Alex D’Alva Teixeira

Alex D’Alva Teixeira

Encontrámo-nos em pleno Bairro Alto, numa das alturas mais tradicionais do ano.

Não foi propositado, é facto, mas na verdade não poderia ter calhado em melhor altura.

Enquanto conversávamos, pudemos assistir à frenética, porém, meticulosa preparação das ruas para a tão aguardada noite do ano - a noite de Sto. António. Reverberam. A música popular ecoa e parece acompanhar-nos ao longo do percurso, nas labirínticas ruas e ruelas que fazem do bairro e da bica, dois dos spots mais procurados neste dia.

Surgem balcões de plástico que originam bares improvisados porta sim, porta sim. Os mesmos que não deviam encarar a luz do dia, há precisamente um ano, desde que foram arrumados num qualquer depósito, arrecadação ou garagem da casa de onde agora, finalmente, se erguem. As cervejas, a sangria, os assadores e o típico e intenso aroma das brasas e da sardinha… como nunca, as ruas enchem-se de cor, de enfeites, de tiras e fitas de papel e, claro, de manjericos.

Escolheu este bairro porque, quando morava do lado de lá- na Moita- ao chegar a Lisboa, o Cais do Sodré e o Bairro Alto, apresentavam-se como a porta da cidade e davam-lhe as boas-vindas cheias de vida e personalidade.

Resultado de uma convergência cultural incrível e, tal como aquelas ruas cheias de histórias, ritmo e cor, o músico Alex D’Alva Teixeira é uma alma criativa, resiliente que há muito se destaca pela sua qualidade, unicidade, carisma e, claro, pela sua música.

Bem-vindo, Alex!

 

Fotografia: Maria Rita

Make up: Sara Fonseca

Texto e Produção: Margarida  Marinho

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Throwback

Há pouco falávamos de convergência cultural, certo? Pois bem, a expressão assenta-lhe na perfeição. Nasceu em Luanda, vive em Portugal e é filho de pai São Tomense e mãe Carioca. What else?

O encontro deu-se no Rio de Janeiro quando o pai foi para lá estudar, depois disso, o amor fez com que a sua mãe rumasse a Angola e dessa relação surgisse o pequeno Alex.

Veio para Portugal teria uns 2 anos. Sendo que as nossas primeiras recordações normalmente remontam à primeira infância, por volta dos 3 anos, leva-nos a pensar que poucas serão as memórias das suas breves vivências em terras africanas.

A verdade é que, ao longo da conversa, Alex foi peremptório ao afirmar que a descoberta das suas origens e a consequente exibição/apreensão das mesmas foi bastante tardia.

Vem de uma família evangélica, devota, assente em princípios formais e um tanto ou quanto, rígidos. Os tempos eram outros e a troca de experiências ainda assoladas pelos momentos difíceis de uma história marcada pela Guerra Civil, talvez tenham feito com que as essas recordações fossem menos revisitadas. Com antecedentes culturais muito associados à música e a ritmos riquíssimos, Alex diz que os contactos mais próximos vieram em grande parte por influência da sua mãe, que tocava guitarra clássica na igreja que frequentava.

Alex, filho da geração de 90 cresceu a ouvir a MTV, a ver os last releases dos videoclipes e devorar todos os hits mundiais das grandes referências da década, como sejam Kurt Cobain, Spice Girls, Michael Jackson, entre muitos outros. A essas influências, acrescentavam-se as vivências diárias na casa da ama, na companhia dos seus filhos, que puxavam ainda mais pelo seu lado português do que propriamente pelas suas raízes de sangue. De sangue ou não, a estes dois compinchas chama, ainda hoje, de irmãos mais velhos. #thingsthatneverchange

Como qualquer jovem da altura, partilhava as referências e as típicas influências “mundiais” da sua geração.

“A primeira vez que ouvi Kuduro foi numa boda e teria uns 6 anos. Comecei a dançar como se fosse um ritmo de Hip-hop. Lembro-me perfeitamente dos convidados começarem a olhar, mas a verdade é que nunca tinha ouvido aquele ritmo e dancei como sabia.”

Algures entre os 18 e os 22, deu-se a grande descoberta e contacto com a cultura africana. Frequentava uma escola com uma comunidade bastante bem representada, o que ajudou a conhecer a cultura, os ritmos e os hábitos de uma forma mais próxima e profunda. No entanto, nunca sentiu que essa corrente cultural tivesse de ditar a sua forma de estar, de viver, de interpretar a sua vida e de construir o seu futuro. Considera que foram anos fundamentais e decisivos no que respeita a uma estratégia de autoconhecimento e que, sem dúvida alguma, permitiram compreender e alicerçar a sua história e as suas raízes- até na simples decisão de usar com orgulho a sua cabeleira afro-, mas acima de tudo, também, graças à influência de uma das suas grandes amigas, entendeu o conceito de ser afrodescendente à sua maneira, mantendo a sua unicidade e personalidade.

Na sua opinião, a cultura não tem funcionar como factor homogeneizante, mas, sim, dar as ferramentas e devida contextualização que permitirá, a cada um, criar um self único e à sua medida. E assim foi. Alex driblou as expectativas de se vir a tornar num cantor/músico de Hip-hop, e preferiu aquele ritmo com o qual sempre se identificou e que iria ao encontro de uma linha dentro do Rock.

Não é novidade dizer que o passado e as nossas raízes dos definem, e o Alex é o resultado de uma mistura incrível e pouco provável. Do Brasil, identificámos o tão falado “jeitinho carioca” e a característica inata de lhe permite cantar e expiar as tristezas com uma leveza desconcertante, pela postura de adquire de “não julgar” e de não proclamar verdades absolutas.

No final do dia, já depois de alguns quilómetros percorridos, sentamo-nos à conversa e eis quando aquele convidado tranquilo, simpático, super relaxado e uber cool revela ser um tanto ou quanto impaciente. #hardtobelieve

Contrariamente ao que transparece, afirma que não perde muito tempo com algo que acredita não funcionar. Emocional, sim; explosivo, também, mas com o passar dos anos faz um esforço para se munir de ferramentas que permitem “polir” algumas reacções mais instintivas. Mas quem ama aquilo que faz, frequentemente age de acordo… isn’t it?

Ler Capítulo 1

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A música

Aos 6 anos soube que queria cantar.

“Desde muito novo que pegava em qualquer coisa que se assemelhasse a um microfone e cantava”.

Autodidacta, não foi estudar para nenhuma escola especializada e recorda que, o mais próximo que esteve da mesma foi quando aprendeu a tocar flauta, na disciplina de música.

A música surgiu na colectividade, na Associação Recreativa Caprichos da Moita, onde, por sorte, o seu professor da escola também lá dava aulas. Por cada novo acorde, melhoria técnica ou empenho demonstrado, tinha permissão para tocar um dos seus temas favoritos: Kurt Cobain e Green Day eram uma escolha frequente.

Para si, a música resulta da sua intuição, no entanto, sempre achou que para enveredar por esta área e cantar, teria, à semelhança das suas referências, saber compor as suas próprias canções e, inevitavelmente, de aprender a tocar guitarra. Manteve-se na associação até dominar um instrumento e fazer canções, quando sentiu que já o sabia, passou a estudar a solo.

Crescer na Vila da Moita abriu-lhe portas e fomentou relações. É uma vila pacata, é certo, mas por outro lado trouxe-lhe oportunidades que talvez não tivesse tido em cidades maiores. A sua veia criativa aliada ao “sangue na guelra” e a vontade de trabalhar levaram-no a abraçar iniciativas e mostrar as suas valências nas mais diversas áreas.

De destacar a sua exposição individual, na Biblioteca Municipal da Moita, com os seus trabalhos académicos, nomeadamente de desenho vectorial e fotografia, bem como, a organização do festival de música inserido na Semana da Juventude, que contou com três edições consecutivas. Sempre pertenceu a várias bandas de garagem e sob este mote, Alex e os seus amigos, ficaram responsáveis pela curadoria dos artistas e das bandas convidadas, sendo que a eles cabia a responsabilidade de “abrir os concertos”.

Estava na sua praia, sabia que era aqui que queria estar, mas ao mesmo tempo desconhecia a possibilidade de se dedicar a esta carreia a tempo inteiro. Diz, humildemente, que não era um supra-sumo, mas que tinha vontade e corria atrás e, como tal, as coisas aconteciam.

Assim, como uma grande maioria, sentiu a necessidade de estudar, a primeira opção seria Design de moda, mas ficou pelo Design Gráfico, que se revelou uma boa surpresa.

Estudou no Montijo, Lisboa estava “off the limits” para os seus pais. Era uma cidade grande, incrivelmente aliciante e, aparentemente, perigosa.

Porém, agora esta é a sua cidade, é aqui que se sente em casa. Uma cidade cosmopolita, riquíssima em termos culturais e fervilhante.

“Quando comecei a passar mais tempo em Lisboa, tinha uma postura constante de absorção. Era capaz de passar o dia no Martim Moniz, depois ir para o Adamastor, jantava em casa de alguém, ou então, sempre que a Susana Pomba organizava umas vernissage, em que um artista plástico importante expunha uma peça ou performance que só estaria ali naquela noite, eu não faltava.”

 “No que diz respeito à música tudo acontece, uma banda que venha de fora e que goste vai com toda a certeza tocar no MusicBox. Há muita coisa a acontecer aqui.”

Ler Capítulo 2

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Alex e Ben

É uma relação de anos. Começou bem antes de formarem o colectivo dos D’Alva e faz-nos viajar até 2010-2011.

Para Alex D’Alva, Ben Monteiro é um mentor. Para além de ter sido com ele que aprendeu a interpretar a música sob uma perspectiva mais de análise e deste ser o seu principal impulsionador, segue-o desde o tempo em que pertencia aos Triplet, uma banda de punk, com grande expressão internacional. Era a sua banda favorita, que seguia para todo o lado. Num desses festivais que organizava na Moita, os Triplet foram convidados. Logo após a actuação da Banda de Alex, Ben Monteiro, gostou do que ouviu e perguntou se as letras seriam da autoria do nosso convidado.

Uma coisa leva a outra, começaram a reunir-se mensalmente para trabalhar até que, por insistência do Ben, Alex tenta a sua sorte. Depois de muito empenho e hardwork começa a cantar ao vivo essas novas músicas. Algum tempo mais tarde, a dupla junta-se e actua, acabando por lançar um EP pela “editora fetiche” de Alex, a lisboeta Flor Caveira. Um marco na sua carreira, o que para alguns pode ser apenas um detalhe, para Alex, um verdadeiro apreciador e como diz a brincar, “nerd” da música, significou fazer parte de um grupo muito especial de criativos e de trabalhar com uma editora de referência. “Foi histórico!!!”

Inicialmente tinha em vista uma carreira a solo, no entanto, sendo este maioritariamente um trabalho de equipa, Alex acreditou que não faria sentido "arcar com os louros sozinho". D’Alva surgiu como o nome que melhor definira um colectivo.

O single “Verdade Sem Consequência” traz já algumas novidades, um ritmo mais maduro, denso, mas que segundo Alex não marca, de todo, o compasso nem o tom deste novo álbum.

Até ao momento, foi o trabalho mais pessoal de todos. Alex diz que conseguiram falar sobre questões e temas que há alguns anos atrás jamais teria vontade, sequer, de falar em voz alta. Confissões nunca antes feitas que só foram possíveis pelo facto de resultarem de um trabalho de equipa assente num exercício de empatia, na vontade e capacidade de se colocarem sob o ponto de vista de outro e interpretarem as realidades individuais.

Para Alex, a música pressupõe um exercício libertação de todos e quaisquer “pré-conceitos”, não prega verdades absolutas, nem acusações, afasta-se das certezas e levanta ainda mais questões.

“Este álbum levanta questões, não diz que as coisas são preto no branco. Assenta, precisamente, na vontade de falarmos sobre os diversos tipos de cinza que existem entre essas duas cores. Talvez o outro CD fale sobre as cores que existem à volta, mas este é mesmo sobre os cinzentos.”

Escrevem, tocam e produzem as suas músicas, sozinhos. Para Alex escrever é algo de libertador, normalmente fala sobre crises e situações que despoletaram em si momentos de ruptura. É através da música que expia essas energias.

Não está nesta carreira para ser um rockstar com todo o destaque e adereços a ela, normalmente associados, está nisto porque pretende despertar nas pessoas aquilo que os seus artistas favoritos despertam em si quando os ouve.

“Quero ser a música do quotidiano dos meus fãs, o safe space para viver as emoções. Quando alguém disser isso sobre a minha música, aí sim, sentir-me-ei completo.”.

Aguardamos com muita expectativa este novo álbum, até lá, Alex!

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