Inês Nepomuceno

Inês Nepomuceno

Rua de Santa Catarina, Porto.

Voltámos à Invicta, mas, desta vez, num dia quente de Verão e acompanhadas de uma luz de final de dia capaz de tornar uma simples esquina de uma qualquer divisão, num cenário carregado de poesia, mistério e beleza.

 A luz entrava pelo quarto de Inês, pelas persianas, algumas corridas outras semiabertas para deixar circular uma brisa que arrefecia a casa, com o cuidado de não revelar muito do que se passava dentro daquelas quatro paredes.

Segundo Inês, um T1 um tanto ou quanto pequeno, para nós não. A área nunca foi uma condicionante nem sequer variável digna de nota. Os detalhes enchiam-nos as medidas: os livros, a colecção de miniaturas espalhadas pelo Hall e pelo quarto, a “Queen Elizabeth” solar que nos cumprimentava com o acenar de braço mais célebre e imitado da história, as plantas que enchiam o quarto de vida e cor e, claro, a simpática, curiosa e destemida Hermínia, a gata.

Inês Nepomuceno, designer gráfica, viseense a morar no Porto há sensivelmente 14 anos, abriu-nos a porta do seu simpático apartamento e falou-nos sobre si e sobre a sua paixão.

 

Fotografia: Dulce Daniel

Texto: Margarida Marinho

Maquilhagem: Ana Raquel Ribeiro

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Inês

É inevitável falar sobre a beleza de Inês. A delicadeza e feminilidade com que anda, com que fala, com que se ri. Tem 32 anos e jamais diríamos. Bem, à primeira vista, talvez pela silhueta esguia, short bob e olhar tímido, mas quando começamos a falar, a conversa é outra. Inês fala com a assertividade, convicção e conhecimento característicos de alguém com experiência e percurso ricos, vividos algures entre Portugal, Bruxelas e Barcelona.

Tirou o Curso de Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes do Porto. Diz que nunca foi daquelas pessoas que sabem, desde pequenas, o que querem fazer. Despudoradamente e com humor afirma que não tinha nenhum artista na família, que os seus pais eram bancários e nada ligados a uma vertente de criação. Pois bem, uma coisa não invalida a outra e foi o que confirmámos no decorrer da conversa. Nasceu e cresceu em Viseu, uma cidade pequena, mas fervilhante em termos culturais. Foi na sua infância/adolescência que viu surgiu o Teatro Viriato, a Companhia Paulo Ribeiro e que frequentou o Cineclube da cidade com uma oferta de filmes vasta e cativante. O facto de ser uma cidade mais pequena influenciou-a, mas mais ainda, o incentivo que recebeu por parte dos pais para aproveitar e assistir a tudo o que a cidade lhe proporcionava de relevante em termos culturais. Talvez, se tivesse crescido numa cidade maior, o excesso de oferta acabasse por dissipar o interesse, who knows?!

Não houve nenhum triggering event, foi uma construção que se foi dando de uma forma natural, mas sustentada e com uma capacidade de adaptação para lá do comum.

Os anos foram passando e o derradeiro momento da escolha chegou. Sabia que gostava de seguir artes, não se considerava genial o suficiente para ser uma artista naquela que poderá eventualmente ser a sua verdadeira acepção da palavra.

Quem não se lembra de preencher as opções de cursos no formulário de candidatura à Faculdade? Pois bem, na primeira opção de Inês, lia-se Arquitectura e depois, um pouco por exclusão de partes e, também, porque queria ir para o Porto e porque era lá que o seu irmão estudava, o curso de design acabou por figurar entre as restantes opções. Estudou em Belas Artes e isso tê-la-á influenciado transversalmente. Um ambiente criativo e conceptual por excelência em que os pares se influenciam, onde o pensamento artístico e respectivos formatos são fomentados e coabitam e onde, no final de uma jornada, o cinema, o teatro ou alguma outra actividade acabam por ser o destino frequente, em detrimento do descanso no ”recato do lar”. Respira-se uma atmosfera de criação que envolve e contagia.

Fez Erasmus em Bruxelas, na  École Supériore des Arts et de l’Image Le 75, durante 6 meses. Aliou a experiência pedagógica com a possibilidade de viajar e procurar uma visão mais abrangente do design. Visão essa que não só encontrou em Bruxelas, mas, também, nas frequentes idas a Roterdão, quando visitava as suas BFF’s que por lá estudavam e nas demais viagens que aproveitou para fazer. Na Holanda, encontrou um país com tradição, prática e história do design mais acentuada, com mais anos, e onde existe um claro incentivo para a disciplina. Relata que a prática do design se assemelha à prática artística e que lá, o designer não se limita a traduzir, mas constrói e desenvolve projectos por si.

Voltou cheia de força e com certezas. Queria trabalhar e continuar a sua experiência além-fronteiras. Fez por isso. Mandou o portefólio para a TwoPoints.net, um conceituado atelier em Barcelona. Não ficou à primeira tentativa, mas pouquíssimo tempo depois foi contactada para embarcar neste desafio. Lá ficou a colaborar durante meio ano. Uma “escola” que a influenciou inequivocamente pelas correntes espanholas e alemãs que cruzava, muito à semelhança do casal que conduz o estúdio.

Voltou para Portugal e ainda não sabe bem porquê. Melhor dizendo, sabe, pois adora o país e desenvolveu uma relação visceral com o Porto e, naturalmente, uma coisa leva a outra.

No decorrer do seu mestrado foi convidada a trabalhar no Centro de Investigação da Escola Superior de Artes e Design, mais precisamente no ESAD Idea. É lá que ainda continua e que a podemos encontrar. Mas podemos ouvir falar de Inês, do seu processo de criação e da sua obra um pouco por todo o lado, inclusive internacionalmente.

No âmbito editorial foi responsável pela Direcção de Arte de duas edições da Revista Pli do ESAD, mas já experimentou um pouco de todas as vertentes possíveis dentro da área. Destacamos alguns projectos mais mediáticos: o seu trabalho na identidade do álbum Caixa Negra dos GNR, o seu trabalho ainda nos vídeos do grupo português “Clã” e algumas edições do Festival Vodafone Paredes de Coura (2010/2011).

Actualmente conjuga uma vertente de pesquisa e trabalho mais académica e institucional, com projectos enquanto freelancer que vai desenvolvendo com outros designers, nomeadamente, Mariana Marques. Exemplo disso, são o seu papel do desenvolvimento da identidade gráfica da Galeria Municipal do Porto e do livro do Projecto Memória em comemoração dos 100 anos do Teatro Circo de Braga. Dentro daquela que é a sua área, Inês desenvolveu uma proximidade e um gosto particular pela área da fotografia e design editorial, prova dessa paixão, é  livro "moshi-moshi" pronto, mas ainda por publicar. Um relato fotográfico maravilhoso da viagem que fez com o seu namorado ao Japão. Duas linguagens, leituras e visões distintas da mesma realidade que partilham, no entanto, o mesmo livro, mas curiosamente divididos.

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O Design pelos olhos de Inês

Tal como Adam Schaugnessy, conceituado designer gráfico, Inês partilha da opinião de que uma das melhores características do seu trabalho passa pela capacidade e possibilidade de tocar em várias áreas, de trabalhar temas totalmente díspares de projecto para projecto e, ao mesmo tempo, de contactar com pessoas e visões muito particulares (clientes, por exemplo). São processos que variam de pessoa para pessoa. Porém, para Inês, da imersão e estudo aprofundado sobre as mais diversas temáticas, das longas conversas e trocas com o cliente ou artista, dos materiais que este lhe possa ceder, tem início o momento de criação.

 Tudo o que me conseguirem passar de texto, imagem ou conversa é muito importante e constitui a minha primeira fase, depois, vão surgindo metáforas visuais, relações que se estabelecem entre elementos e, tudo isso, acaba por ajudar na tradução de uma ideia. Na verdade, o trabalho de um designer é, também, uma tradução através de todos estes filtros que são culturais e que, muitas vezes, apenas são compreendidos dentro de um contexto específico.

Todos os designers têm processos diferentes. Tenho dificuldade em quantificar ou relacionar as minhas experiências e as coisas que vou fazendo, com a forma como essas referências estão presentes no meu trabalho. Gosto de cinema, de ler e de viajar, mas sinto que essas influências não são assim tão directas, mas que, de alguma forma, acabam por passar.

Fala-se de uma nova fase, se à semelhança das mudanças que aconteceram aquando do aparecimento do computador ou da internet, a automação acaba por ser um tema pertinente e que, em duas palavras, Inês explica e tranquiliza. De forma muito sucinta, a tecnologia ajuda a equilibrar e simplificar processos.

O design vai ter de conviver sempre positivamente com a evolução da tecnologia e tentar usá-la da melhor forma. A tecnologia muda a forma como trabalhamos, tem uma influência óbvia no nosso trabalho, porém, a ideia continuará a partir de nós. Muitas vezes, testamos duas ideias diferentes dentro de um trabalho até entendermos que a ideia x, com que se avança, é a ideia que conceptualmente e graficamente é a mais forte. Muitas vezes, temos uma ideia que conceptualmente até parece válida e forte, mas depois, formalmente ou esteticamente, não funciona. (…). É frequente uma das vertentes (conceptual ou gráfica) ser mais frágil, é difícil haver perfeição e total equilíbrio. A tecnologia permite colmatar essas dificuldades e simplificar processos.

Explica, também, que o design nacional está diferente, consistente e com qualidade, a ponto de ter um frequente destaque internacional. Desde a vereação de Paulo Cunha e Silva e da aposta cultural que promoveu, o trabalho foi proliferando dando oportunidade aos estúdios e aos profissionais de mostrarem o seu trabalho e de crescerem. De salientar, também, o aparecimento de conceituadas designers, mulheres, factor, revelador de evolução e crescimento da área.

Revistas internacionais da área, como a Slanted, já fizeram edições inteiramente dedicadas ao design em Portugal, com base numa imersão de duas semanas no nosso país e onde Inês foi uma das célebres convidadas. Mais recentemente, a Bienal Internacional de Design Gráfico, em Brno, abordou em exclusivo, o Design Gráfico no Porto.

Segundo a experiência de Inês e do seu trabalho, Portugal ocupa uma posição de relevo e as diferenças fracturantes do passado, dissiparam-se. Damos cartas e o trabalho da nossa convidada é o exemplo do que de bom por aqui se faz. 

 

Obrigada Inês!

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