A Arte, enquanto elevação do espírito humano, ganha forma física, através de uma multiplicidade de canais. Para muitos, cozinhar é um desses veículos de criatividade. Uma forma de Arte. Os diferentes gestos da confecção são fragmentos de um amor maior, o do resultado que nutrirá o corpo, mas que, também, pode ser rico ao olhar.
Marta Jerónimo, criadora da Conrad´s Bakery, é detentora daquelas "mãos especiais" para a Arte de cozinhar. Os Bolos que confecciona são pequenas esculturas detentoras de grande complexidade visual. O processo de materialização, dissecado em várias etapas de criação, foi documentado por nós, até ao resultado final, um Bolo de Chocolate. Tão simples... Porém, surge a dúvida: Comemo-lo ou ficamos apenas a contemplá-lo...

Sabemos que tens formação numa área completamente diferente. De onde surgiu o interesse pela culinária e pastelaria?
É verdade, a minha formação nada tem a ver com pastelaria, nem tão pouco com comida. Eu formei-me em Psicologia, na área de Cognição Social, mas muito rapidamente percebi que não era isso que queria fazer profissionalmente. O problema é que também não sabia aquilo que queria fazer. Essa incerteza acompanhou-me vários anos, durante os quais fui experimentando várias coisas relacionadas com aquilo que achava que gostava. Trabalhei como assistente de investigação, como monitora nutricional de crianças e cheguei a ponderar fazer o curso de terapia assistida por animais, que juntaria a minha formação com a minha outra grande paixão: os animais. Mas nessa mesma altura, uns amigos decidiram abrir um espaço onde queriam que houvesse também uma zona de refeições rápidas. Assim, eu propus um conceito e ofereci-me para criar e gerir um pequeno café, e foi desta forma que comecei a trabalhar nesta área.
O interesse pela culinária, e em especial pela pastelaria, foi surgindo durante o curso e acompanhou-me durante todo este processo de “procura”. Quando entrei na faculdade não sabia cozinhar absolutamente nada, mas era (e ainda sou) uma pessoa muito caseira e gostava de receber os meus amigos em casa, para comer e conviver. Esta acabou por ser a minha maior motivação para aprender a cozinhar. A vontade de servir bem os meus amigos, de os ver satisfeitos e felizes. A dada altura, não me recordo quando ao certo, apercebi-me que me dava mais prazer fazer doces do que salgados, e foquei-me na pastelaria. Aconteceu de forma natural.

Qual foi a maior dificuldade que enfrentaste no começo desta nova carreira?
A maior dificuldade que enfrentei, e continuo a enfrentar, é a falta de tempo. Conciliar dois trabalhos a tempo inteiro nem sempre é evidente. Mas, como se costuma dizer, quem corre por gosto não cansa… O que é totalmente mentira, cansa na mesma (e muito), mas vale totalmente a pena.
Na tua opinião, o que define a qualidade de um prato? São os ingredientes, a receita ou a mão de quem o prepara?
Julgo que os três factores, em conjunto, são importantíssimos e essenciais para se obter um prato que seja excecional. Mas com qualquer um deles, individualmente, consegue fazer-se um bom prato. No entanto, para mim, o ponto de partida será sempre uma boa receita. Qualquer pessoa, seguindo rigorosamente os passos de uma boa receita, conseguirá fazer algo saboroso e agradável. Poderá não ser excepcional, mas não irá ofender ninguém, com certeza.
Costumo dizer, meio na brincadeira, meio não, que não sei cozinhar, justamente porque sou muito dependente das receitas. Pesquiso muito, sei identificar aquilo que pode ou não funcionar, e consigo adaptar ao meu gosto aquilo que não me agrada. Mas preciso sempre de um ponto de partida — as receitas. Gosto de receitas, de ver os passos que as pessoas fazem para obter aquele prato em específico; gosto de ver o prato desconstruído.
Admiro aquelas pessoas que olham para os ingredientes isolados e conseguem inventar um prato maravilhoso “do nada”. Esses, sim, são os grandes cozinheiros — os “Chefs”. Tenho um amigo que é assim e vê-lo a cozinhar é fascinante, é uma arte! Eu não faço, infelizmente, parte desse grupo de pessoas. O meu processo é inverso: parto de algo que já existe e adapto-o à minha maneira.

Como surgiu a ideia de criar a Conrad’s Bakery?
A Conrad’s Bakery, de certa forma, já existe há muito muito tempo. Desde cedo que tinha o sonho de ter a minha própria casa de chá, onde serviria bolos e bebidas quentes para as pessoas se sentirem aconchegadas. Visionava um espaço cheio de poltronas confortáveis, mantas quentes, uma lareira e o cheiro a chocolate quente no ar. Entretanto, o conceito foi mudando um pouco, adaptando-se à realidade, e a Conrad’s Bakery acabou por nascer, muito mais cedo do que antecipava, devido à procura. Pessoas que seguiam a minha conta pessoal no Instagram, (onde partilhava fotografias de algumas das minhas experiências culinárias), contactavam-me para saber se fazia bolos por encomenda, pessoas que frequentavam o café onde trabalho também me perguntavam o mesmo, amigos também. E assim acabou por nascer a Conrad’s Bakery. Não sei se alguma vez virá a ser aquele espaço que idealizava — provavelmente não — mas, por agora, estou bem assim.
Além da culinária, o que mais te dá um enorme prazer fazer?
Aquilo que me dá mais prazer fazer é estar no sofá, com uma manta quente ao colo, rodeada dos meus animais e das pessoas que me são mais queridas. Seja a conversar enquanto lanchamos, a ver uma boa série ou simplesmente a ler um livro ou a tricotar. Não é por acaso que, já na adolescência, me chamavam “Avó Marta”.
Achas que mais do que ensinar, ou mostrar o mundo da gastronomia, os programas culinários conseguem incentivar (ou despertar) a vocação que muitas pessoas poderão ter?
Não costumo ver programas culinários, mas acho que os tempos em que serviam o propósito de ensinar já lá vão. Acho que hoje são sobretudo uma forma de entretenimento, como muitas outras; não sei se serão capazes de acender o rastilho da vocação, mas espero que sim. Para mim, às vezes servem como fonte de ideias para pratos do dia-a-dia, quando a imaginação está em baixo.

O que mais gostas na cozinha Portuguesa? Quais os teus pratos favoritos?
Não sou particularmente nacionalista no que diz respeito à culinária. Cresci saltitando de país em país e só vim instalar-me em Portugal, definitivamente, quando entrei na faculdade. Isto fez com que fosse habituada, desde cedo, a comer comida de várias origens. A comida portuguesa estava reservada para as férias e ocasiões especiais. O hábito manteve-se e, mesmo hoje em dia, aquilo que como é muito mais uma mistura de todas essas influências do que comida tradicional portuguesa. Contudo, nunca digo que não a uma boa feijoada (com muita farinheira!), a um arroz de pato ou a um bacalhau espiritual. Temos peixe maravilhoso e enchidos incríveis. É incrivelmente fácil comer bem em Portugal.
Qual o melhor conselho que darias a quem está a começar a aventurar-se na cozinha?
Não sei se já estou apta a dar conselhos pois eu própria ainda estou a começar, mas diria para praticar sem parar. A prática leva à perfeição, ou quase. Não ter medo de experimentar coisas novas, de arriscar e de errar. Se não correr bem, não faz mal, volta-se a tentar. Muitas vezes é fácil sermos excessivamente perfecionistas connosco e com o nosso trabalho, e achamos que algo saiu mal quando mais ninguém nota. O mais comum é que, mesmo quando achamos que algo não saiu muito bem, os nossos amigos comem e gostam na mesma!
Qual o prato ou comida que, na tua opinião, todos deveríamos experimentar, pelo menos uma vez na vida?
Tudo. Podemos depois não gostar, e não repetir a experiência, mas é preciso provar tudo pelo menos uma vez. Nunca se sabe!
O que é que não pode faltar na tua despensa?
Pão fresco e manteiga! Se estivesse presa numa ilha deserta e só pudesse escolher dois alimentos, seriam estes. Sou uma rapariga de gostos simples.
Onde vais buscar ideias para a elaboração dos teus pratos, quer em termos de paladar, quer em termos do que achas que vai agradar ao público?
Nesse aspecto, sou um bocadinho egocêntrica. Acabo, quase sempre, por fazer bolos que apelam ao meu paladar e estética, e não vou muito pelo que o público “quer”. Claro que me consigo adaptar e quando me pedem algo que foge um pouco do meu gosto, tento fazer, na medida do possível. Mas, à partida, vou quase sempre fazer aquilo que me agradaria a mim e me daria prazer comer.
Pesquiso muito, a internet é maravilhosa para isso. Julgo que se não fosse a internet nunca faria o que faço. Vou acumulando ideias de sabores e combinações que gostaria de experimentar, e de estéticas que gostaria de reproduzir. Passa muito pelo “wow, que bonito, gostava de ser capaz de fazer um bolo igual a este”. Lanço um desafio a mim mesma, tento compreender como é que as coisas são construídas, e depois faço experiências! Às vezes dão certo, outras vezes não, mas isso faz parte do processo.

Actualmente, a maioria de nós faz imensas refeições fora, quer seja por falta de tempo, ou por falta de motivação para cozinhar. Acreditas que ter uma maior “intimidade” com a cozinha promove a boa culinária e consequentemente maior qualidade de vida?
Temos imensa sorte de viver num país onde ainda se consegue comer bem, ou mesmo muito bem, por relativamente pouco dinheiro. Não acredito que isso vá durar para sempre, infelizmente, e, portanto, há que aproveitar. Mas essa é outra questão. Uma maior “intimidade” com a cozinha, leva sobretudo a um maior à-vontade que, por sua vez, pode facilitar todo o processo de preparar uma refeição. De forma natural, a preparação de uma boa refeição acaba por entrar na nossa rotina diária. A qualidade de vida, por sua vez, passa muito por se fazer aquilo que nos dá prazer. Se o que nos dá prazer não é cozinhar, mas sim comer fora, e temos meios para o fazer, então porque não? Desde que se façam escolhas acertadas sobre o que se come, não vejo mal nenhum nisso. Para mim, que tiro prazer no acto de preparar uma refeição para aqueles que me são queridos, e que procuro pessoas que tiram prazer a comê-la, acaba tudo por funcionar na perfeição.