Ana Sofia Martins

Ana Sofia Martins

São muitas as ideias e as percepções que criámos sobre as personalidades do espectro público. Porém, muitas caem por terra assim que estabelecemos, pela primeira vez, um contacto, ainda que fugaz, com a dita pessoa; outras, tornam-se residuais quando comparadas com a generosidade da alma daqueles com quem nos deparamos.

Fazendo uma breve analepse: conhecemos pessoalmente a nossa convidada há um bom par de meses. Estávamos na Aroeira, mais precisamente numa casa estilo Mulholland Drive, para gravar o spot publicitário do El Corte Inglés.

Num dia que começou quando o sol e a lua ainda trocavam de posto, tivemos a sorte de conhecer de perto a Ana Sofia Martins, e de, num estilo menos convencional e participando de algumas maravilhosas private talks, entender a sua verdadeira essência. Saiu dali a certeza de que teríamos de voltar a falar, de uma forma descontraída, autêntica, desprovida de horários e de mediatismos.

É sabido que um dos seus mais visíveis talentos se prende com a mestria e habilidade de criar personagens, de sair do seu inner being para rapidamente interpretar e encarnar personas, estejam elas espelhadas nas páginas de uma revista, nas catwalks nacionais e internacionais ou, ainda, num pequeno ecrã situado nas casas de um vasto público anónimo. Três formatos diferentes que pressupõem, porém, um objectivo em comum: o de inspirar.

A sua profissão ou profissões, se assim quisermos dizer, são parte integrante e importante do seu carácter e do seu percurso, daí que, para este encontro, tenhamos adoptado a versão de um editorial, onde, para além das tendências, Ana, mostra a sua versatilidade, as suas paixões e, claro, a sua beleza.

 Fazendo um fast forward, here we are… o L Manifesto dá as boas-vindas a Ana Sofia Martins!

 

Fotografia: Maria Rita

Texto e Produção: Margarida Marinho

Maquilhagem: Marta Silva com produtos Armani Beauty ( Beauty Partner)

Cabelos: Bruno Vicente

Agradecimento especial ao Hub Criativo do Beato

 

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Ana

Nos dias que anteciparam esta entrevista, fomos naturalmente pesquisar todas, e mais algumas, informações disponíveis sobre a nossa convidada. Num exercício de compilação e posterior selecção, algo nos fez parar e pensar… depois de tanta leitura, e no meio de dezenas de manchetes, a pergunta continuava a ser a mesma: afinal quem é Ana Sofia Martins? O seu verdadeiro rosto parecia envolvido sobre um véu que escondia a sua essência, as suas conquistas pessoais e profissionais, o percurso, os seus projectos, em suma, a sua mensagem.

Foi por aí que começámos. No estúdio da Maria Rita, sentada numa barber’s vintage chair e enquanto terminavam a make up e o cabelo, fomos falando.

Partimos de uma frase que Ana havia proferido e onde dizia qualquer coisa como “(…) existe o factor sorte, sim, mas mesmo esse tem de ser muito trabalhado”. Isto quando falamos do facto de actualmente ser uma figura pública e de representar um exemplo para muitas jovens e muitas mulheres que têm sonhos e que, por vezes, por uma questão de sobreposição de obstáculos surge o impedimento de ver com clareza a existência de um mar de possibilidades que, com trabalho, afinco, dedicação e uma ponta de esperança, as ajudarão a realizar as suas maiores utopias.

Foi precisamente assim que aconteceu. Não à semelhança dos Fairytales de antigamente onde o príncipe encantado chega no seu cavalo branco e salva a princesa das intempéries e/ou infortúnios, mas à semelhança das princesas dos dias de hoje. Daquelas que são feitas de uma fibra multirresistente, que podem ter medo, mas vão à luta sem desistir; daquelas que ficam, naturalmente, para a história.

Nasceu em Lisboa, no Bairro da Outurela. Contrariando todas as expectativas e com a sua postura decidida e “arisca” que ainda hoje a caracteriza, Ana construiu uma carreira de sonho.

Tudo começou em forma de cliché, quando foi abordada na rua por um scouter que lhe fez a proposta de entrar para a agência e tentar um futuro na moda. Nunca tinha pensado nessa possibilidade, mas não disse que não e embarcou na aventura, ganhando um concurso em Portugal e a possibilidade de construir uma carreira internacional. Com ironia e uma verdade que chegam a ser desconcertantes, diz: ” Era uma miúda de 14 anos e nunca pensei que poderia fazer parte de um mundo tão glamoroso (…) só o facto de me terem dado a hipótese de escolher algo e ser alguém, foi muito importante. Na verdade sempre achei que o meu destino já estaria traçado e relacionado com o meio de onde vinha”.

Essa decisão representou o início de um percurso que a levou a viver, primeiro em Paris, depois em Londres e Milão e, por fim, durante 10 anos, em Nova Iorque. Desfilou e protagonizou campanhas para algumas das mais importantes marcas internacionais: Tommy Hilfiger, Victoria’s Secrets, Narciso Rodriguez, Benetton, e diversos editoriais de moda nas mais conceituadas revistas.

Porém, lembra que nem tudo foi fácil. Quando aterrou, pela primeira vez, em Paris sentiu algo de “overwhelming”, olhando para trás afirma que o facto de ser ido sozinha foi a melhor coisa que lhe podia ter acontecido: “Quando cheguei, tive um “big welcome” no aeroporto, estava lá o director da agência e um booker que depois me deixaram em casa. No dia seguinte, já com castings marcados, arranjei-me e fiquei à espera que alguém me viesse buscar, mas, para minha surpresa, ninguém veio. Liguei para a agência e disseram-me que tinham deixado um mapa e que agora teria de me deslocar até ao metro para comprar o passe e ir até aos locais que me haviam sido passados. Perdi-me várias vezes, mas a verdade é que cheguei onde queria! Conheci muitas miúdas que iam com as mães e/ou de táxi e sinto que foram poupadas a muitas coisas que eu não fui, mas ainda bem!”

Diz, sem pudores, que a sua personalidade a ajudou a construir o seu percurso: “eu era muito comunicativa, falava imenso e sinto que isso ajudou a destacar-me, claro que é impossível agradar a todos, mas rapidamente vi que essa postura ajudava! Ter de, aos 15 anos, lidar com a rejeição não é fácil, mas ao mesmo tempo, preparou-me para tudo. Não levo essa rejeição para o plano pessoal e isso faz-me sentir muito mais feliz.”

Ao fim de 10 anos a viver na Big Apple e, apesar de parecer um contra-senso, Ana sentia-se entediada e decidiu voltar para Portugal: “quando estás há 10 anos a fazer a mesma coisa e sabes que a pose 31 resulta e a 57 também, e se tens uma personalidade mais efusiva, precisas de mais, de fazer outras coisas, de existir! Sentia que precisava de deixar de ser uma tela para o trabalho dos outros e ser eu a minha própria tela.”.

E assim foi. Depois de um casting bem-sucedido, regressou a Portugal e iniciou a sua carreia como apresentadora, mais precisamente, VJ na MTV Portugal.

Alguns anos passaram e a capacidade de se renovar parece não esmorecer; ainda que numa área artística com um tronco que pode ser mais ou menos comum, Ana Sofia nunca parou. Diz ser uma pessoa ambiciosa, lutadora, mas não muito apegada
às coisas, mas sim mais às experiências, talvez fruto do seu percurso e por nunca ter tido nada como garantido. Neste momento, o mais importante é aquilo que a faz feliz e diz, sem medo, que se um dia tiver de abdicar de tudo o que alcançou, por algo que a faça sentir verdadeiramente feliz, fá-lo-á sem hesitações. #strongandfierce

Por agora, descobriu uma nova paixão: a arte de representar. Sente que é algo que a ocupa 24/7 porque tudo a inspira: as pessoas, os gestos, as personalidades e posturas. Essa observação minuciosa faz com que sinta que está sempre a trabalhar. Cada pessoa ou relação, podem, à sua maneira, despertar em si sentimentos e emoções que ficarão registados na sua “enciclopédia sensorial” e que poderão inspirar personagens ou trabalhos futuros.

Multifacetada, Ana é, acima de tudo, uma artista apaixonada pelo que faz e focada em querer dar o que de melhor e mais forte existe dentro de si. Dar o exemplo, sim, sabe que o faz e que o seu trabalho e percurso mostram que o céu é o limite; contudo, essa suposta responsabilidade não a desvia do seu trajecto e muito menos da sua verdadeira essência, porque acredita que um bom exemplo é importante, mas, mais importante, é a educação que vem de casa.

Para quem acompanha o seu trabalho, é notória a mensagem que vai deixando, muitas vezes envolvida numa boa dose de ironia e sarcasmo que lhe permite chegar a um público mais jovem. Ana pretende, acima de tudo, ajudar a desmistificar preconceitos, abanar as mentes e despertar uma visão de tolerância e diversidade que deve existir e que é fundamental.” Pode parecer estranho, mas faço isto a pensar em pessoas que ainda não existem, nem sei se vão existir- os meus filhos. Mas se existirem, gostava que olhassem para o meu percurso e vissem que ajudei a construir algo.”

Ler Capítulo 1

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Ana e as paixões

Depois do primeiro capítulo é mais do que redundante dizer que Ana é uma pessoa de paixões, mas, inevitavelmente, teríamos de o voltar a abordar.

Propusemo-nos a tentar definir a nossa convidada e tal não seria possível se não tocássemos em alguns temas que cruzam a sua esfera mais pública com a sua esfera mais privada.

Há pouco falámos em educação e exemplo. Partimos dessa premissa e adicionando comprometimento, responsabilidade, diversão e amor, chegamos a um dos mais importantes projectos de Ana Sofia. Começou há cerca de um ano e meio numa jornada que acredita ser mais recompensante e desafiante para si do que para a instituição que ajuda, a Casa de Acolhimento Mão Amiga.

O domingo, um dia que seria, à partida, mais tristonho porque antevia o início de uma semana de trabalho, é agora sinónimo de diversão, de entreajuda, de troca, de aprendizagem, de jogos de futebol e histórias que visam trazer bem-estar, o imaginário e a criatividade- factores que deveriam fazer parte da lista de direitos de toda e qualquer criança. Este grupo por quem nutre um carinho muito especial e que, tirando partido de uma posição e contactos privilegiados, luta para conseguir colmatar algumas das necessidades mais prementes.Também, um pouco marcada pela sua experiência de vida, Ana consegue trazer verdade, esperança e um exemplo positivo a cada criança.

À parte disto, quem é Ana? Adora viajar, ler, é frequente vermos no seu instagram conselhos sobre livros, exposições e novos artistas, numa tentativa de, no meio de um mundo propício a criar imagens utópicas e pouco reais, mostrar a sua verdadeira essência e uma dose de realismo, verdade e substância.

Ler Capítulo 2

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Moda, a mensagem

Quem não se lembra de ver Ana Sofia a protagonizar o desafiante spot publicitário “Agora já te podes vestir online”? Pois bem, passados tantos meses não poderíamos deixar de saber, em primeira mão, o seu feedback. Não podia ter sido melhor.

Na verdade o tema surgiu precisamente de uma conversa, à qual assistimos na altura, sobre a moda e a sua mensagem.

Ao longo da sua carreira, Ana foi crescendo, aprimorando as suas visões e as suas percepções, o que antes era tido como algo do qual essencialmente resultaria uma imagem bonita e perfeita, hoje, para Ana Sofia, a opinião é outra. A moda tem de pressupor uma narrativa, uma história, tem de fazer pensar e desafiar quer seja pela beleza, pela estranheza ou imprevisibilidade. É cada vez mais isto que a move e a faz continuar a gostar desta área, enquanto connaiseur e manequim.

Gosta de propostas tendencialmente mais conceptuais e menos comerciais. O spot do Corte Inglés foi o exemplo disso, era um desafio; um desafio que condensava uma boa dose de irreverência na mensagem, mas, ao mesmo tempo, uma beleza e estéticas apuradas: “Foi uma experiência incrível que vou adorar mostrar aos meus netos. Estou muito bem com o meu corpo, a nudez não é um problema e quando ouvia a palavra acção, sabia que não era a Ana Sofia de casa, mas a Ana que foi contratada para aquele trabalho em particular.”

O profissionalismo e anos de experiência fazem destas coisas! #superwoman

Falávamos sobre moda e era peremptório saber qual o seu estilo, que, de antemão, definiríamos como: cool, confortável e com uma boa dose de sofisticação. Acertámos, se bem que Ana, ri e afirma que a sofisticação foi trabalhada em colaboração com seu stylist e grande amigo, Luís Borges, que apesar de a testar constantemente, soube ler, na perfeição, a mensagem que gostaria de passar.

Para esta estação, sente uma crescente predisposição para apostar em cores mais fortes e nos padrões, que contrastam com o seu maravilhoso tom de pele. Adora powersuits, denim e malhas; os ténis, esses são sempre uma aposta segura e um must-have do seu closet.

Desejos que se reflectem na maioria dos looks escolhidos para esta produção, que aliados ao seu carisma, beleza e versatilidade da sua super cool cabeleira, dão o toque edgy e awesome que todas gostaríamos de ter!

Moda, apresentação, representação e uma forte actividade cívica e crítica, quatro vertentes que se cruzam num ponto: a mensagem que transportam. Uma mensagem de força e de carisma, de dedicação e bravura, de beleza. Um exemplo transversal que faz todo o sentido revelar, numa semana em que se assinala o Dia Internacional da Mulher.

 

Ler Capítulo 3

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