Carina Soares: It’s a man’s world… or not!

Boyhood

Carina Soares: It’s a man’s world… or not!

por23 Jan 2017 lmanifesto

Esta semana, o tema central explora o universo masculino. À primeira vista, poderá achar esta rubrica um tanto ou quanto desenquadrada. Aparentemente, abordamos o percurso de uma jovem interessante e carismática porém, entrelinhas, falamos de muito mais do que isso. Falamos de uma mulher que singrou num mundo onde as regras são ditadas por um público maioritariamente masculino, mas que com afinco e perseverança se dedicou à arte e assumiu pleno controlo.

Apresentamos Carina Soares, 32 anos, tattooer.

Os seus cabelos claros, lábios volumosos perfeitamente delineados, olhar profundo, combinados com traços delicados e uma beleza doce, ao ponto de fazer parar o trânsito, servem, mais uma vez, para comprovar que as aparências iludem. 

As sweet cute girls também podem surpreender e revelar interesses diferentes do espectável, com percursos less mainstream e mais underground.

Desengane-se, o percurso da nossa entrevistada é a prova de que o processo de prejudging é totalmente old-school.

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Soraia do Carmo

 

Talvez o facto de ser fruto de uma educação com bases liberais, os pais sempre incentivaram e deram espaço para que tomasse as suas próprias decisões, tenha sido o motor desta paixão tão precoce. Como presente, pelos seus sweet sixteen, os pais ofereceram-lhe a primeira tatuagem. A partir daí, foi só uma questão de tempo para que o bichinho pela arte falasse mais alto. 

Iniciou o seu percurso num dos mais conceituados e pioneiros estúdios de tattoos de Sintra, depois seguiu-se Lisboa.

Olhando para trás, não sei se foi pela falta de orientação, pela imaturidade característica da idade, por não saber o que realmente queria ou, simplesmente, por ser uma rapariga num mundo de homens, que acabei por temporariamente desistir desse sonho!

Durante quase 10 anos trabalhou como Make up Artist e acredita que, apesar de a ter afastado daquilo que queria mesmo fazer, esta temporada fez com que adquirisse bases, noções e experiências importantes que a ajudaram a tornar-se na artista que é hoje.

"Eu gosto de tudo o que é visualmente atractivo e valorizo, principalmente, a estética. Apesar de serem profissões diferentes, vejo aqui uma certa coerência. Com a maquilhagem aprendi, por exemplo, a trabalhar a cor e o traço e isso é muito útil para o que faço agora."

 

Mas a  falta de realização profissional começou a falar mais alto e, 10 anos depois, decidiu parar e repensar a sua vida. Arthur Voss, namorado e tatuador profissional, incentivou-a a voltar a desenhar. "Tive um ano inteiro a aperfeiçoar o meus desenhos, o meu traço. Quando me senti mais confiante, recomecei.”

Há temas que me são muito queridos, a época vitoriana e a sua estética. Sou super fã de história, se não me tivesse dedicado a esta área acho que teria optado por me enfiar numa biblioteca só a estudar, seria muito feliz. Porém, a estética, o visual sempre me atraíram muito mais, sempre fui muito feminina e vaidosa!

O meu trabalho acaba por ser uma  mistura de diversos temas que me inspiram. Os meus desenhos, baseiam-se em referências dessa época vitoriana, nos fatos, nas damas. Adoro desenhar o corpo da mulher porque visualmente acho lindo! Também adoro tudo o que envolve o mundo circense. 

Para mim, o mais importante e o que mais gosto é de ver o resultado final, como fica na pele e, claro, a sua durabilidade. Daí optar pelo estilo tradicional americano que surgiu após a Primeira Grande Guerra. No Ocidente, o boom do tradicional deu-se quando nos portos surgiram lojas de tatuagens que ficavam abertas 24 horas e onde os soldados gravavam na sua pele mensagens, nomes das suas amadas... corações partidos.

Definiria o seu trabalho como feminino e bold, pela linha e intensidade.

Apesar de considerar que esta ainda é uma profissão dominada por homens, acredita que as mulheres vão ganhando protagonismo. Afirma que tem sentido uma enorme evolução na mentalidade das pessoas e que isso se vê pela quantidade de clientes que vão surgindo. Mas as suas duas paixões, o namorado e a sua profissão, levam-na para Colónia, na Alemanha, onde aí, sim, se pode dedicar de corpo e alma à sua profissão e onde o leque de oportunidades para as female tattooers são inequivocamente superiores.

Viel Glück und bis bald, Carina!

© 2017 L Manifesto