Joana Barrios

Joana Barrios

A vida é feita de papéis. Papéis que vão surgindo e que vamos interpretando da melhor forma possível ou recusando por não se encaixarem, de todo, no nosso perfil. Uma série de experiências que nos fazem crescer, aprender… viver. Ouvimos muitas vezes falar da moratória psicossocial de Erickson e o facto de esta permitir um trabalho de elaboração interna fundamental e de exploração de alternativas durante a adolescência… porém, chegamos a um dado momento da vida em que diversos papéis se sobrepõem e que, contrariando as nossas mais profundas inseguranças, até nos saímos muito bem!

A convidada desta semana pertence ao grupo das super mulheres do Séc. XXI, daquelas que nos fazem acreditar que tudo é possível e que, tal como chapéus, papéis também há muitos.

Mãe, autora, actriz, apresentadora, encenadora e ainda blogger (ficamos por aqui porque mais enumerações diminuiriam drasticamente a capacidade de memorização), Joana Barrios protagoniza a história da semana do L Manifesto.

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Soraia do Carmo

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1.º Acto- a Joana

Há belezas que nos marcam, por singulares e carismáticas que são. A de Joana Barrios tem algo de misterioso e indecifrável, existe ali uma dicotomia entre uma coolness e uma beleza que parece não pertencer aos dias de hoje, porém, real e inspiradora. #soparalguns

Recebeu-nos no seu apartamento, com a sua voz anasalada e grave cujo efeito funcionou como um profiláctico tranquilizante; imediatamente nos colocou à vontade e, como boas portuguesas que somos, demorámo-nos uns breves minutos na sala para depois, muito naturalmente, nos encaminharmos para o palco de socialização por excelência: a cozinha!

By the way, uma breve nota sobre o apartamento: maravilhoso! Cheio de luz, sala de estar e jantar contíguas, pé direito e janelas que condizem com os apartamentos de sonho de uma Lisboa Pombalina. Desta vez, não tínhamos nenhuma banda sonora a tocar, nada pelo menos que nos tenha ficado na memória, porém, de longe a longe, uns doces e enternecedores alertas surgiam… Joana foi mãe, pela segunda vez, há pouco mais de dois meses.

 Voltemos ao local onde ficámos, na cozinha. Lá, enquanto muitas outras coisas aconteciam e das quais falaremos um pouco mais à frente, fomos conversando.

Um percurso surpreendente que em tudo se afasta do esperado. Cresceu no solarengo Alentejo, por circunstâncias da vida, a dada altura, a família iniciou-se no ramo da restauração. Todos os dias, depois da escola, contava com a paciência e mestria de Chico, o cozinheiro, para a ensinar a preparar iguarias da cozinha tradicional portuguesa numa terra com uma cultura gastronómica riquíssima. Uma etapa que lhe proporcionou ensinamentos mais técnicos e um convívio salutar que se revelaram fundamentais e que, mais tarde, viriam a influenciar a sua vida, mal sabia o quanto.

Pela descrição inicial e sobreposição de papéis (aos quais ainda falta acrescentar uns quantos!) rapidamente entendemos que Joana não gosta de estar parada, aliás, em pequena dizia ser hiperactiva, os seus joelhos eram reflexos dessas aventuras e carácter destemido; não gostava de ver TV mas adorava ler. Teve na mãe a sua maior aliada e impulsionadora, de quem fala com um brilho muito especial, e que desde sempre a despertou para as mais variadas áreas, inclusivamente, as mais criativas. Afirma que foi graças ao plano educacional rígido e tão diverso que hoje conseguiu alcançar muitos dos objectivos a que se propôs. Revela, também, que deve à sua mãe, o facto de ter sido apresentada ao colectivo com o qual viria posteriormente a trabalhar.

Os 17 anos chegaram, foi estudar no Conservatório em Lisboa, but things didn’t go as she expected, Joana não se identificava com alguns dos processos antiquados de trabalho. Não obstante, as dificuldades não a demoveram, formou-se e prosseguiu com a sua carreira de actriz que acabou por levantar voo e conquistar plateias. Em 2008 iniciou uma bela história de amor com o Teatro Praga.

Barcelona foi, também, palco de algumas cenas da sua vida. Estudou crítica de cinema e música pop. Fez um estágio com a coreógrafa Anna Sanchéz e depois de uma lesão grave, acabou por trabalhar numas das mais conceituadas lojas vintage da capital catalã: um sentido estético inato e uma habilidade comercial tornaram-na numa das melhores vendedoras da loja ao ponto de ficar a gerir uma delas. Kate Moss, Domenico e Stefano Gabbana, faziam parte da lista de clientes que passaram pelo seu “toque de midas” criativo.

Fazemos aqui um pequeno parêntesis porque é inevitável falar do inegável e invejável sentido estético de Joana (sim, foi propositado!). Uma referência de autenticidade e estilo, mas mais do que tudo, faz sentido porque traduz uma verdade: a excentricidade deliciosa e interessante da personalidade independente e assertiva de Barrios. Falamos em carisma, no facto do seu estilo funcionar como uma extensão da sua personalidade, só sua e sem sósias! Um estilo que surge de uma mistura riquíssima de inspirações anos 80, com um retro-classy something kind of a girly mood, que funciona e assenta na perfeição.

Continuemos. Esta sua personalidade sagaz, irónica e divertida fez com que em 2009 se lançasse à escrita com o blog Trashédia, que ainda hoje, é um espaço de leitura de referência e onde Joana disserta sobre os mais variados temas, nomeadamente moda.

Não ficamos por aqui, aquela miúda, artista, actriz com um estilo invejável, que adora ler e adora, também, acordar cedo, aceitou o desafio de vestir mais um papel, o da porteira unbelievably cool do mítico espaço nocturno, a discoteca Lux. Hoje em dia, co-apresenta o programa Super Swing, no Canal Q.

Na verdade e como a própria afirma, Joana é uma comunicadora que utiliza diversas ferramentas e formatos para exercer esse ofício.

 

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2.º Acto- Joana na Cozinha

Falámos há pouco em papéis e vamos continuar. Este outro surgiu há sensivelmente três anos, mas remete-nos para a infância de Joana Barrios e dos seus finais de tarde passados no restaurante da família.

Plantar uma árvore não sabemos se já o fez, mas ter um filho (teve dois – a Mercedes e o pequenino Álvaro) e lançar um livro temos a certeza que sim! Aos 32 anos, Joana entregou-se a imensos desafios, o mais recente chama-se "NHOM NHOM" e é um livro que nos ensina a cozinhar pratos saborosos para os mais pequenos, mas que na realidade toda a gente vai gostar de comer.

Mal entrámos na cozinha deparámo-nos com um banco corrido, junto a uma das paredes. Aquilo que imaginámos veio a comprovar-se durante a nossa conversa: gosta de receber e fá-lo à maneira antiga, tal como nas memórias que guarda da sua infância, a cozinha é o local onde toda a gente se junta, quer seja a família ou amigos, em visitas frequentes.

Adora cozinhar, tem o hábito de ir ao mercado ou mercearia comprar o que de mais fresco existe na oferta do dia. Afirma que o acto de alimentar cria um vínculo, ajuda a estabelecer emoções e foi isso que a levou a empenhar-se nas comidinhas, por mais simples que fossem, da sua filha Mercedes. Este ritual estabeleceu o acesso a um novo conceito de felicidade, e este pressupunha: cuidar.

 

 

Não precisas de ser hiper prendada para fazer comida. Para além disso, este livro parte também da ideia de que ao seres mãe e/ou pai, transformas-te num cuidador. Hoje em dia, o ritmo de vida nas cidades não permite ter muito tempo disponível para te dedicares à cozinha e este livro acaba por ser um guia que te permite poupar tempo. São receitas simples e relativamente rápidas que ajudam a cozinhar numa base sustentada e consciente! Na lógica do quotidiano familiar, o tempo é um luxo e perdê-lo é uma estupidez porque não só perdes tempo para estar com os teus filhos, como tempo que seria só para ti. O que de melhor podemos dar aos nossos filhos é o nosso tempo, daí que temos de o aproveitar ao máximo.

Não é novidade que a maternidade não é só um mar de rosas. Existem situações e necessidades com as quais as novas mães se deparam e que, não sendo controladas podem tornar-se um problema, a alimentação é uma delas. Lembra-se de falar com as amigas sobre o tema e de ser imensamente requisitada para dar conselhos e dicas sobre a alimentação dos mais pequenos. Não que se considere uma chef, simplesmente gosta de cozinhar e entende este como um gosto que herdou e um skill que foi aperfeiçoando desde tenra idade. Revela que nessas conversas perguntava frequentemente às suas amigas mães se eram capazes de comer o que preparavam para os seus filhos. A resposta nem sempre era positiva.

Com base nesta preocupação, numa queda natural para a cozinha e com a ajuda do seu marido Carlos Pinto, surgiu o "NHOM, NHOM". O título nada mais é do que uma onomatopeia que exprime uma sensação de satisfação com um toque de diversão.

Barrios liga o descomplicómetro, afasta-se das propostas de receitas impossíveis de reproduzir pelas mães comuns, por desconhecimento da corrente filosófica e impossibilidade de reunir todos os ingredientes com prefixos “Bio-pró-saudáveis”, e mostra que a ementa dos nossos amados filhos e sobrinhos não é um bicho-de-sete-cabeças e nos pode proporcionar momentos de prazer e de satisfação máxima.

O carinho e emoção que emprega em cada receita, o treinar e despertar o palato dos mais pequenos, segundo Joana, é o que mais prazer lhe dá, é o mais fixe! Citando o prefácio do livro escrito por Patrícia Azevedo da Silva: “ (…) Nisto da comida, é tudo sobre afecto e aconchego.”

São 180 páginas com receitas caseiras, inspiradoras e saborosas que vão tornar o momento da refeição ainda mais divertido, delicioso e simples.

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3.º Acto: As receitas

Desengane-se se pensa que vamos revelar os segredos das duas receitas que Joana Barrios preparou: Creamy broccoli e Bacalhau no forno com espinafres.

Propostas simples, nutritivas e saborosas, elaboradas com os mais tradicionais ingredientes! E claro, o bacalhau não podia faltar!

Se sente que lhe falta criatividade, inspire-se com Joana Barrios.

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