Ana Rito

Ana Rito

L’enfant terrible, uma expressão categórica que se assume como uma das três principais características que definem a convidada da semana.

Permanece na nossa memória por se encontrar associada a importantes nomes do espectro público - pessoas icónicas, naturalmente. Assumem, destemidamente, traços de personalidade que revelam força, ruptura com convenções, impetuosidade, bravura e, consequentemente, progresso. Ainda que, algumas vezes, essa unconventional attitude lhes valha momentos mais sombrios de incompreensão e julgamento.

Não foi o caso. Ana Rito reflecte uma postura apenas possível para quem é e está muito segura de si, para quem, apesar da sua atitude de constante e benéfico questionamento, não se deixar levar por lugares-comuns. É uma party people e uma people person.

Fashion stylist, SEO fashion copywriter, fashion advisor; foi, em tempos, editora de moda da Vice Mag, em Portugal. Uma criativa, apaixonada pela área e pela multidisciplinaridade a ela inerente.

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Dulce Daniel

Maquilhagem e Cabelos: Maria Luis

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Who is she?

É natural de Braga, mas é no Porto que vive. Tem 31 anos, está precisamente a começar a década sobre a qual os entendidos dissertam e afirmam trazer maturidade, confiança e uma importante dose de allure. Let’s wait and see!

Continuemos. Encontrámo-nos na sua casa de campo da família, já depois de Vila Verde, naquela onde passou a sua infância. Uma casa repleta de memórias e beleza.

Na verdade, um projecto de vida dos pais, uma casa que foram recuperando, dando vida e personalidade, à semelhança de cada um e, ao mesmo tempo, de todos. A mãe, com uma paixão assumida pela decoração vai viajando e trazendo de alguns flea markets, relíquias dignas das mesas faustosas datadas das décadas de ouro da nossa história.

Entrámos e, na moradia, que aparentemente denunciava uma corrente decorativa romântica, fomos surpreendidas ao encontrar divisões cheias de personalidade e requinte, num exímio equilíbrio de peças maravilhosas pertencentes a referências temporais diferentes.

Paredes grená, outras verde-esmeralda, molduras em talha dourada, peças e bandejas em prata… no centro da sala, em destaque, uma mesa corrida, em madeira, adornada com sumptuosos e lindíssimos candelabros dourados. Infindáveis e riquíssimos detalhes se encontravam a cada centímetro que nos rodeava.

Ficou clara a resposta à pergunta de onde viria a visão estética e sensibilidade quase artística de Ana. #mums

Confortavelmente sentadas na sala de snooker, começámos uma maravilhosa conversa sobre como tudo começou, sobre a moda e o seu papel… sobre a vida.

É quase inconsciente a necessidade que temos de ir indagar e justificar as nossas certezas e caminhos de hoje, mas a verdade é que as nossas memórias e as nossas referências influenciam efectivamente o nosso percurso.

Ana vem de uma família com muitas histórias, viveu e cresceu a ouvir relatos de outros tempos, de um bisavô com uma fábrica de renome, das modistas que pensavam e costuravam a roupa à medida para a sua mãe e para a sua tia, da sua tia pintora, de uma mãe com um talento assumido para a decoração e uma sensibilidade para a moda que culminou na abertura de uma loja, num sem-fim de memórias que construíram, em parte, a sua realidade e estimularam o seu imaginário.

Apesar disso, a Ana nunca se deixou levar pelo óbvio. Era e ainda é o “elemento diferente”, que não tem medo de questionar, de abalar estruturas, num exercício constante que lhe permite chegar ao âmago das questões, fugindo a estereótipos e “pré-conceitos”.

Inicialmente, era a Dança o seu foco, mas rapidamente a demoveram dessa carreira. Seguiram-se as dúvidas, inevitáveis para uma tão precoce decisão sobre o destino da vida, aos 18 anos. Achou que Psicologia seria o caminho, mas acabou por entrar em Ciências da Educação. Não desistiu e terminou. Acredita que o facto de ter encarado aquele curso como uma primeira estância de formação, a levou a interpretá-lo de outra forma: com mais prazer e a tirar o devido proveito.

Mas a moda nunca deixou se estar na sua visão periférica. Gostava de ler, de ver revistas, de encontrar fios condutores entre histórias, de pensar sobre elas, de estudar, de pesquisar imagens e referências. Chama-lhe “puxar o novelo”. Gosta, por exemplo, de ver um filme e, de seguida, pesquisar sobre o realizador, a sua filmografia, entender a sua história e a suas escolhas. Revela que apenas uma coisa a assusta verdadeiramente e que se aplica a todas as áreas da sua vida: a ignorância, o não saber.

Mas voltando ao que falávamos. Ana sentia uma tremenda necessidade de falar e expor as suas opiniões e ideias sobre a sua visão da moda. Lançou, assim, em 2006, o blog Dressing Room, o anti-blog.

Gosta de moda, é o seu mundo, mas não se confina à roupa, às colecções e à volatilidade de tendências; dedica-se a entender que comportamentos, sob um ponto de vista “histórico-antropológico”, desencadearam aquele desejo e, eventualmente, uma tendência. O blog era o seu veículo de expressão, num formato noticioso, num tempo em que poucos eram os nomes que povoavam a blogosfera: Style Bubble, Style Hunter, Sartorialist e, mais tarde, a Tavi Gevinson eram os seus favoritos.

Gostava de escrever, isso era certo; gostava de moda, não necessariamente desenhar roupa, mas, na altura, parecia ser esse o único caminho para quem queria seguir a área. Decidiu, assim, ir para o Porto estudar Design de Moda. Posteriormente, tirou Fotografia e Vitrinismo.

A participação como editora de moda da Vice Mag em Portugal veio precisamente pela forma como encara a moda, sob um ponto de vista de construção, de crítica, com um toque de humor indissociável.

Uma coisa leva a outra, seguiu-se Consultoria de Imagem e, mais tarde, Jornalismo. Tudo pensado para que conseguisse ver a “big picture” e dominar as diversas facetas de um diamante que pretendia lapidar cuidadosamente.

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Irreverência assumida

Quando iniciámos este texto, mencionámos uma expressão que acreditámos definir a postura de Rito na vida, mas deixámos no ar, a existência de mais duas características igualmente importantes. No decorrer da conversa que tivemos e que, em suma, revelámos, Ana é uma fearless cool girl e acreditamos que obedece a todos os critérios de uma geração marcada pelo nascimento de uma nova palavra- influencers, mais propriamente, digital influencers e que surgiu nos anos mais recentes.

As redes sociais, abriram as portas a um infindável mar de pessoas, de conteúdos e visões e, naturalmente, vão sobressaindo alguns perfis que denotam maior autenticidade e especial curadoria.

Ana distingue-se, pela sua estética diferente e apurada, pela visão fun, criativa e imprevisível com que revela a sua realidade, as suas coisas e o seu universo.

O seu estilo revela, naturalmente, muito de si, do seu carácter inconformista, que mistura tudo e vai beber a diversas fontes, nomeadamente, referências históricas, filmes, street-style, ou ainda, culturas que, temporariamente e mediante uma fase concreta da sua vida, a marcaram e fazem sentido explorar e transpor para o seu dia-a-dia. Conta, num tom engraçado, que na altura em que viu toda a filmografia de Jean-Luc Godard, o seu adereço favorito passou a ser a boina e a sua indumentária passou a reflectir esse estado de espírito, em versão francesa. Para si, vestir é criar uma personagem, muitas vezes, literal, é o não se levar muito a sério.

Afirma que desde os 13 anos que tem essa necessidade de experimentar, de chocar até, tendo passado pelas diversas fases de um típico e controverso estilo, característico de uma adolescência tendencialmente empírica.

Hoje, continua a surpreender com a sua coolness e irreverência, onde frequentemente ouve:” Só tu conseguirias usar isso, Ana”.

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The After Party

Terminámos com um ensaio que poderia perfeitamente incluir-se num dos seus gatherings de BFF’s, daqueles que esta casa já assistiu por diversas vezes e onde a diversão e a espontaneidade adquirem o papel de protagonistas, transformando cada encontro num momento ainda mais memorável.

 

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