no sítio certo, na hora certa; o ter as características necessárias para aquela personagem específica acaba por ser decisivo.

 

Hoje, olhando para trás, sente que entrar neste mundo a ajudou a aprender a relaxar.

É o que tiver de ser. Não planeio, vou aprendendo a viver com a incerteza; um dia de cada vez. Nunca sabemos o que vai acontecer amanhã. Por exemplo, tive uma altura da minha vida em que ia estudar para Londres, fiz as audições e assim que soube que tinha entrado na escola, recebo um convite para participar no casting do filme do Carlos Saboga "A uma hora incerta”. Não há como planear. Inevitavelmente, acabei por conseguir trabalhar com a incerteza: se surgirem projectos surgiram, se não, aproveito para tirar um curso ou viajar.

Já o fez uma vez, quando esteve um mês a viver em Nova Iorque e a frequentar o curso de Acting for Film, na New York Film Academy. Foi aí, na selva de cimento mais inspiradora de sempre, a viver algo que se assemelhava ao “American dream where everything is possible” que chegou a uma conclusão.

Num Outubro pintado de neve, num momento de clarividência enquanto fazia o percurso de comboio de Brooklyn para Manhattan e ouvia “Video Games” de Lana del Rey, sentiu que tinha encontrado aquilo que verdadeiramente queria fazer: ser actriz.

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Her Role

A aprendizagem constante, a possibilidade de investigar, aprender e interpretar perfis e personagens completamente diferentes de si, com realidade e experiências de vida totalmente díspares são o motor da sua paixão por esta profissão.

Uma profissão onde jamais será possível cair na rotina e monotonia. Cada dia, cada trabalho, cada equipa trazem um sem-fim de mudanças e de métodos, de aprendizagens que a fazem vibrar e querer entregar-se over and over again.

É a sua maior crítica.

“Sou perfeccionista, acho sempre que podia ter feito melhor. O papel que interpretei no último filme que fiz “O homem que matou D. Quixote”, de Terry Gilliam, ajudou-me imenso no conceito do deixar ir. Era tudo tão intenso, acontecia tudo tão rápido, tínhamos o tempo contado e havia dias em que tínhamos de filmar 3 cenas diferentes. Aprendi a deixar-me levar e evitar pensar se estaria a fazer bem ou não. Está feito, foi aquilo que fiz naquele momento, mediante aquelas circunstâncias.”

Como qualquer outro tipo de arte, a representação é subjectiva e depende da interpretação de cada um, haverá sempre quem goste e quem não goste e Joana está ciente dessa característica da profissão. Centra-se na preparação, confessa fazer imensas perguntas no sentido de esclarecer qualquer tipo de dúvida e conseguir render-se, o mais possível, à personagem em questão.

Conta que, este caso em particular, foi um enorme desafio. Para construir esta personagem de Angelica, Joana quis aprender a falar espanhol e dançar flamenco porque todas essas características fariam com que sentisse, se expressasse e tornasse mais próxima da essência da personagem.

Quanto a Terry Gilliam, cineasta e conhecido membro dos Monty Python, tem um estilo peculiar que deixa cada actor construir livremente as suas personagens, sem imposições drásticas, o que acaba por constituir um desafio ainda maior.

Uma experiência fantástica que permitiu contactar com um elenco incrível, internacional que acredita só ter sido possível pelas decisões e caminhos que foi tomando ao longo da sua carreira, sempre com a premissa de se manter fiel ao registo com o qual se identifica.

O Futuro? Passa pelo verbo Representar. Não descarta a ideia de experimentar outras visões dentro daquele que é multifacetado mundo da 7.ª arte: quiçá direcção de actores, realização… tudo na tentativa de conhecer, antecipar e facilitar o trabalho de interpretação de uma personagem.

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Fora dos palcos

Já sabemos que adora música clássica, adora ler e, neste momento, os contos de S. Petersburgo de Nikolai Gógol, ocupam lugar de destaque na sua mesinha de cabeceira. Para Joana, ler permite exaltar ainda mais a criatividade individual sem que sejamos direccionados por uma visão ou estética criada de antemão. Mas viajar é aquilo que lhe aquece a alma. Adora.

Recentemente, na companhia do amigo e actor Filipe Vargas percorreu o Douro no icónico Comboio Presidencial, uma viagem com uma simbologia especial… passou pela Quinta do Vesúvio, um dos cenários escolhidos por Manoel de Oliveira, para realizar Vale Abraão, aquele que actualmente será um dos filmes favoritos da nossa convidada.

Pararam e desceram até às laranjeiras que Leonor Silveira percorreu com o seu vestido branco e capeline a condizer.

 

Não foi no Douro que fotografámos, mas num local com particularidades bem diferentes, porém, igualmente maravilhoso. A beleza e o olhar penetrante foram a grande ligação entre os dois cenários, desta vez, com a actriz Joana Ribeiro a protagonizar a produção.

Propomos-lhe, agora, um momento de pura contemplação.

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