Coração Alecrim: Um Mundo à parte

Grace

Coração Alecrim: Um Mundo à parte

por20 Mar 2017 lmanifesto

Travessa de Cedofeita, número 28.

Na montra lê-se: green, indie, vintage. Três palavras de ouro que automaticamente nos inspiram a desacelerar e repensar.

Abrandámos e passámos a imponente porta ilustrada com desenhos dignos de capa de um conto infantil.

Aí sim, sustivemos a respiração e ficámos suspensas, mas desta vez, como se levitássemos sobre uma corrente de memórias. Estávamos em pleno centro do Porto e, de repente, fomos transportadas para um ecossistema muito especial, como se numa cápsula do tempo tivéssemos viajado e aterrássemos na estufa/atelier da nossa avó cool e com alma de artista!

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Dulce Daniel

Olhámos para todos os lados e tudo parecia viver num ritmo muito seu, num poiso especificamente pensado para ele. Sim, falamos de objectos, de plantas, de fotografias, não de pessoas, porém, o carinho com que foram escolhidos e organizados inspira-nos a estas comparações.

O nome Coração Alecrim passou a fazer todo o sentido. Coração porque o projecto, e tudo o que dele deriva, nasce de dois corações portuenses muito especiais: o da Rita Dixo e o da Filipa Alves; alecrim, porque é a planta da renovação e que, para cúmulo, conjuga ainda elementos antidepressivos naturais. Aí está, tal e qual como o que sentimos ao entrar naquele inusitado lugar!

A Filipa chegou ao mesmo tempo e Rita já estava lá dentro à nossa espera, juntamente com o seu fiel ajudante, o Pai!

Por instantes, ficámos perdidas entre os milhares de detalhes e peças que queríamos colocar debaixo do braço e levar imediatamente para casa.

Maioritariamente, a Loja Coração Alecrim, abraça projectos portugueses, marcas made in Portugal que de convencionais nada têm, porque todas apresentam um twist muito próprio, contemporâneo e uma estética especial! Mas o Pantone que predomina é o verde: o verde dos aloés, o verde das suculentas, o verde de um sem-número de plantas!

Sentámo-nos bem no centro da loja, num sofá estilo capitonê em pele castanha, uma interessante plateia de plantas presenciava a nossa conversa!

Rita foi a primeira a falar e explicou-nos um pouco sobre si e sobre a origem deste “casamento”.

Sou formada em Filosofia e a Filipa em Medicina Tradicional Chinesa e Fotografia. Tinha o Projecto Alecrim, dedicado ao upcycling e a Filipa a loja de roupa vintage Wohh!, na Rua do Rosário. Cruzávamo-nos aqui pela loja, a Filipa vinha aqui fazer umas comprinhas ou eu ia lá e assim começamos conversar. Mas quando nos aproximamos mesmo foi no mercado no Primavera Sound, foi aí que surgiu uma cumplicidade maior que nos permitiu entender que tínhamos gostos parecidos e que podíamos fazer coisas interessantes. Nessa altura, a Filipa já fotografava casamentos e surgiu a ideia de complementar esse projecto e assim acabámos por fazer algumas decorações de casamentos com peças que eu tinha no Projecto Alecrim!

 

Quando o upcycling surgiu nas minhas investigações, eu já gostava apesar de só haver lá fora. Hoje em dia, vamos ao Pinterest e somos bombardeados por tantas imagens que, às páginas tantas, já não sabemos onde começou a nossa criatividade e acabou a do outro, somos muito influenciados. Porém, na altura em que abri a Loja Projecto Alecrim, em 2010, não tinha essas fontes nem passava o tempo que passo hoje em dia na internet. Até acho que nessa altura tinha mais o meu espaço de criação. Bem, mas no fundo, sempre gostei de transformar as coisas, de pegar nelas e inventar outras, de lhes dar uma segunda vida. Só que sempre me disseram que esse trabalho era demasiado poético e pouco comercial! Acho que o facto de ter estudado estética me ajudou bastante, sinto-me bem a organizar coisas e faço-o aqui na loja. Penso e crio um mundo específico só para aquele objecto, naquela mesa. 

Filipa insiste:

Tu és criativa, as peças que fazias tinham uma beleza muito própria. Eram simples fotografias às quais davas uma nova vida, colocavas uma rendinha e ficava logo diferente.

Um romantismo que talvez derive dessa veia introspectiva e filosófica, que a terá permitido voar e encontrar um caminho de criação.

Já Filipa, apesar de se ter formado em Medicina Tradicional Chinesa estudou Artes até ao 12º e herdou da mãe o gosto pelos trabalhos manuais que, de quando em vez, recuperava alguns móveis lá por casa!

Para além disso, volta e meia, comprava umas coisinhas em viagens e em mercados, sempre gostei de ir à Feira da Vandoma, por exemplo. Cheguei a uma altura da minha vida com imensas coisas guardadas, roupas, objectos, acessórios, e um amigo deu a ideia de abrir uma loja online e pôr os meus “ tarequinhos” à venda, e foi o que fiz! Isto foi há 9 anos atrás, onde praticamente não havia lojas vintage online em Portugal! A par disso, tirei um curso de fotografia porque era preciso fotografar essas coisas e, ao mesmo tempo, surgiu o espaço Artes em Partes, onde acabei por pôr as minhas coisinhas à venda. Fiquei lá 5 anos enquanto estudava fotografia. Senti, a dada altura, que estava no momento certo para mudar a minha vida e foi aí que conheci a Rita que, por acaso, também estava a mudar o projecto. E, assim, “casámos”!

Uma morada habitada por centenas de preciosidades e objectos mas que, ao mesmo tempo, transmite uma harmonia improvável, que a distingue, e torna tão confortável e acolhedora.

Para nós é bom ouvir isso porque achamos sempre que está tudo uma confusão! É difícil, tem muito trabalho por trás. Às vezes vende-se uma peça e automaticamente aquele mundinho que havíamos criado deixa de fazer sentido! Para nós, o ambiente é muito importante, vivemos um bocadinho disto nas nossas casas e acredito que é por isso que a nossa mensagem é tão forte e passa para as pessoas que nos visitam!

Há quem adjective o projecto de “uma loja do mundo”, que tanto poderia estar no Porto como noutra cidade ou capital…

Sim, algumas pessoas e jornalistas já disseram que poderíamos estar aqui ou em Nova Iorque, por exemplo. É um bocadinho assustador mas, ao mesmo tempo, é muito bom, é um reconhecimento! Normalmente quem nos diz isso é quem nos visita e vem da Austrália, de Paris.

 

Estamos neste nosso mundinho e não vivemos nessa realidade de que a nossa loja é assim, somos simples e as mesmas pessoas de sempre. É engraçado ouvirmos as pessoas a puxarem-nos para a realidade e dizerem “não, isto é bonito!” Nós fazemo-lo porque é o que gostamos e porque é o que faz sentido ser e ter! Mas, claro, sabe muito bem ter esse reconhecimento.

Já reparámos que há lojas que nos têm como referência. No outro dia esteve aqui uma menina holandesa que disse que queria abrir uma loja e a inspiração, seria a Coração Alecrim!”

As peças vintage têm mais valor por si?

Para nós que gostamos, sim, faz todo o sentido usar e procurar o vintage. Saber que estás a comprar um objecto que já foi usado, que tem 70 anos, uma história, uma vida e que a pode continuar, é espectacular… isso para nós tem muito valor! Gostamos de dar essa segunda vida às coisas! Houve alturas em que me dediquei a trabalhar peças que estavam rachadas ou esbotenadas, chávenas que transformava em jarras, por exemplo, mas isso acaba por se tornar difícil para as pessoas entenderem e comprarem, mas, na realidade, o upcycling é isso! Acho que se a peça passou no tempo, chegou até nós e continua a ser bonita, deve ser aproveitada. Lá está, partimos sempre numa perspectiva sustentável, se pouparmos essas coisas de irem para o lixo é sempre bom!

Resgatando um tópico que falámos há pouco, sentimos que a Coração Alecrim tanto poderia estar no Porto como noutra capital mas, ao mesmo tempo, é tudo tão nosso! Têm essencialmente marcas portuguesas, há algum critério?

Há vários. Acima de tudo, temos de gostar e tem de ter como base os nossos princípios. A nossa base é a sustentabilidade, tudo o que é local, vintage, a estética e o verde!

A Natureza é uma paixão patente em cada esquina, as plantas nascem do chão, revestem paredes, completam molduras, estão suspensas, podem até ser levadas (em formato de postal) para casa ou enviadas para outro país. Não é só a beleza, é a tranquilidade e a pureza que emanam que nos prende.

Sim, gostamos muito! A Filipa gosta muito de fazer fotografia de natureza.

De uma forma geral gostamos da natureza. Nas nossas casas essa presença é constante. Eu cresci no meio dos vegetais, das flores, das árvores de fruto, já que os meus avós eram agricultores. Então, tenho uma ligação muito forte com a natureza e fazia todo o sentido trazermos isso, que faz parte de nós, para a Coração Alecrim. Depois, é uma forma de embelezar o espaço e porque é sempre bom termos plantas à nossa volta, são lindas!

A loja é a nossa imagem, a nossa vida. Tem a ver connosco, é tudo muito natural, não é pensado e não há uma estratégia! Porém, há passos que queremos dar, como por exemplo, neste momento, estamos a focar-nos na nossa colecção de roupa, vamos fazer o lançamento Primavera –Verão no dia 1 de Abril, e que tem por base peças vintage onde privilegiamos os tecidos portugueses, ou que pelo menos são comprados cá. Reutilizamos restos de tecidos de fábricas, sendo a produção é local e usamos algodão e linho!

Nesta altura já tínhamos saído do interior da loja e estávamos no encantador e pequeno pátio. A tarde passou a correr mas o sol e a vontade de viver um pouco aquele cantinho exterior, que apesar de numa fase de mudança, continua lindo e com um relaxante aroma a jasmim, aguçou a nossa curiosidade e quisemos saber o motivo de tal revolução.

É um novo projecto, uma oficina-cozinha, não um restaurante, a comida a ser explorada é comida de verdade. Há uma base muito grande de investigação e workshops! A comida vai ser interpretada numa vertente mais didáctica e o Hugo Dunkel vai ficar à frente do novo espaço.

Ainda sem data marcada mas será para breve!

Regressámos ao interior da loja, já com as bochechas ruborizadas do calor que se fazia sentir naquele pequeno microclima exterior e, precisamente no momento em que iniciávamos as despedidas, (diga-se que o fizemos por diversas vezes, mas um novo tópico acabava por surgir!) Rita apresentou-nos o cantinho das recordações. Afixadas na janela responsável por deixar entrar e difundir aquela luz especial e nostálgica q.b. da Coração Alecrim, estavam fotos de momentos importantes: de amigos, do núcleo de artistas que fazem parte da loja e de clientes que fizeram questão de deixar algumas palavras de agradecimento. Memórias que ocupam um local especial e de destaque!

Obrigada, Rita e Filipa, pela simpatia e pela coragem de apostarem num projecto diferente e independente que nos permite repensar os valores tão originais e fundamentais que são, muitas vezes, esquecidos!

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