Mami Pereira

Mami Pereira

Entrar no instagram de Maria Miguel, ou Mami Geographic, é verdadeiramente breathtaking.

Falamos de fotos, sim, naturalmente, mas fotos de cortar a respiração, fotos que eternizam viagens e experiências inspiradoras; fotos escolhidas a dedo para nos arrebatarem ao ponto de nos questionarmos sobre o verdadeiro sentido e significado da vida.

Há sensivelmente 10 anos atrás, Mami, rendeu-se. Depois de uma viagem que ainda hoje se encontra gravada na memória e no coração, concluiu que a sua vida não passava por ouvir o despertador tocar every single morning, não passava por 4 paredes de um escritório e, muito menos, por estar sentada oito horas por dia em frente a um computador.

São poucas, mas são cada vez mais as pessoas que param, pensam, rompem com a “jaula de ouro” que as limita e fogem do convencional; pessoas que não cedem à mesmice e à sufocante cultura de trabalho e vivem a vida à sua medida e de acordo com os seus interesses e prioridades. Não falamos de uma vida facilitada, mas sim de uma vida em que cada dia é pensado para ser usufruído ao máximo com base num exercício que é, sem dúvida, o maior desafio de todos: conhecermo-nos.

Essa foi uma das muitas lições que aprendemos com a convidada desta semana, a escritora, eterna viajante e epicurista: Mami Pereira.

 

Fotografia: Soraia do Carmo

Texto e Produção: Margarida Marinho

Maquilhagem: Joana Bernardo

 

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Mami

Definir alguém acaba por ser sempre redutor e complicado. A cada dia que passa, algo novo surge, novos interesses e aprendizagens, assimilam-se experiências que se acumulam e se fundem com um sem-fim de histórias e vivências passadas.

Podemos, no entanto, identificar na nossa convidada alguns dos traços que ajudam a explicar a sua personalidade e percurso livres.

Mãe e Pai. A primeira variável que detectámos e que faz parte da equação cujo resultado é o ∞, num eterno contraste entre o romântico e o real.

A mãe, ligada ao mundo da criação, das histórias, do ballet, era produtora da Companhia Nacional de Bailado e fazia, frequentemente, acompanhar-se da pequena Maria Miguel. O Teatro Nacional de S. Carlos e o S. Luís foram, até aos 13 anos, o seu “quintal”. Um espaço privilegiado onde vivia, respirava e absorvia aquele mundo artístico e imaginário como se de uma realidade se tratasse. Os cenários, as roupas, as personagens que se criavam, a beleza de assistir ao encontro de dois corpos longilíneos e delicados e à subsequente elevação da bailarina, apaixonavam-na vezes sem conta e faziam-na viajar.

Já o pai influenciou-a numa direcção oposta. Era jornalista do semanário político, O Diabo, fundado em 1976 por Maria Armanda Falcão, um fervoroso liberalista que vivia e retractava a realidade da forma mais pura, pratica e real. Daqui talvez tenha herdado o gosto pela escrita, o espírito crítico e ironia que tanto a caracterizam.

São duas faces de uma moeda, duas influências antagónicas que, se analisarmos em detalhe, conseguimos claramente identificar na nossa convidada. O lado romântico que a impede de abdicar de uma versão apaixonada e singular da vida, lema esse que ainda hoje transporta para a sua realidade ao ponto de brincar e se definir como Falkor’s Rider, o lendário luckdragon que habita em “Fantastica” na obra Neverending Story, de Michael Ende; e, do outro lado, o consequente choque de realidade que, inevitavelmente, se dá durante as suas viagens “mochila às costas”. Define-se como Zorba’s aprentice - personagem incrível do livro do Nikos Kazantzákis que dançava em cima da tragédia da vida.

Mami estudou Comunicação Cultural e História de Arte. Queria ser professora. Já a meio do percurso e durante o primeiro mestrado chegou à conclusão que adorava a área, mas não se revia na profissão. Ainda durante a licenciatura e motivada pelo gosto de deambular pela cidade, iniciou a sua colaboração com a agenda cultural, Le Cool onde acabou por terminar como editora da mesma.

Adora História e adora a velha Lisboa, deambular pelas pérolas e tesouros escondidos, são alguns dos seus hobbies favoritos. Encontrou uma forma de unir essas duas paixões lançando a plataforma que criou e manteve durante alguns anos: A ArqueoLOJISTA. Um site onde dava a conhecer lojas antigas e espaços geralmente desconhecidos do público e que graças aos quais, algumas das mais autênticas características e tradições de uma Lisboa passada e de herança em vias de extinção, perpetuavam. Um projecto quase de “serviço público” que lhe valeu o reconhecimento de inúmeros seguidores e um convite para expor as suas fotos em Curitiba, no Brasil.

Sou uma mulher com uma alma de 50 anos num corpo de 35, feminista, nostálgica, talvez por ser Caranguejo com lua em Aquário. Vivo de memórias e, por isso, as fotografias são tão importantes para mim!.

Epicurista. Para Mami, o prazer vem de coisas tão simples como explica a letra da música do Malhão: “comer e beber ó trim tim tim, passear na rua…”. Prazeres que busca quer esteja por terras portuguesas, quer esteja na mais recôndita vila na Nicarágua (btw, um dos seus destinos favoritos). 

Sinto que o único dever que tenho comigo mesma é o de acordar e querer viver esse dia, ao ponto de quando voltar para a cama pensar que foi mesmo bom. Sou super mental e se não fizer essas coisas vou naturalmente ser infeliz e, pior de tudo, vou ter a consciência disso!

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Índia- A viagem

Diz-se muito caseira. Quisemos entender como. 10 anos volvidos e dezenas de países visitados, um número que não consegue avançar com exactidão, aquele termo parecia não se aplicar.

Na verdade, Mami revela que em cada viagem, o seu percurso normalmente não coincide com o de um turista dito “normal”.

“Viajo para ficar. Encontro as minhas rotinas noutros locais.”

 O circuito é totalmente diferente do turístico. Numa versão até low cost, procura um apartamento, a mercearia, procura conhecer os rituais dos locais e assemelhar-se o mais possível, retirando aquele que é o seu principal objectivo; aquela que é a verdadeira essência da sua viagem: a entrega. Brinca e define as suas experiências como, “ficagem”, a qual apenas termina quando se cansa e já assimilou tudo ou quando, eventualmente, o destino não corresponde às suas expectativas.

Vai sem nada preparado e leva apenas uma mochila. Desde a sua viagem de inauguração, à Índia, que se demora cada vez mais em cada destino. Vai de coração aberto, vai para se conhecer.

Vivo para mim. Vivo para me conhecer e é mediante os desafios que vão surgindo em cada viagem, as situações extremas com as quais nos deparámos e, às quais só no momento saberei como reagir, que me vou conhecendo. 

 

Foi uma primeira viagem de muita pressão, de um contraste cultural gigante, de uma abrir de olhos sem comparação, mas que a levou a descobrir um lado de si, um espírito e uma vontade que desconhecia. Um país de contrastes, sim, onde ao contrário do que Mami prega e acredita, a valorização da posição da mulher na sociedade se encontra severamente diminuída, mas onde a aura que se sente é tremendamente feminina. Apesar de todas estas diferenças, adorou. Já lá voltou, desta vez, evitando os grandes centros urbanos o lhe permitiu descobrir e contemplar a outra beleza da Índia.

Conversámos durante umas boas horas e as peripécias são mais do que muitas, algumas delas já abordadas em crónicas que redigiu e às quais adiciona sempre um toque de humor e ironia que, para quem tem o prazer de conversar com a nossa convidada, são-lhe mais do que naturais e que apenas reflectem a forma como pensa e encara a vida.  Já dormiu em redes na praia, já comeu arroz durante dias a fio, já foi mordida por sanguessugas, mas para si tudo isso faz parte desta jornada.

Contudo, nas breves características que vai revelando sobre si, o adjectivo “aventureira” não é enumerado, se bem que, depois de algumas histórias partilhadas, ficou mais do que certo de que se aplica na perfeição.

Não sei se sou aventureira, talvez. Sinto que sei reagir mediante as situações e quando tem de ser, tem de ser e não penso em alternativas.

Começou por viajar com a grande amiga, Rita, mas foi Inês quem a acompanhou durante vários anos. Hoje em dia, o namorado é o parceiro daquela que considera ser o único e verdadeiro investimento, a única experiência da qual é impossível regressar igual.

Saudades? Gosta da sensação de voltar, é uma eterna apaixonada por Lisboa e pelas pessoas que aqui tem, aliás, diz despudoradamente que consegue ausentar-se durante 6 meses porque tem um núcleo muito forte por aqui, o que lhe permite ter a estabilidade necessária para voar.

Volta, mas sempre com vontade de partir:

 De cada vez que vejo algum turista por Lisboa ou alguém com uma mochila sinto imensas saudades e quero voltar.

 

Enquanto a partida não chega, Mami, arregaça as mangas e dedica-se a tudo aquilo que possa considerar uma mais-valia e que, de preferência, a ponham em contacto com pessoas e pressuponham experiências enriquecedoras.

Já fui empregada de mesa no restaurante de um amigo.

Investe nos seus trabalhos de escrita freelancer e fotografia, cria e vende suculentas, bem como,  roupa que vai comprando ao longo das suas viagens pelos seus mil e um destinos de sonho.

Se não estiver a fazer nada disto, estará com toda a certeza a ouvir os vinis do Les Baxter ou a devorar ficção científica.

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Pelo mundo…

Já aqui dissemos que se considera uma nostálgica e as fotos são a forma de conseguir eternizar os momentos e os locais incríveis pelos quais vai viajando há cerca de 10 anos.

“É importante conseguir dar às coisas o aspecto que quero que estas tenham, de acordo com o que senti, para quando, daqui a alguns anos, chegar o momento de olhar para trás e recordar“.

Fã de Martin Parr e Slim Aarons nas suas fotos tenta captar momentos engraçados, castiços (como gosta de dizer), com recurso a cor.

América do Sul, África, Ásia são os destinos frequentes e estas são algumas das fotos incríveis que nos permitem viajar pelo mundo através dos seus olhos.

Jaisalmer e Jaipur, Índia.

Leon, Nicarágua.

Malawi

Diani, Quénia

Tsavo East, Quénia.

Laos

Ella, Sri Lanka.

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